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“O barulho é muito maior que o fato”

Ainda não é possível prevê impacto local da Carne Fraca

A Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal na sexta-feira, ainda não tem impacto calculado no mercado regional da pecuária. O Acre é autossustentável no consumo de carne, mas o fato de que o consumo possa sofrer redução no resto do país, a partir do escândalo exposto pela PF, deve represar o produto aqui no Estado e isso deve impactar no preço para o produtor.

Se parte da carne que o Acre comercializa vai ficar aqui, a diminuição do abate é consequência imediata. É uma dedução. Ainda não há números oficiais divulgados pela Federação de Agricultura e Pecuária. O presidente da instituição, Assuero Veronez, minimiza o cenário escandaloso exposto por dois anos de investigação da Operação Carne Fraca.

“O barulho é muito maior do que o fato”, analisa. “A operação durou dois anos. Deve ter fatos concretos. Não há dúvidas quanto a isso. Mas, pelo que foi apresentado, é possível dizer que foi uma situação muito mais midiática”.

Qual o impacto da Operação Carne Fraca no Acre? Vai ter?

Eu creio que sim. O impacto vai ser no mercado. Eu acho que vai haver uma retração no consumo inicialmente. Eu acho difícil que uma dona de casa de uma grande capital vá comprar carne pela insegurança que a notícia provoca.

Lembrando que o mercado já vinha com redução de consumo.

Isso. Já tinha uma redução dos tradicionais 40... 42 quilos per capita ao ano, teve uma redução de 27 por cento por conta da crise. Isso se agrava um pouco mais. Não só o mercado interno, mas também as exportações. Talvez, as exportações não seja o problema dos mais sérios porque quem importa conhece muito bem a qualidade da nossa carne, da nossa indústria.

Mas, não houve uma queda de contrato? Houve carne com salmonela comercializada com a Europa...

Eles só importam após várias missões que aprovam rebanho, frigoríficos. E, além disso, o mundo precisa da carne brasileira. Somos o primeiro exportador de carne bovina, o primeiro de frango, o quarto de suíno. Então, não dá pra ficar sem a nossa carne. Abre oportunidade para se baixar preço, renegociar. O impacto no preço vai haver. O preço [preço para o produtor de carne, para o pecuarista] já não estava lá essas coisas... quem vai pagar a conta maior vai ser o pecuarista.

O consumidor já pagou, né?

Há uma confusão que é preciso ressaltar. Esse problema apontado pela operação diz respeito à carne processada. Não é a carne do açougue.

É a carne da Fátima Bernardes?

É a carne processada.

O Acre não é autossustentável no consumo de carne?

É. Nós não vivemos só do consumo interno. Nós não compramos carne de outros estados em grande quantidade, mas nós vendemos carne para outros estados. Se cai o consumo lá fora, os frigoríficos aqui começam a ter dificuldade de vender carne, começa a estagnar a venda. Naturalmente, diminui o abate aqui. Aí eles vão negociar novos preços.

É possível falar em demissões?

Não. Isso ainda não foi sentido. Qual vai ser a proporção? Não sabemos. Agora, o impacto no mercado do valor da arroba, possivelmente, vai existir. Agora, espero que isso tudo seja passageiro.

Mas, o problema é grave e enorme. Há justificativa.

O problema não é grande. O problema foi mostrado como se fosse grande. O problema é muito pequeno e muito localizado.

O ministro Blairo Maggi disse que dos 600 frigoríficos sifados (com SIF, certificados pelo Ministério da Agricultura para abate), a Operação Carne Fraca constatou irregularidade em 18.

Além disso, dos 11 mil funcionários públicos que atuam no setor constatou-se a atuação criminosa de 33. Por isso que eu digo que há uma desproporção da ação da Polícia Federal e a divulgação que se deu com o fato concreto.

Mas, houve crime.

É claro que é preciso coibir as práticas ilegais. E tem que punir com todo rigor. É preciso coibir a corrupção? Claro. Mas, daí a fazer disso um baita de um circo... me parece um pouco de estrelismo de delegado, de juiz, de promotor que estão nessa onda de virar estrelas na espiral dessas investigações, dessas operações.

O que precisa ser revisto pelas empresas e pelo Governo?

Vai ser um momento de consertar muita coisa. Por exemplo, há necessidade de que o Ministério da Agricultura disponibilize urgentemente fiscais agropecuários. É preciso que se faça concurso. Na época da Kátia [ex-ministra da Agricultura, Kátia Abreu], havia expectativa de admissão de 60 fiscais quando eram necessários 600. E quanto às empresas, é preciso observar o seguinte. Ontem [sexta-feira, 17], a JBS e a BRF perderam 6 bilhões de reais. Você acha que empresas tão grandes vão colocar em risco tanto interesse?

Mas, a investigação mostrou...

São problemas pontuais, localizados, principalmente em frigoríficos menores. E, como eu disse, tem que punir com rigor os envolvidos. Mas, o mercado sabe da qualidade da carne produzida no Brasil. O Brasil é grande demais nesse segmento para ser descartado. Quem tem, por exemplo, 27 por cento do mercado internacional de carne de frango não pode ser desprezado.

E as consequências no curto prazo para o setor?

Talvez fiquem sequelas. Uma investigação que durou dois anos e que enseja uma operação desse tamanho deve ter fator concretos. Sem dúvida nenhuma. Agora, daí a você atingir toda a cadeia da carne com essa virulência toda é muito preocupante. Eu acho que está havendo no Brasil um pouco de excesso por parte das autoridades judiciais e isso não é bom. Eu vi a entrevista do Moscardi [delegado federal que conduz as investigações]. Ele é o mesmo da Operação G7. A entrevista dele... me pareceu muito frágeis os argumentos dele, muito sem certeza de nada. Não o achei seguro e com convicção formada para detonar uma operação desse tamanho.

O produtor de carne defendendo frigorífico?

O nosso setor [produtores de carne] tem todas as críticas ao JBS. É uma relação que nem sempre é fácil, mas com os outros também não é fácil. O fato é que o JBS é mais complicada. Além disso, somos críticos também pelo fato de a JBS ter virado esse conglomerado monstruoso com dinheiro público. Muito dinheiro. Nunca gostamos dessa concentração que houve que foi financiada com dinheiro público [BNDES]. Concentrou demais a indústria. Mas, por outro lado também nós não queremos destruir o JBS. Porque seria um desastre para o país.

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