A pedagogia da Umbanda e os desafios do ambiente escolar no contexto da Lei 10.639/2003

Foto: Diário de Pernambuco

O 15 de novembro é uma data celebrada em todo país, sendo um feriado festivo em que Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a nossa República. Nesse mesmo dia, em 1908, em uma Seção da Federação Espírita na Cidade de Niterói/RJ, Zélio Fernandino de Moraes incorporou pela primeira vez o “Caboclo Sete Encruzilhadas”, surgindo ali a umbanda, uma religião tipicamente brasileira em que mistura-se elementos de povos originários, africanidades, elementos do catolicismo europeu e do kadercismo francês. O que na concepção de Renato Ortiz1 é o resultado direto das transformações vivenciadas num determinado período histórico da sociedade brasileira.

É importante frisar que, ao longo da história de nosso país, existem diversos relatos de cultos à Orixás,tendo como exemplo os feitos aos Inkisses, Voduns, Encantados, Exús, Caboclos, Pombagiras, Erês exercendo trabalhos de caridade em terreiros de candomblés. Mas a sua celebração como casa de culto se dá apenas a partir de Zélio Fernandino, tendo como princípio religioso o exercício da fé e da caridade.

Segundo aponta Gumbelli2 o reconhecimento das religiões de matrizes africanas no Brasil deu-se através dos movimentos encabeçados por de Edson Carneiro Arthur Ramos e Nina Rodrigues, considerados percussores dos estudos sobre as religiões e reivindicavam a proteção por parte do Estado aos adeptos tanto do candomblé quanto das demais ramificações religiosas afras.

Com o estabelecimento da cultura religiosa europeia no Brasil e a estratégia de sobrevivência de culto através sincretismo religioso, a fé umbandista passou por um violento processo de marginalização, perseguição e estigma. Suas entidades religiosas passaram por um processo de profanação de demonização, criando assim um tabu em falar e compreender sua estrutura religiosa, tornando um desafio falar sobre o tema no ambiente escolar.

A Lei 10.639/2003, busca corrigir uma dívida histórica que a sociedade brasileira tem com a população afro, ao determinar a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-Brasileira, incorporando aos currículos escolares temáticas que abarquem a luta dos negros no Brasil, assim como sua cultura, aspectos religiosos, sua cosmologia e contribuição na formação da sociedade nacional.

O espaço escolar é um local plural, um ambiente para além do desenvolvimento do conhecimento científico, é um ambiente para construção de saberes, de desenvolvimento de relações sociais, ambiente fundamental no processo de socialização, para os alunos é um local onde pode estabelecer uma relação social nos mais diversos contextos e experiências no desenvolvimento do ensino e aprendizagem, portanto, é um espaço fundamental para se debater temáticas silenciadas em nossa história oficial.

Assim como na escola, os centros de umbanda são espaços de aprendizados e troca de saberes e ensinamentos, de construção, representação hierárquica, respeito ao sagrado, de socialização e consolidação de relações sociais com o sagrado. Portanto, é um ambiente de valorização de conhecimentos tradicionais que devem ser preservados em nossa história oficial.

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africanas são determinantes. Em suas orientações de ensino descrevem de maneira direta um entendimento de que as religiões afro-brasileiras são parte do conteúdo a ser ministrado nas escolas e que a educação deve atender ao que é explicitado no texto da lei: o reconhecimento e a valorização da história, cultura e identidade dos diferentes povos que habitam o Brasil, em particular os descendentes de africanos

Desse modo, a construção de uma pedagogia da Umbanda no ensino escolar deve ser pensada através de ações afirmativas e de políticas públicas de promoção da igualdade racial, para que o senso comum que estigmatiza o pensamento religioso seja desconstruído, bem como ocorra o rompimento com toda forma de discriminação existente quando se fala nesta religião. Além disso, é fundamental valorizar as raízes umbandistas, junto aos seus princípios de fé e caridade. Faz-se necessário, então, a elaboração de estratégias educacionais, com o objetivo de diminuir o preconceito fundamentado pelo racismo religioso que infelizmente marca presença em boa parte de nossa população brasileira.

Saravá Umbanda!

Referências bibliográficas

BRASIL. Contribuições para implementação da lei 10.639/2003. Brasília: Unesco/MEC, 2008.

GIUMBELLI, E. A presença do religioso no espaço público: modalidades no Brasil. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 28, n. 2, p. 80-101, 2008a.

ORTIZ, R.A morte branca do feiticeiro negro: Umbanda e sociedade brasileira. 2. Ed. São Paulo: Brasiliense, 1999.

É natural de Itacoatiara/AM. Professor EBTT de Sociologia na Universidade Federal do Acre. Atua na área de ensino/pesquisa e extensão no grupo GESCAM/UFAC, NEABI/UFAC e Diálogos UNSL/RO. Cientista Social, estuda religião de Matriz Africana (candomblé de Angola) e suas relações de dominação e estruturação. É colaborador da revista eletrônica latino-americana Armadeira Cultural, e do grupo SetorNorte. É autor de capítulos de livros e artigos publicados em periódicos e anais.

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