Meu cabelo crespo é poder!

No texto desta quinzena na coluna “Antirracismo em Pauta” me propus a conversar com os leitores sobre o cabelo crespo. Aprendi com a musa inspiradora do Neabi/Ufac, Nilma Lino Gomes (2006) que cabelo e corpo são expressões da identidade negra, portanto, uma construção da representação social. O cabelo não é um elemento neutro no conjunto natural, ele é transformado pela cultura em uma marca de pertencimento étnico-racial. Pois, nenhuma identidade é construída no isolamento, são negociadas a vida toda por meio do diálogo com outres.

Cabendo aqui ressaltar que as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, como bem afirma Stuart Hall (2006), no qual um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas, desde o final do século XX. Portanto, a ideia de seguir padrões estéticos imposto também começa a entrar em declínio e novas identidades e afirmações identitárias vão surgindo.

Confesso que a ideia de cabelo, apesar de parecer uma discussão simples, sempre me foi um ponto inflamado de discussão, por este motivo também me proponho a falar sobre. Por mais de 20 anos me abstive de pensar sobre a ideia de cabelo (principalmente cabelos crespos), indo bem na esteira do mito da democracia racial “tá tudo bem, aqui não existe problemas com relação à raça”. Por viver em uma sociedade tão racista quanto a brasileira, fui levado a passar mais de duas décadas raspando o meu cabelo crespo (cabelo este que hoje tenho orgulho), dessa forma me afastando de uma identidade que também me recusava a entender e aceitar.

Por muito tempo compreendi o racismo de forma naturalizada e não crítica, não percebendo que ao podar um pedaço de meu corpo, estava podando também parte de minha identidade. Mas também, qual criança/adolescente vai entender o sentido de ser relegado a uma inferiorização sistemática apenas por conta de um traço físico seu? Qual criança/adolescente vai entender o sentido de ser chamado de “cabelo de bombril” em diversos espaços em que frequenta, inclusive na escola? Obviamente que a reação, sem nenhum direcionamento acerca destas questões, seria afastar-se daquilo que lhe causava este mal-estar. Ninguém gosta de ser zoado! Apenas anos depois, já adulto, é que compreendo que aquilo que influenciava a me podar de fato era o racismo, não me permitindo viver minha identidade negra. Hoje sou orgulhoso do meu cabelo crespo.

Opto por contar meu caso, pois acredito que existam muitos outros semelhantes e até mesmo mais violentos, em que pessoas, principalmente crianças e adolescentes, são obrigadas a se podar por conta da perversidade racista que paira sobre a sociedade, em detrimento de uma idealização negativa e inferiorização dos traços, da história e da cultura e de tudo aquilo que é negro.

Como bem afirma nosso amigo Baco Exu do Blues (2018) “Tudo que quando era preto, era do demônio e depois tudo virou branco e foi aceito”. Aqui me remeto a ideia de inferiorização da cultura negra, que quando é apropriada por pessoas brancas passam por um processo de aceitação maior. Mas, para além disso é importante pensar que por longos anos a população negra, principalmente as mulheres, passaram por momentos de violências e mutilação de si, em detrimento do racismo arraigado na sociedade e no imaginário social. Transformando seus crespos em lisos. Transformando suas identidades em “não-identidades”. Transformando suas existências em “não-existências”. Cedendo às investidas racistas, em que coloca o cabelo crespo como “ruim” e o cabelo liso como “bom”, mexendo com o imaginário identitário destas sujeitas.

Quando rememoramos a escravização, nos pegamos com o “detalhe” de que um dos primeiros atos dos escravizadores para com as/os escravizadas/os era o de raspar a cabeça dessas/es mulheres e homens, considerado ato de mutilação. Vale destacar que para muitas etnias africanas o cabelo era considerado uma marca da identidade e dignidade.  É nesse sentido que a colonialidade[1] perpassa o imaginário social, não mais raspando, mas criando uma cultura de alisamento, no qual o crespo e o cacheado sejam podados e padrão de beleza de cabelos lisos seja tido como regra dentro da sociedade. Os métodos de dominação e de impedimento das identidades negras apenas mudaram de formas, o sentido permanece o mesmo.

O cabelo crespo é ancestral. Nossos traços físicos são ancestrais.

Marsha Hunt e a imagem de seu grande cabelo afro se tornaram um ícone internacional da beleza negra, depois de aparecer na produção londrina de “Hair” em 1968. Foto: Evening Standard / Stringer via Getty Images. Fonte: National Museum of African American History and Culture.

Para a população negra o cabelo crespo carrega significados culturais, políticos e sociais importantes. Aqui o cabelo crespo é visto como uma marca da negritude nos corpos, sendo este um elemento que compõe o complexo processo identitário, por isso me remeto a ideia de “não-existência” e “não-identidade”. Pois, em detrimento do racismo esses processos são impedidos e/ou não pautados de maneira positiva, como deveriam ser.

Ter cabelos crespos é compreender que sempre existirá olhos voltados a sua cabeleireira. Na maioria das vezes esse olhar vem carregado de racismos (inclusive, aquele mais sútil que o agente nem percebe), até mesmo nos elogios. Aqui me recordo de um caso, não isolado, em minhas andanças pelas noites rio-branquenses, onde fui abordado por uma pessoa que imediatamente chega tocando em meu cabelo, o que por si só já é uma invasão, e não obstante, desfere algumas palavras, acreditando ela ser elogio:

“- Nossa, mas teu cabelo é tão macio, não é duro”.

Eu apenas sorri e saí do local, estava em momento de diversão e não queria essa discussão naquele momento, mas essa atitude martela minha cabeça até hoje. Pois, o que se espera de um cabelo crespo é a textura de uma palha de aço, assim como nos apelidos que eu recebia em minha infância e adolescência.

Outro ponto importante a ser destacado nessa conversa é, pegando emprestado as palavras de minha diva inspiradora Luísa Nassim, na música “Jaguatirica Print”, na banda Luísa e os Alquimistas (2019), “Meu cabelo é top, mas eu peço que não toque, até que eu diga que pode”, não é gentil, não é elegante e muito menos elogio chegar colocando a mão no cabelo de ninguém. Cabe aqui enfatizar que “pegar no cabelo é tocar no corpo” (GOMES, 2006), e ninguém deve tocar o corpo de alguém sem a permissão, com o cabelo não é diferente.

Nesse sentido, o cabelo é um dos principais ícones identitários para a população negra, pois sua representação se constrói no cerne das relações sociais e raciais. E para além de muito lindo, o cabelo crespo representa nossa cultura, identidade, força, resistência, poder e ancestralidade. E não vai ser o racismo que vai nos tirar a alegria e a glória de esbanjar um crespo lindo pelas ruas.

Meu cabelo crespo é poder!

[1] Tema já discutido nessa coluna. PEREIRA, M. D. S. Política pública de ações afirmativas não é esmola, é obrigação. In: ANTIRRACISMO EM PAUTA. Agazeta.net. Rio Branco, 14 mai 2022. Disponivel em: https://agazeta.net/coluna-da-casa/antirracismo-em-pauta/politica-publica-de-acoes-afirmativas-nao-e-esmola-e-obrigacao/

Baco Exu do Blues. Bluesman. São Paulo-SP: EAEO Records, 2018.

GOMES, N. L. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

Luísa e os Alquimistas. Jaguatirica Print. Natal-RN: Rizomarte Records, 2019.

Mestrando no Programa de Pós-Graduacao em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (PPGE/UFMS). Acadêmico de Licenciatura em História na Universidade Federal do Acre (Ufac). Membro do Neabi/Ufac.

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