10-02-21-quentinhas-da-redação

Reunião com Pazuello é retrato da gestão no Acre e no país. Quando Petecão reforça que o Acre foi um dos estados mais contemplados pelo governo Bolsonaro e que tem R$ 100 milhões nos cofres para gastar na Saúde há uma pergunta sugerida

A relação do governador do Acre com a bancada federal nunca esteve tão tensa. A reunião com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, realizada na noite desta terça (9), apenas expôs o “climão”. O encontro foi um fiasco e mostrou o retrato da gestão pública não apenas no Acre, mas no país.

Pazuello apresentou a fatura de mais de R$ 100 milhões enviados ao Acre para o combate ao novo coronavírus; prometeu trazer aeronaves da Força Aérea Brasileira para transferência de pacientes para outros estados, caso o colapso do sistema perdure por muito tempo e não demonstrou muita disposição em enviar mais vacinas além do que já foi calculado.

Como se não bastasse, o ministro não perdeu a oportunidade de destilar preconceitos em relação aos cidadãos da região amazônica. Em um determinado momento da fala, Pazuello praticamente culpou a cultura do povo manauara pelo colapso no sistema de Saúde em Manaus. “Caboclo do Amazonas tem o costume de comer com as mãos e não lavá-las”, debochou. “Além disso, não cumpre regras e nem usa máscaras”.

O ministro afirmou que Manaus está com uma rede “desorganizada para o tratamento da covid-19”. Ele disse que é a Capital que tem o menor número de leitos de UTI’s do país. A lembrança tinha razão de ser: o medo dos parlamentares acrianos de que todo Estado se transforme em uma “nova Manaus”.

A percepção de que o encontro com o ministro foi um fiasco não é compartilhada pelo coordenador da bancada federal do Acre, senador Sérgio Petecão (PSD/AC).

“Tenho 32 anos de mandato. Foi a maior reunião que eu participei. O ministro [Pazuello] foi muito atencioso. Estava todo o secretariado do ministério. Disse que o Acre foi um dos mais contemplados até hoje no governo Bolsonaro. O Estado tem mais de cem milhões [de reais] na conta”.

A fala do senador, aparentemente despretensiosa, é cheia de cálculo. E precisa ser contextualizada. Na quinta-feira da semana passada (4), a bancada federal se reuniu com o governador Gladson Cameli. O ponto de agenda com os parlamentares foi a gestão da Saúde, pandemia do novo coronavírus e vacina contra a Covid-19.

Mas a reunião virou manchete na fala da deputada federal Mara Rocha (PSDB/AC) que pediu exoneração de jornalistas e familiares de jornalistas que, mesmo fazendo parte da folha de pagamento oficial, mantêm postura de assessorar sem bajular. Sobre aquilo que se pretendeu discutir, de fato, houve pouca evolução.

Na segunda-feira (8), o governador Gladson já se organizava para embarcar para Brasília para participar da reunião com o ministro Pazuello. Recebeu um telefonema ainda no aeroporto e decidiu permanecer em Rio Branco. O semblante de Cameli mudou após a ligação telefônica: a fatura da aproximação junto ao governador de São Paulo, João Dória, começa a apresentar os primeiros sintomas políticos. O Palácio do Planalto orientara Pazuello a não receber Gladson. Por isso, a ausência do governador na audiência.

O mimo de Petecão ao ministro não é, portanto, gratuito. Para Petecão, estar ao lado de Pazuello na fotografia tem um preço. Quando Petecão reforça o raciocínio ministerial de que o Acre foi um dos estados mais contemplados pelo governo Bolsonaro e que tem R$ 100 milhões nos cofres para gastar na Saúde, qual é a pergunta que o senador Petecão sugere?

A pergunta é: “como é que o governador Gladson, que foi um dos mais contemplados pelo presidente Bolsonaro na pandemia, permite que a Saúde entre em colapso?” A declaração de Petecão grita isso entre uma linha e outra. Um grito que o senador peleja para que ecoe até 2022.

O coordenador da bancada também não fala de quão tensa foi a reunião prévia da bancada, realizada às 11 horas, ontem (terça, 9) para ajustar a narrativa antes de encarar Pazuello. Não houve economia de críticas à gestão de Gladson Cameli. “Foi cacete puro”, diz um assessor parlamentar.

O senador Marcio Bittar (MDB/AC) e o deputado federal Alan Rick (DEM/AC) foram os maiores defensores do presidente Jair Bolsonaro. Não aceitaram a ideia de que o ocupante do Palácio do Planalto fosse criticado pela bancada de um estado que tem cem contos de réis para gastar na pandemia. “Bittar, inclusive, saiu do grupo de WhatsApp da bancada”, diz a fonte parlamentar.

Áudio_ O vazamento estratégico de um áudio do governador tratando do problema para a imprensa local confirma o “climão” apresentado pelo assessor parlamentar.

“As informações e “desinformações” que chegam até o governo federal e à própria imprensa acerca do nosso trabalho têm causado sérios ruídos e prováveis desgastes nas relações políticas do governo do Acre, embora todos sejam testemunhas do esforço sobre-humano que tenho tido para salvar vidas independente de cor, raça, religião ou partido político. Reafirmo que não irei tolerar nenhuma inércia da parte de qualquer membro da nossa equipe ou conivência com as tentativas de alguns políticos de desconstrução de um árduo trabalho pela manutenção das vidas e das famílias do nosso Estado”.

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