"Todas as noites ela ligava para alguém pra conversar", lembra filha de vítima da Covid

250520-maria-das-gracas-foto-materiaMaria das Graças Gomes era ex servidora do Banacre

"O sonho da minha mãe era me ver formando no curso que eu sempre quis, o Direito. E naquele momento [formatura], eu senti que aquela conquista não era minha, era nossa, sempre foi nossa conquista", conta Bharbara Gobbi sobre a mãe, que faleceu vítima da Covid-19 no Acre.

Maria das Graças Gomes, 70 anos, era ex servidora do antigo Banacre, e criava desde o nascimento sua neta Bharbara. Por 23 anos as duas dividiram a mesma casa e a rotina do dia-a-dia como mãe e filha.

"Meus pais me tiveram muito cedo, dois adolescentes. Eram duas crianças tendo outra criança. Minha mãe brincava e dizia que ela me adotou quando eu ainda estava na barriga da minha mãe biológica", lembra Gobbi.

"Todas as noites ela ligava para alguém pra conversar. Pense numa bichinha que gostava de conversar, não tinha crédito de celular que durasse na mão dela. E depois ela ainda reclamava que as operadoras de telefonia "comiam" os créditos que ela nem chegava a usar".

Uma grande paixão de dona Graça era assistir novelas. Mãe e filha se reuniam todos os dias na frente da televisão para acompanhar o capítulo do dia. Por vezes uma ou outra aula da filha era esquecida para que as duas pudessem desfrutrar do mundo juntas.

"Essa rotina de novela nos acompanhou até os últimos dias que ela esteve internada no Santa Juliana. Quando o quadro de saúde dela piorou, para tentar esquecer um pouco do que estava acontecendo, eu disse "mãe, olha a novela, vamos assistir?" e ela respondeu "vamos sim, minha filha". Esse foi o último dia que assistimos novela juntas".

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A família não sabe ao certo como Maria das Graças contraiu a doença, eles acreditam que tenha sido no banco ou supermercado, locais onde ela foi três dias antes de apresentar os primeiros sintomas da doença.

"No dia que seria para ganharmos alta, mamãe começou a apresentar pioras, assim de repente. A saturação do oxigênio dela começou a despencar e os médicos pediram outra tomografia. Quando o resultado saiu vimos que todo o seu pulmão estava comprometido e que seria necessário entubar".

"Estávamos juntos quando meu tio recebeu uma ligação do Pronto Socorro dizendo que era para levar os documentos dela. Nós entramos em desespero porque já sabíamos do que se tratava, mamãe tinha partido e levado consigo metade de todos nós".

As lembranças ficarão para sempre com a família. Para Bharbara a surpresa de receber o anel de formatura das mãos da mãe enquanto faziam as fotos do álbum demonstrou que aquela conquista não era individual, mas coletiva, das duas juntas.

"Dona Graça era uma mulher cheia de qualidade, mas que teve um defeito, somente um defeito, que foi subestimar o vírus. Ela não acreditava na gravidade da situação e achava que era só uma "gripezinha", já que tinha ouvido do seu governante que não era nada grave e só histeria das mídias", conclui Gobbi.