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Aldeia Nova Esperança se transforma em palco para o mundo

Em ritual, pajés invocam os espíritos e pedem bênção aos ancestrais

É noite na aldeia Nova Esperança. Aos poucos, cada vez mais pessoas chegam até o charru, local de reunião da tribo. Lideranças indígenas já estão apostos. Antes da abertura do festival, o cacique da aldeia conta uma história do povo Yawanawá.
 
Depois do relato, o momento mais aguardado: pela décima segunda vez, o povo da queixada celebra e resgata a cultura que vem passando de geração em geração. Por muito pouco, o festival quase deixou de existir.
 
Os convidados de honra ficam sentados em lugar de destaque. Entre eles, os pajés Tatá e Yawá. Duas lideranças não somente respeitadas pela idade mas também pela sabedoria.

É o próprio cacique Biraci Brasil que dá as boas-vindas. Ele agradece a presença de todos e fala da importância de manter vivo o festival.
 
Em seguida, começa o rito espiritual em torno do Uni, a bebida sagrada dos Yawawanás. O liquido, que também é conhecido como ayahuasca, é feito com espécies nativas da floresta amazônica.
 
Durante o ritual, os pajés invocam os espíritos e pedem a bênção dos ancestrais. A fumaça do incenso leva os pedidos até os deuses. Enquanto falam, eles assopram a bebida.

Após o processo, o Uni está pronto para consumo. Antes de servir, o cacique pede para a formação de duas filas, uma dos homens e outra das mulheres.
 
Individualmente, a bebida sagrada começa a ser distribuída. A quantidade é determinada por cada pessoa. Todos são orientados a permanecerem dentro do charru. O efeito alucinógeno do Uni é conhecido como miração. Mas neste momento não é permitido fazer nenhum tipo de imagem. O ritual seguiu pela madrugada.
 
O nevoeiro anuncia a chegada de mais um dia na aldeia Nova Esperança.

Logo cedo, o movimento já é grande. As mulheres são as responsáveis pela pintura dos kenês, os desenhos sagrados do povo Yawa. Desde cedo elas aprendem como fazer e principalmente os significados de cada figura.
 
Seja em tempo de festividades ou não é comum os índios carregarem os kenês. A tinta verde vem do jenipapo e o vermelho do urucum. As figuras podem durar até 15 dias. Os traços da jiboia são os mais comuns, o animal é considerado sagrado pelos Yawanawás.
 
Devidamente pintados e com lanças nas mãos, os guerreiros não estão prontos para a batalha, pelo contrário, eles vão festejar. Em frente à casa do cacique, homens, mulheres, crianças, todos juntos, por um só motivo: dar continuidade a cultura do povo da queixada.

Em roda, eles cantam músicas que remetem a natureza. Cada dança tem seu significado. E com os pés tocando o chão, eles despertam a força física do espaço.

As canções e os movimentos são organizados pelo pajé. A dança do peixe-boi é a mais aguardada do festival.  Talas da folha da bananeira ficam no meio da roda. Sempre em dupla, cada um pega a sua. É hora de acertar as desavenças. Homens, mulheres, turistas e até crianças aplicam dois golpes nas região das costas. As pancadas vão muito além que as marcas de dor.
 
“Não existe o sentimento de raiva e nem rancor entre os Yawanawás. É desta forma que perante a tribo deixamos as desavenças de lado, depois saímos de mãos dadas como sinal de que nada tivesse acontecido”, relata Biraci Júnior.
 
O festival Yawa é realizado há 12 anos. Nesse tempo, pessoas do mundo inteiro têm se encantado com a cultura indígena. Em 2013, 200 estrangeiros de 16 países estiveram na aldeia. A maioria participa pela primeira vez, como é o caso da belga Nanda Niki. “O contato espiritual com a natureza é uma experiência muito gratificante”, revela.
 
Daniel Arraes é acreano, mas vive no Maranhão. Após 30 anos fora do estado, ele viu o festival como uma forma de voltar a terra natal. “Estou muito feliz em voltar ao Acre desta forma. Mesmo longe, mantenho uma ligação forte com o lugar onde nasci”, conta.
 
“A humanidade está doente. O remédio para a cura é a união e o respeito. O festival passa este recado para quem visita a aldeia”, argumenta o cacique Biraci Brasil. Um povo que não esquece a história dos antepassados, luta pela preservação da natureza e mesmo em meio a modernidade busca manter a cultura tradicional. Esse é o povo da queixada, os Yawanawás.

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