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Casos de violência contra a mulher aumentam em Rio Branco

Delegacia registrou 321 casos nos primeiros 50 dias de 2019

As marcas da violência vão bem além da agressão física. Uma mulher, que prefere não se identificar, conhece essa dor… Agredida e violentada, fica difícil esquecer o que passou.

“Você ser agredida, só de você lembrar já dói lá dentro. Você ver que o agressor está impune, que você cruza com ele, você ver ele, você se abala. Você não sabe se vai ser agredida de novo, você não sabe qual vai ser a reação dele, você se estremece.”

Para ela, e milhares de outras mulheres vítimas de diferentes formas de violência, além do momento da agressão, o sofrimento ainda se estende por um longo período. E é a burocracia, o que mais machuca.

Uma das portas de entrada para a rede de proteção à mulher vítima de violência é a delegacia. Registrar o Boletim de Ocorrência e prestar depoimento pode ser bem doloroso, mas é fundamental para que o agressor seja identificado e, posteriormente punido.

Somente nos 50 primeiros dias deste ano, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Rio Branco já registrou 321 inquéritos de violência doméstica ou sexual. No mesmo período do ano passado, foram 241. Ou seja, em 2019 já foram 80 inquéritos a mais. “A gente prega aqui, que tem que ter um atendimento diferenciado na nossa unidade, tem que ter um atendimento humanizado pra gente poder acolher que essas mulheres que chegam assim, tão abaladas,” comentou a delegada Juliana d´Angelis, da DEAM.

A Lei do Minuto Seguinte, de 2013, é pouco conhecida e estabelece que a palavra da vítima é suficiente para o atendimento emergencial, integral e gratuito em hospitais, sem que ela precise, antes, apresentar o Boletim de Ocorrência ou qualquer outro documento que prove o abuso sofrido. Mas, é importante reforçar que a delegacia não pode ser uma etapa descartada. “As unidade de saúde têm que fazer a notificação pra delegacia, porque a agressão física e o estupro hoje são crimes de ação incondicionada, ou seja, qualquer pessoa que tomou conhecimento tem que informar à polícia e a polícia tem que necessariamente instaurar o inquérito”, explicou a delegada.

Apoio

O Centro de Atendimento à Vítima, criado em 2016, é um órgão auxiliar do Ministério Público. Em todo país, o MP do Acre é o único que possui esse serviço. No local, as mulheres vítimas de violência são acolhidas, recebem orientações e são acompanhadas até o momento em que o agressor for punido. Em menos de três anos de existência, o CAV já prestou assistência a 283 vítimas e realizou 4 mil e 500 atendimentos.

“Ela conta na delegacia, conta no IML, conta no CAV, na Casa Rosa Mulher, na Casa mãe da Mata, então a gente tenta trabalhar pra que a rede esteja bastante articulada e que seja mulher não precise contar várias vezes, porque cada vez que ela conta sua história que ela sofreu de violência, ela revive essa violência, então a gente também está expondo ela a uma situação dramática”, disse coordenadora de administração do CAV, Luciana de Carvalho.

Quem também integra essa rede de apoio é a Casa Rosa Mulher. O espaço não é visto como porta de entrada, mas sim de suporte para ajudar a vítima a reconstruir a vida. “Elas são mulheres que já passam por algum ciclo de violência de um tempo muito longo, então elas estão muito fragilizadas, elas estão com a autoestima muito lá embaixo. A gente tem atendimento tanto na área psicológica, orientação jurídica e a nossa psicóloga aqui faz um atendimento, e ela vai ficar sendo atendida até o momento que ela se sentir novamente segura, novamente encorajada,” comentou a coordenadora da Casa Rosa Mulher, Nádia França.

Lei

Uma coisa todos concordam, é preciso tentar minimizar o sofrimento da vítima. Repetir inúmeras vezes a mesma história, causa um sofrimento quase tão doloroso quanto à própria agressão. E essa é a proposta da vereadora de Rio Branco, Lene Petecão. Ela sugeriu a criação de um grupo permanente de mulheres vítimas de violência, que com a ajuda de toda a rede de assistência, vai buscar expor, o mínimo possível, o sofrimento dessas mulheres. “Essa mulher ela passa em vários locais, contando a mesma história. Essa foi uma sugestão de uma colega do Ministério Público, que a gente vai pensar dessa possibilidade dessa mulher evitar esse trauma maior, que se chama reviver àquela história que faz tanto mal a ela.”

O trabalho é unificado e são vários os envolvidos pela mesma causa. Quem atua no combate à violência contra a mulher, conhece de perto a necessidade de se melhorar, ainda mais, toda essa rede. Ideias, propostas e desafios serão sempre bem vindos. “Denuncie pra que a gente possa apurar o caso e consequentemente punir esse agressor”, pede d’Angelis.

Para quem foi vítima de violência, reunir todos os depoimentos em um só evitaria reviver a dor da agressão, “basta falar uma vez, se tivesse como fazer uma gravação, que você só apertasse o play e você não precisasse ficar repetindo, relembrando, seria bem mais fácil.”

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