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Qual o legado de Chico Mendes para os extrativistas?

Estudo analisa resex após a morte de Chico Mendes

O professor de Economia pela Universidade Federal do Acre Carlos Estevão foi convidado recentemente para o conselho construtivo da revista da Universidade de São Paulo (USP) após o resultado de sua pesquisa sobre a vida dos seringueiros de Xapuri após a morte de Chico Mendes.

A pesquisa para tese de doutorado “Experiências de seringueiros de Xapuri no Estado do Acre e outras histórias” foi feita ao longo de quatro anos, iniciada em 2011, orientada pela professora Zilda Marcia Grícoli Iokoi coordenadora do grupo Diversitas, Núcleo de Estudos, Intolerâncias e Conflitos da USP.

Durante 4 meses, Estêvão viveu entre os seringueiros e pôde avaliar como a modernidade tem modificado a vida deles, participando de forma efetiva na vida do seringal.
“Eu trabalhei com a produção partilhada de conhecimento, ou seja, eu gerei conhecimento histórico em parceria com os seringueiros, e minha vivencia na mata era fundamental, “ disse Estevão.

A ideia inicial era estudar Chico Mendes no “imaginário social”, mas o projeto tomou outro rumo. “Eu tentei evidenciar o que aconteceu com os seringueiros de Xapuri, os seringueiros residentes dentro dos seringais de Xapuri, na reserva extrativista Chico Mendes e também nas colocações dentro do projeto de assentamento agroextrativista Chico Mendes (ou Cachoeira), o que aconteceu na vida dessas pessoas do ano de 1988 até 2012, após as morte de Chico Mendes.”

Durante a pesquisa, foram abordados quais novos desafios eles passaram a enfrentar, as dificuldades e os avanços ocorridos para os seringueiros.

O resultado

Segundo o professor, ele descobriu que muita coisa mudou na floresta durante este período. Algumas mudanças foram boas. Outras, nem tanto.

Primeira evidência apresentada por ele é que de 1988 até o início dos anos 2000 não aconteceram mudanças significativas. O extrativismo em crise. Os seringueiros tinham uma vida difícil, com os preços de borracha e castanha em queda.

Isso fez com que eles se dedicassem mais à atividade agrícola. Pequenas criações (inclusive a pecuária) começaram a tomar conta da geografia do lugar.

Ele apontou como principal avanço a facilidade com que os seringueiros chegam ao centro da cidade, viagens que duravam 10 horas, hoje são feitas em 2 horas. Já a principal problemática é a perda da identidade cultural, antes protegida pela atividade extrativista.

A modernidade alterou e muito o dia a dia deles. As histórias contadas pelos mais velhos foram trocadas pela rotina da televisão; o seringueiro que dormia já no início da noite passou a dormir bem mais tarde por conta da energia elétrica.

“O Governo, que se autodenominou ‘Governo da Floresta’, realizou investimentos patrocinados por organizações internacionais que trouxeram mudanças significativas na vida dos seringueiros. Essas mudanças melhoraram a vida deles em alguns aspectos, mas também trouxeram problemas, riscos e prejuízos. A possibilidade do desaparecimento dos seringueiros, deixando o território limpo para outras explorações, é uma das mais importantes questões que a pesquisa apresentou”, esclareceu o professor.

Próximo passo

O professor disse que além da participação na revista da USP, ele pretende fazer um documentário no próximo ano com o relato dos seringueiros que ele gravou em áudio e vídeo durante a pesquisa e que haverá o lançamento de um livro sobre o assunto.

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