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Relatório do Denasus aponta prática de eugenia em aldeia

Liderança Ashaninka diz que fato foi “caso isolado”

Relatório do Departamento Nacional de Auditoria do SUS aponta suposta prática de eugenia na Aldeia Apiwtxa, onde vivem várias comunidades da etnia Ashaninka. Pela narrativa dos auditores, uma criança pré-matura nasceu com lábio leporino e, por isso, teria sido enterrada ainda viva. O fato aconteceu em setembro do ano passado, mas só agora divulgado.

Diz o relatório, fazendo referência a uma fala do avô do recém-nascido: “a criança não havia prestado. O beiço dela partiu. Prestou, não, txai [amigo]. Nós enterrou ela ali (sic). Nasceu antes do tempo. A mãe caiu aqui e bateu a barriga. Quebrou o nenê dentro da barriga”. A mãe da criança morta era outra criança. Tinha apenas 14 anos.
O relato foi presenciado por um integrante das 20 Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena que atuam na região. Esta equipe havia visitado a aldeia dias antes e constatou os problemas na área de saúde da comunidade, inclusive situação da criança com lábio leporino.

O grupo seguiu fazendo atendimentos em outras comunidades com o compromisso de voltar. Ao retornar, um dos enfermeiros da equipe perguntou para o avô onde estava a criança com problemas no lábio. Foi quando, segundo o relatório, o avô informou que a criança havia sido enterrada.

Diz o documento: “Diante do relato do avô, a equipe solicita permissão para ver a puérpera [mulher que deu a luz recentemente]. Parte da equipe se encaminha ao local do sepultamento, quando são surpreendidos por duas crianças indígenas desenterrando um bebê. Escuta-se um som que lembra um choro”.

O documento diz que o bebê apresentava espasmos respiratórios. O enfermeiro tentou fazer “manobras” para estimular a respiração. O médico da equipe foi chamado. Neste momento foi constatado que o quadro clínico da criança era de “pré-morte”.

O problema foi relatado para o coordenador da Atenção Básica do Distrito de Saúde Especial Indígena Alto Rio Juruá, Paulo Roberto Rodrigues da Silva. “São indígenas que nós temos muito cuidado para não ferir a cultura daquela população. Eles são muito tradicionais”, constatou, antes de destacar a seguinte ressalva. “Isso nunca tinha acontecido lá, pelo menos eu não tinha conhecimento”.

O coordenador lembra que o enfermeiro da equipe foi repreendido por um dos indígenas da aldeia pelo fato de ter desenterrado a criança. O profissional da Saúde ficou com receio de voltar a fazer trabalhos na aldeia pelo fato de ter desenterrado a criança. “Eu conversei com o cacique que me disse ‘Paulo, fique tranquilo porque o nosso povo ainda é um povo muito tradicional e fatos como esse sempre acontecem”’.

O relatório do Denasus contextualiza o Ministério da Saúde a respeito das dificuldades em prestar serviços de atendimento de saúde em comunidades indígenas na região. A aldeia Apiwtxa está localizada no Rio Amônea, no município de Marechal Thaumaturgo.

Das 20 Equipes Muldisciplinares de Saúde Indígena que atuam no Dsei Alto Rio Juruá, duas atendem uma região chamada de Bape Xinane, território do Alto Rio Envira onde há comunidades indígenas de contato recente, na fronteira com o Peru.

Na delegacia de Marechal Thaumaturgo, nenhum inquérito foi aberto em função da morte da criança.

Liderança nega que eugenia faça parte da cultura do povo Ashaninka

Francisco Piyãko é uma das lideranças Ashaninkas de maior expressão, tendo, inclusive, assumido cargos públicos na condição de assessor Especial do Gabinete do Governador do Estado. Ele nega qualquer tipo de prática semelhante à narrada pelo relatório.

“Isso não faz parte da nossa cultura. A comunidade Ashaninka jamais vai aceitar uma situação dessas”, afirmou Piyãko. O líder Ashaninka trata a situação como um caso isolado. Ele lembra que a situação envolve uma jovem de 14 anos que havia levado uma queda. “Há crianças que têm deficiência e problemas de saúde e estão vivendo na aldeia normal. Isso não é problema. Eu sou acostumado a ouvir entre os brancos que uma mãe joga o filho na lata do lixo”, compara.

O que chegou a irritar a liderança Ashaninka foi a falta de comunicação entre a coordenação e as lideranças Ashaninkas que foram informados do problema quase um ano depois. Piyãko contesta o relatório no que se refere à falta de comunicação e ainda não sabe exatamente quais providências vai tomar.

O problema já provocou duas reuniões entre as lideranças da aldeia Apiwtxa, desde ontem (22), quando Piyãko foi informado por equipe de reportagem.

“O problema é que tudo o que acontece com um índio vira ‘os índios’”, diferencia o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles, que coordenou a Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira. “Vamos colocar no jornal ‘brancos colocam filhos na lata do lixo’”, comparou.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A comunidade do povo Ashaninka do Rio Amômea da aldeia Apiwtxa vem a público informar que só agora tomou conhecimento do relatório do DENASUS-SENAI que aponta que auditores fizeram documento ao Ministério da Saúde informando que “uma criança prematura foi enterrada ainda viva por ter nascido com lábio leporino”. Afirma ainda o relatório que tal fato foi praticado com o consentimento de uma liderança Ashaninka.

Viemos a público esclarecer:

– que esta prática nunca foi e nem é parte da cultura Ashaninka;

– o fato ocorreu envolvendo uma criança de 14 anos sem conhecimento de seus pais que, na ocasião, encontravam-se numa pescaria distante da aldeia;

– a equipe não levou ao conhecimento das lideranças da comunidade sobre o ocorrido e ela própria sem o consentimento da família, exumou a criança;

– na aldeia existem várias crianças com deficiência física que levam a vida normalmente como qualquer membro da comunidade.

A falta de comunicação dos membros da equipe com as lideranças da comunidade dá a impressão que um fato isolado, que nada tem a ver com a cultura Ashaninka, seja interpretado como prática cultural do nosso povo.

As lideranças da Aldeia Apiwtxa se colocam à disposição para outros esclarecimentos que se fizerem necessários.

Moisés da Silva Piyãko

Presidente da Associação Apwitxa

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