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Semáforos passam a ser pontos comerciais na Capital

Coco, pão, pizza: tem de tudo entre o verde e o vermelho

A crise econômica fez muita gente se reinventar. Prova está nos semáforos da cidade, com tantos ambulantes e até artistas revendendo os mais diversos produtos e entretenimento. Fomos conversar e conhecer um pouco mais desses personagens urbanos e descobrimos histórias de luta, sucesso e muito esforço pelo pão de cada dia.

Não era comum encontrar tantos vendedores ambulantes nos semáforos de Rio Branco. Hoje, a diversidade de produtos vendidos surpreende. Vai do bombom dos meninos do taekwondoo, que juntam dinheiro pra disputar campeonatos, até o pão caseiro, que pelo pouco sal e pouco açúcar, conquista a freguesia.

São tantas histórias, mas um dos principais motivos que levaram essas pessoas à venda corpo a corpo foi a crise econômica.

Nelson Araújo trabalhava como diarista, roçando quintais. A demanda diminuiu e ele se viu obrigado a procurar outra saída pra garantir o sustento da família. Como não tem outra profissão, ele encontrou na venda de água mineral e caldo de cana, uma alternativa.

Contudo, a luta diária tem sido ainda mais dura. “Só tá dando pra pagar as contas e comprar o alimento. Se pensar em fazer outras compras, não dá não”, afirma.
Quando iniciou as vendas no semáforo que fica na caixa d’água do bairro Seis de Agosto, Nelson criou boas expectativas. O negócio ia bem, mas daí surgiu a concorrência.

“Logo no início do verão estava bem, mas foi piorando, apareceram outros vendedores no sinal e a venda caiu muito”, explica.

E como em todo e qualquer ramo, é preciso ter um diferencial. E Nelson tem. Ele serve os líquidos em uma bandeja perfurada, evitando contato manual com os produtos. “Muitas pessoas não compram por que a pessoa leva na mão e assim na bandeja é mais higiênico”, explica.

O diferencial do pão que Sâmira Oliveira revende é o equilíbrio de ingredientes. “Ele não é doce, nem salgado, e ele feito a mão, a mão mesmo, não vai nenhum maquinário”, explica a vendedora que trabalha no semáforo da Avenida Ceará, no bairro Estação Experimental.

Sâmira vende, em média, 60 pães caseiros por dia. Talvez a simpatia seja um dos segredos do sucesso. Ela é muito comunicativa e sorridente. E não pára por aí, o sonho agora é montar a própria padaria, para fabricar os pães e, claro, lucrar mais.

Sair de trás de um balcão de loja pra aumentar a renda da família, para a vendedora, foi a melhor escolha que já fez. “A minha vida mudou totalmente. Hoje posso comprar aquilo que eu nunca pude comprar. Hoje posso olhar pra dentro da minha geladeira e olhar pros meus filhos, quando, às vezes, eles pediam alguma coisa e eu não podia dar e hoje olho dentro da geladeira e posso comprar tudo aquilo que eles querem. A minha vida era muito apertadinha e hoje, o que ganho é três vezes mais do que ganhava”, disse emocionada.

Na Avenida Ceará, também encontramos outro vendedor que tem se realizado com a vida autônoma nos sinais. Elison Soares já foi dono do próprio negócio em um passado pouco distante, e foi lá, que surgiu a ideia, que hoje ele foi forçado a colocar em prática.

“Surgiu através de uma quitanda. Eu tinha uma frutaria e vendia água de coco na frutaria. Só que a quitanda ficou devagar e pensei assim: o dia que eu tiver parado vou vender água de coco no semáforo”, explica.

Antes de vender água de coco, Elison trabalhou como gerente em uma loja de material de construção. Mas hoje, ele garante que não quer voltar a ser empregado. “Aqui tenho meu horário e dá pra mim ganhar uns dois salários mínimos”, afirma.

No corredor, entre os carros, ele mostra o banner que faz a propaganda do produto a venda. Quem perguntar, também vai ter informações sobre a composição e benefício do produto, “Água de coco é boa por que é um isotônico natural. É um produto que não contém açúcar, adoçante, é natural. A aceitação é boa”, explica.

Elison está feliz com o sucesso, tanto que já tem mais duas pessoas trabalhando com ele nos semáforos. Ele abriu uma microempresa com o Sebrae. Mas, adverte: fazer o que eles fazem, não é pra qualquer um. “Não é fácil, pegar esse solzão aqui, não é fácil”, completa.

O calor realmente castiga. O Nelson, vendedor do início da reportagem, por exemplo, já emagreceu nos últimos quatro meses, quando começou no ramo de ambulante, 5 quilos. Ele trabalha de 9 da manhã às 5 da tarde e afirma que às vezes o intervalo para o almoço é tão apertado que só resta tempo para comer um salgado.

E pelo jeito, Nelson vai emagrecer ainda mais. Isso por que o tempo do semáforo onde ele trabalha foi alterado e diminuiu o tempo do intervalo. Com isso ele precisa correr pra oferecer seus produtos, para o maior número possível de motoristas.

A alteração do tempo também tem influenciado nas apresentações do Marcelo Sebastian, o malabarista Peruano que pretende viajar pelo Brasil, através das moedinhas dos semáforos.

Ele parou um pouquinho pra falar com nossa equipe e de tão ofegante não conseguia responder as perguntas. O jovem quase não consegue fazer a apresentação por completo, e quando demora um pouco mais, perde a oportunidade de ganhar uns trocados pela performance.

Pode parecer que esses personagens da vida urbana de Rio Branco não tem nada em comum, muito pelo contrário. Mostram que se reinventar muitas vezes é necessário. Que a timidez não tem espaço quando é preciso sustentar a família e que pra garantir o futuro, de pouco em pouco, de moeda em moeda, é possível alcançar.

“Acho que é a maneira que a pessoa tem de ter sua dignidade, seu salário, sua integridade, de maneira honesta, e honestidade nesse país, tá faltando”, afirma o militar e cliente da vendedora de pães, Ciro Maia.

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