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Soldados da borracha, os verdadeiros heróis

*Dinho Diniz

Um dia desses relembrei com meu pai Raimundo Leite a história de meu avô – já falecido – um dos soldados da borracha – a história conta que muitos nordestinos que foram recrutados pelo exército na década de quarenta para servir como soldado da borracha no norte do país, a fim de trabalharem na extração da borracha, com a promessa de que ganhariam muito dinheiro e depois retornariam para suas casas. Viajando pelo mar até Belém em grandes navios, trocavam de embarcação e continuavam a viajar pelos rios da Amazônia indo ao encontro de seringais para se instalarem e, assim, começarem a trabalhar.
Os cinquenta e cinco mil “arigós”, (como foram apelidados os nordestinos que vinham para região), trocaram a enxada pela faca de cortar a seringa e o balde de colher o látex, tinham uma missão produzir cem mil toneladas de borracha/ano para suprir a necessidade dos países aliados à segunda guerra mundial. Uma calça de mescla azul, uma camisa de morim branca, um chapéu de palha, um par de alpargatas, uma caneca de flande, um prato fundo, um talher, uma rede e uma carteira de cigarros Colomy, todos num saco de estopa que era a mala, ou seja, era o kit soldado da borracha, um “presente” do Presidente Getúlio Vargas.
Os migrantes eram esperados nos portos do Vale Amazônico, os seringalistas escolhiam os mais fortes, os patrões com um caderno na mão ia registrando tudo que os “arigós” iam gastando. A partir daquele momento, começava, assim, a dívida e a escravidão, a lei era da bala, surras, ameaças e morte. Os seringalistas controlavam tudo: comida, remédios, transportes roupa e até as festa que, eventualmente, aconteciam na sede do seringal (sede era onde o patrão morava e, geralmente à beira do rio). Os seringueiros ainda enfrentavam enormes dificuldades, sem conhecer a região tiveram que conviver com a animais ferozes, isolamento, falta de alimentação, os índios e muitas doenças típica da Amazônia como a febre amarela e malária.
Além de “arigós” também tinham o apelido de “brabos”, os nordestinos não sabiam de nada e a exploração dos preços era a garantia de aumento da dívida. A borracha era a moeda de troca um exemplo é do quilo de toucinho que equivalia dois quilos de borracha. Tudo era quatro vezes mais caro. Por outro lado, ter saldo era perigoso, alguns seringueiro forem mortos por capangas para que não recebessem seu dinheiro. Mais de trinta mil nordestinos morreram vítimas de malária, febre amarela e outras enfermidades, além dos problemas decorrentes da dura jornada de trabalho que, geralmente, era de quinze horas diárias.
Quando os preços da borracha despencaram, os seringueiros começaram a fazer pequenas plantações para sua alimentação que anteriormente era proibido pelos patrões para não “perderem” tempo e comprar tudo do barracão, e aos pouco foram abandonados à própria sorte, os seringueiros ao longo dos anos tinham constituído famílias, já velhos e cansados, geralmente com muitos filhos passavam por enormes dificuldades. A saída foi migrarem paras as cidades mais próximas, mais uma vez a procura de melhoria, sem dinheiro e sem instrução foram morar nas periferias e fazer trabalhos braçais. Hoje talvez não tenhamos mais que cem soldados vivos no Acre. Recebem governo federal apenas dois salários-mínimos, isso é o que o governo acha que merecem por desbravarem a Amazônia e doar suas vidas por nosso país, ajudaram a construírem as cidades acrianas e até mesmo a miscigenação do povo acriano. Estes nordestinos são mais que história, são uma realidade que não podemos esquecer, são verdadeiros heróis da Amazônia.

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