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Um gol que não reflete a realidade do futebol acreano

Lance foi o fato mais marcante do campeonato local dos últimos anos

O gol marcado pelo jogador Gessé, de antes do meio campo, que ganhou os noticiários como um efeito extraordinário (porque Pelé não fez), foi o fato mais marcante do campeonato acreano dos últimos anos.  O chute de primeira que encontrou as redes do goleiro do Andirá serviu também para lembrar a penumbra que insiste pairar sobre o campeonato acreano de futebol.

O jovem Gessé virou xodó da mídia nacional.  Gessé, numa noite iluminada, virou atração nacional. Mas quem é esse jogador? Onde surgiu?

Gessé da Silva Araújo nasceu em Senador Guiomard, 25 quilômetros de Rio Branco. Desde os 15 anos joga futebol. Em 2005 participou da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Nos anos seguintes virou jogador profissional e chegou a defender o Holanda, do Estado do Amazonas. Voltou para o Acre e há dois anos defende o time do Atlético Acreano.

Por trás do brilho do gol de Gessé existe uma realidade que não aparece nas matérias veiculadas. Se fosse viver só do futebol, Gessé não conseguiria se manter. Recebe R$ 1,5 mil por mês do clube, isso só enquanto dura o campeonato acreano, ou melhor, três meses.

O craque que conseguiu o feito que Pelé tentou precisa ter outro ofício. Fora dos gramados, ele trabalha num posto de abastecimento. Com o gol espetacular, disse que ficou conhecido, respeitado e espera que sua vida mude completamente, para que possa ajudar os outros.

Gessé talvez tenha patrocinado o melhor lance, ou a melhor coisa que aconteceu no futebol acreano dos últimos anos. Os clubes que disputam o campeonato local estão falidos, endividados. Não podem nem receber dinheiro nas contas por que a justiça manda resgatar o recurso para quitar dívidas trabalhistas. O Gessé treina num campo cercado por um esgoto a céu aberto.

Os outros clubes tradicionais estão se dizimando. O Independência já teve a maior torcida do Estado. Sem recursos, decidiu não participar do campeonato deste ano. A sede só não está abandonada porque a direção do clube alugou para outro time treinar.

A sede social do Juventus, que também está fora do campeonato, está destruída. O campo não tem condições de treino. A sede social do Rio Branco, onde foram realizadas grandes festas e comemorações, o teto desabou, assim como o time no campeonato.

O secretário de Esportes do Estado, Petrolino Lopes, o Pelezinho, disse que a crise no futebol acreano já vem de longas datas. Os clubes estão fechando e é preciso buscar uma saída rápida, antes que os times desapareçam e o campeonato acreano se acabe.

Em Rio Branco existem dois estádios, até modernos para os padrões do futebol local. No jogo entre Andirá e Plácido de Castro, na semana passada, apenas 48 pessoas “testemunharam” a partida. A renda não cobriu os gastos com a energia das luminárias.

No campo, os técnicos tentavam moldar cada toque de bola. Gritos que ficavam sem as testemunhas, já que os torcedores não apareceram. Eram gritos que causavam eco no estádio com tantas cadeiras vazias. A federação tem outro campo, o Florestão, o mesmo que Gessé fez o mágico gol. Em Cruzeiro do Sul, outro belo estádio, mas futebol…

Perpetuação no poder

A Federação Acreana de Futebol tem o mesmo presidente há 30 anos. Antônio Aquino, o Toniquim, acompanhou todas as mudanças por que vem passando o futebol local. Disse que é preciso uma mudança na forma de conduzir o campeonato, como trazer jogadores de outros estados e melhorar a gestão dos clubes, e desabafa contra quem critica seus anos à frente da federação: “são uns bobos que nunca administraram nada. Quando entrei na federação, não havia nada, a sede era alugada, hoje temos um grande patrimônio”, explicou.

O Gessé, que ainda não parou de comemorar o gol, sabe que se o futebol acreano não mudar, seu gol será uma das poucas lembranças boas que o campeonato vai ter por muitos anos.

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