A língua e os fatores extralinguísticos

Márcia Verônica R. de Macêdo

Toda língua histórica apresenta uma estrutura fônica, gramatical e léxica definida e distinta das demais. Nesse sentido, geralmente, em uma língua histórica, como a portuguesa, existem tipos fundamentais de diferenças internas a serem diferenciadas as quais citamos a seguir:
1. Diferenças diatópicas, relacionadas às diferenças de espaço geográfico. Exemplos de Ferreira e Cardoso (1994, p. 12-13): bergamota, mexerica, tangerina, para designar certa fruta cítrica, respectivamente no Rio Grande do Sul, Nordeste em geral, Rio de Janeiro.Outro exemplo: passar mal, significando, no RS, “grave problema de saúde”, e “mal-estar, sem grande conseqüências ou importância” no RJ (SILVA, 2003);
2. Diferenças diastráticas, relativas às diferenças entre os distintos estratos socioculturais da mesma comunidade idiomática. Exemplos: pobrema por problema, poliça por polícia, seje por seja, esteje por esteja, de uso freqüente em grupos de baixa escolaridade (SILVA, 2003);
3. Diferenças diafásicas, relacionadas às diferenças entre os tipos de modalidades expressivas, de estilos distintos, segundo as circunstâncias em que se realizam os atos de fala. Exemplos: a gente vs. nós, como forma inovadora de auto-designação de sujeito. Outro exemplo é tchê, cara, ô meu, com tratamento informal para com um interlocutor no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente (SILVA, 2003);
4. Diferenças diageracionais, relativas às diferenças de faixas etárias anta (significando “esperto”, para uma geração de faixa etária mais alta, no Rio Grande do Sul) e tolo (para os cariocas em geral); o alface por a alface, pespectiva por perspectiva, beneficiência por beneficência, com emprego disseminado por grupos escolarizados, de diferentes níveis e faixas etárias; fateco, casquinha, côdea, para designar a camada externa do pão, segundo se colheu no discurso informal de paraenses, cariocas, sendo côdea restrito a faixa etária mais elevada (SILVA, 2003);
5. Diferenças diagenéricas, relativas às diferenças de sexo (masculino ou feminino), como no vocabulário do seringueiro acreano, no qual há uma tendência dos informantes do sexo feminino a fazerem uso do diminutivo para os instrumentos de trabalho do mesmo: facazinha ao invés de faca, laminazinha ao invés de lâmina, poronguinha, no lugar de poronga, lamparinazinha ao invés de lamparina, e assim sucessivamente, de acordo com (MACÊDO, 2005, p. 157).
Às diferenças diatópicas, diastráticas e diafásicas, correspondem três tipos de subsistemas que possuem internamente relativa homogeneidade garantida pela soma dos traços linguísticos coincidentes. Assim, a partir dessas coincidências pode-se dizer que existem:
a) unidades sintópicas, identificadas mais comumente como dialetos: o dialeto nordestino, o dialeto de Fortaleza, dos Açores, de Portugal, do Acre;
b) unidades sinstráticas, identificadas como as de estratos sociais, temos como exemplos a linguagem culta, a da classe média, a linguagem popular;
c) unidades sinfásicas, ou de estilo de língua, por exemplo, temos: a linguagem formal, a familiar, a literária.
Percebe-se, no entanto,que em cada unidade sintópica, por exemplo, em um dialeto de determinada região, poderá haver diferenças diastráticas (socioculturais) ou diafásicas (de estilo). Além disso, em cada unidade diastrática, por exemplo, a linguagem culta, a linguagem popular, há diferenças diatópicas (regionais) e diafásicas (de estilo); e em cada unidade sinstrática, por exemplo, na linguagem familiar, há diferenças diatópicas e diastráticas.
Compreende-se, então, porque os falantes de uma mesma língua, mas de regiões distintas, têm características linguísticas diversificadas e mesmo se pertencerem à mesma região também não falam da mesma maneira, uma vez que apresentam os diferentes estratos sociais e as circunstâncias diversas da comunicação. Tais evidências deixam nítida a complexidade de um sistema linguístico e de toda a variação nele contida que precisa ser considerada na escola e no ensino da língua materna.

[1] Docente da Universidade Federal do Acre, pesquisadora e doutora em Dialetologia.

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