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A transição capilar começa na raiz do problema

Reencontro com o cabelo natural é no mínimo um grito de liberdade

Transição capilar é um processo de abandono e reencontro, de incertezas e de liberdade. O abandono de químicas que alteram a estrutura dos fios e o reencontro com o cabelo natural que sempre lhe pertenceu. Decidir ir contra os padrões de beleza que durante anos foram impostos pela sociedade é no mínimo um grito de liberdade e um ato de rebeldia.

Durante muito tempo os cabelos lisos perfeitos foram exaltados e adorados, exibidos como a única opção para ser bela e aceitável. O problema está aí, mulheres são múltiplas e belas em todas as suas formas, por que então continuar apenas com o cabelo liso perfeito? Algumas mulheres decidiram não aceitar mais isso. Decidir é o primeiro passo, e não é fácil, afinal a transição capilar não acontece de uma noite para o dia, ela exige paciência, calma e resiliência.

Ao decidir pela transição capilar você descobre muitas coisas, uma delas é que você é livre para ter o seu cabelo do jeito que quiser. A transição é um processo íntimo que envolve aceitação e autoconhecimento.

Os desafios da transição capilar

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Não vai ser fácil. Atualmente, existe uma certa representatividade na internet de cacheadas e crespas, como Rayza Nicácio, Ana Lídia, Gabi de Pretas, o que é ótimo, mas não se deixe levar pensando que um belo dia você vai acordar e ter o cabelo idêntico ao delas. Não caia nessa ilusão porque o processo de transição capilar é difícil.

É preciso aceitar o seu novo visual. Durante a transição capilar o cabelo fica com duas texturas diferentes. Uma parte que está com a química e uma parte natural, ou seja, assim que decidir pela transição capilar seu cabelo não irá ficar completamente crespo ou cacheado. É preciso paciência.

Não é fácil lidar com duas texturas de cabelo diferente na cabeça, o cabelo natural vai começar a crescer e se destacar, enquanto o que possui química vai ficar nas pontas e também chamará atenção. As dúvidas irão aparecer junto com o cabelo natural e em alguns momentos o desespero de não saber o que fazer para deixar o cabelo “apresentável”.

A autoestima é afetada durante o processo, olhar-se no espelho e não saber quem está ali, algumas pessoas podem fazer comentários cruéis. É um cabelo completamente novo para você.

É entender que a transição começa na raiz, não do cabelo, mas sim do problema

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Jamile Santos é estudante de psicologia e passou pelo processo de transição capilar e o descreve como “uma liberdade sem tamanho, me senti mais eu, passei a ver e aceitar que existem diferentes tipos de cabelo, e que todos são belos do seu jeito. Não se trata apenas do que a sociedade enxerga, mas de como você se vê. É entender que a transição começa na raiz, não do cabelo, mas sim do problema. É impossível agradar todo mundo, então devemos tentar agradar primeiramente a nós mesmos”.

Apesar de ter sentido uma liberdade sem tamanho ao fim do processo, Jamile teve muitos medos quando decidiu pela transição. Quando a raiz do cabelo começou a aparecer, aquele primeiro centímetro, ela se recusava a sair de casa sem passar chapinha nos cabelos. “Não queria que as pessoas vissem meu cabelo desarrumado, porque iriam pensar que eu estava ficando descuidada da minha aparência”, diz.

Com muita perseverança ela chegou ao fim da transição, foi cortando a química do cabelo aos poucos em casa mesmo, e quando finalmente realizou o Big Chop não teve a aceitação de imediato. “O processo não acaba no Big Chop como muitos pensam, não acabou para mim, pelo menos, eu tive Scab Hair, então tive que aprender a recuperar o meu cabelo, contei com apoio dos meus amigos e família, o que foi muito bom, pensei em voltar a alisar, mas aprendi a amar e aceitar meu cabelo como ele é. Descobri que o cabelo cacheado é muito versátil e eu posso fazer vários penteados, posso usar tranças ou posso simplesmente usar ele com um volumão maravilhoso”, relata.

A transição foi um processo libertador

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Bruna Kéren é estudante de jornalismo e começou a transição capilar em 2016, optou pela transição porque estava cansada de usar chapinha. “Eu estava cansada, eu comecei muito nova, com 12 anos já fazia chapinha, selagem, plásticas dos fios, progressiva. Eu decidi, já chega de passar por isso, quero ver como é cacheado, quero testar”, diz.

E testou, em meados de 2017 usava a chapinha apenas ocasionalmente quando tinha que sair para algum evento, mas já não usava mais químicas nos cabelos. E em 2018 colocou a chapinha no fundo do armário e a deixou lá. “Eu pensava que depois fizesse o BC eu ficaria curiosa para usar a chapinha e saber de qual tamanho meu cabelo estava, mas eu não sinto mais vontade, só penso que é muito cabelo e vai dar muito trabalho”, relata.

O que levou Bruna a alisar os cabelos foi o volume, “eu via o cabelo da minha coleguinha liso e o cabelo dela era considerado bonito, e eu via o meu e pensava, por que tanto volume? Eu queria o meu cabelo igual o da coleguinha A verdade é que eu não sabia cuidar do meu cabelo, e hoje em dia eu sei”, conta.

O não saber cuidar dos cachos e crespos foi um grande problema para gerações de meninas. A imagem de sentar no meio das pernas da mãe e ela segurar aquela escova e puxar seu cabelo até deixá-lo sem forma alguma na tentativa de alisá-lo é comum a quase todas as mulheres que passaram pela transição capilar. Nos dias atuais, felizmente isso está mudando, uma geração de mulheres está se impondo e ensinando como cuidar dos cabelos crespos e cacheados, está libertando milhares de garotas da sessão de puxões com escova nos cabelos para alisá-los, tirando esse peso dos seus ombros.

“Quando a moça terminou de cortar a parte com química, foi como se ela tirasse um peso dos meus ombros e só jogasse fora. Eu me olhei no espelho e pensei, quem é essa pessoa? Não me reconhecia mais, eu senti o impacto, e eu gostei”, relata Bruna.

O dicionário da transição capilar

Para deixar as coisas menos difíceis nesse período, aqui vão alguns termos que são comuns no mundo das crespas, cacheadas e pessoas que estão em transição capilar.

Big Chop ou BC: O grande corte é o momento em que se deixa toda a química para trás cortando o cabelo.

Scab hair: São mechas ressecadas do cabelo resultado de químicas. O cabelo com scab hair não define e nem possuí volume. Apesar de ser difícil possui tratamento.

Cronograma capilar: É uma rotina de cuidados para o cabelo, intercalando três cuidados principais: hidratação, nutrição e reconstrução.

Hidratação: O processo de repor a água e os nutrientes dos fios.

Nutrição: Os cabelos cacheados e crespos normalmente são mais ressecados que os cabelos lisos, por conta da sua forma que dificulta a oleosidade natural produzida pelo couro cabeludo de chegar até as pontas. A nutrição repõe esses óleos, lembre-se a nutrição é para ser feita usando óleos de origem vegetal, como: óleo de rícino, coco, argan e entre outros. A nutrição pode ser feita usando máscaras para nutrição ou a umectação.

Umectação: É um tratamento onde os cabelos são banhados em óleo vegetal antes de serem lavados, podendo ficar 30 minutos com o óleo nos cabelos ou durante toda a noite, a chamada umectação noturna.

Reconstrução capilar: É a reposição de proteínas nos fios, principalmente a Queratina. É o processo mais potente do cronograma capilar, por isso, só deve ser feito a cada 15 dias ou quando você sentir que o cabelo está poroso demais e necessita de uma reconstrução.

Texturização: Durante a transição capilar o cabelo fica com duas formas diferentes, a texturização é o processo de deixar todo o cabelo com uma textura uniforme. Pode ser feito usando bigudinhos, coquinhos e até mesmo papel higiênico.

Box braids: São tranças colocadas na raiz do cabelo e por toda sua extensão, podendo ou não ser maior que o comprimento do cabelo, depende da sua vontade. Ao contrário da crença popular, não fazem mal para o cabelo, na verdade, protegem o cabelo.

Teste da porosidade: Um copo de água, um fio de cabelo e você saberá dizer qual parte do cronograma capilar seu cabelo precisa mais. Se o cabelo boiar, ele precisa de hidratação, se ele afundar precisa de reconstrução e se não boiar e nem afundar precisa de nutrição.

Finalização: Depois de lavar seu cabelo, hidratar, nutrir ou recuperar, você irá precisar finalizar o cabelo. Usando um creme de pentear ou algum produto semelhante e alguma técnica de finalização, a mais famosa é a fitagem.

Fitagem: Técnica de finalização onde você separa o cabelo mecha por mecha, passa o creme de pentear e as puxa de maneira delicada esticando o cabelo e depois encolhendo formando para dar forma aos cachos.

Day after: O dia depois que você lavou, e finalizou o seu cabelo.

O antes e o depois

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Mulheres começaram uma revolução silenciosa contra um sistema também silencioso que oprimia milhares de garotas por serem do jeito que são. Antes você não via a variedade de cabelos, todos eram padronizados ou estavam na tentativa de alcançar esse padrão. Agora você encontra garotas completamente empoderadas, exibindo seus black power, suas tranças nagô e um sorriso calmo e tranquilo de quem está completamente à vontade e segura de ser quem é.

A diferença dessa revolução pode ser observada em lojas de cosméticos, há uns cinco anos quase não era possível encontrar bons produtos para cabelos crespos e cacheados. Nos dias atuais há sessões exclusivas para cabelos cacheados nas lojas. Ainda há muito preconceito e racismo, mas estamos avançando a cada dia combatendo e desconstruindo esses padrões impostos.

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