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Bairro Cidade do Povo: um lugar de medo

Praças acabam servindo de ponto de aliciamento de jovens

Aterrorizados. Essa é a palavra que melhor define a situação de falta de segurança dos moradores do bairro Cidade do Povo. Nessa reportagem, vamos trazer relatos impressionantes de pessoas que vivem naquele local, mas que por medo pedem para preservar a identidade.

Eles denunciam por que não querem fazer com muitas famílias estão fazendo: indo embora do bairro Cidade do Povo, correndo o risco, inclusive, de perder o imóvel para o programa habitacional. Os moradores apelam por reforço no policiamento e um posto fixo da PM no Complexo Habitacional.

O terror tomou conta do lugar que nasceu com o propósito de dar dignidade e realizar sonhos. Os três moradores do bairro que participam dessa reportagem só aceitaram gravar entrevista em locais distantes de ondem vivem. A condição é compreensível, afinal, no novo bairro de Rio Branco, impera a lei do silêncio.

“As pessoas denunciam que estão com armas atirando lá e a polícia chega dá aquele bacu naquele momento, a polícia nem entra nas casas e eles já tem jogado a arma pra dentro das casas. As pessoas não denunciam com medo por que quando eles dobram na esquina, já estão de novo com arma na mão”, relata o morador.

O homem de 40 anos descreve o que acontece quando marginais ocupam as ruas para amedrontar a população. No bairro Cidade do Povo, todos sabem que a facção Bonde dos 13 se instalou e implantou suas regras.

Para não serem assaltados, os comerciantes do complexo habitacional estariam
pagando uma espécie de mensalidade aos criminosos. Só escapam os permissionários do Mercado Municipal, que contam com presença constante da polícia.

Roubos e furtos podem mudar radicalmente os rumos das famílias que habitam no complexo habitacional. “Tem muitas casas que tem aquele telhado solto, que é só encaixando, então eles vão e encontram muita facilidade pra roubar. As pessoas saem de manhã pra trabalhar e quando voltam se deparam com a casa vazia”, relata outra moradora.

Foi o que aconteceu com uma mãe de três filhos. A casa dela foi visitada por ladrões no início desta semana. Todos os eletrodomésticos e eletroeletrônicos foram levados. “É terrível por que a gente trabalha pra conseguir as coisas e você chega e sua casa não tem mais nada dentro. É terrível você vai dar parte e não tem segurança nenhuma por que lá a gente tá a mercê da sorte”, disse.

O trauma com o patrimônio invadido e a possibilidade de conviver com o medo estão mudando os planos da família da vítima. Ela não imaginava que seria assim na CDP “Eu pretendo ir embora de lá. Por que não tem como você ficar em um lugar que você não tem segurança. É difícil ficar num lugar desse”, afirma.

Segundo os moradores, o que eles estão vivendo no bairro Cidade do Povo não é uma sequência de furtos e roubos. O problema é constante. Na verdade, a falta de segurança aqui é presenciada há muito tempo e virou rotina. Só não chama atenção das autoridades, nas estatísticas por que, na maioria dos casos, quem é vítima, tem medo de denunciar.

Quem pensa em levar a queixa à polícia é ameaçado. E com medo do que possa acontecer com a família, muitos moradores estão trocando suas casas com pessoas de outros bairros periféricos.

Correm o risco de perder seus imóveis, porque as regras do programa Minha Casa Minha Vida são claras quanto à proibição de negociar as unidades. “Todos os dias tem assalto, roubo, furto. O tráfico tá reinando lá. Eles andam de dia com armas. E quem é que tem coragem? Eles são presos de manhã e soltos de tarde”, afirma.

As praças, tão bonitas, estão tendo uma serventia distante do propósito original, denuncia a mulher. “Os marginais estão abordando nossas crianças que eram pra estar no colégio, fazendo curso, estão sendo abordadas pra vender drogas”, denuncia.

Não existe posto policial no bairro Cidade do Povo. De acordo com o chefe da seção de operações do 2º Batalhão da PM, Capitão Velasquez, responsável pela área, o policiamento ostensivo é feito de quatro formas, entre elas, com moto e carro.
Ele reconhece que a regional é grande e não é possível fazer a cobertura que os moradores pedem. Contudo, já existem propostas de implantar um posto policial no bairro Cidade do Povo. “O comando da Polícia Militar vem analisando algumas propostas para que a gente possa alcançar esse nível de trabalho dentro do Cidade do Povo”, explicou.

A Polícia Civil trabalha em outra frente, mas também depende das denúncias para atuar. “Nós sabemos que em muitos locais impera a lei do silêncio. Esses integrantes de facções criminosas acabam causando um grande terror aos moradores, mas as denúncias, as informações que podem ser trazidas até a delegacia de combate ao crime organizado, até a delegacia de combate aos roubos e extorsões não precisam ser de forma explícita, pode ser de forma sigilosa”, disse o delegado Sergio Lopes, da Delegacia Especializada de Combate a Roubos e Extorsões.

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