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PT do Acre quer ver “o panavueiro subir”

A possível interpretação de um cenário regional

Quem não é nordestino e tem menos de 43 anos (ou algo próximo disso) dificilmente ouviu a expressão “eu quero ver o panavueiro subir”. A sentença tem ao menos dois sentidos: um literal e outro subjetivo.

O panavueiro é uma espécie de facão usado no corte da cana. Nesse sentido, querer ver “o panavueiro subir” traz a ideia do mando: o patrão quer trabalho árduo; quer bom rendimento na colheita da lavoura de cana de açúcar.

O sentido menos literal guarda relação com balbúrdia, bagunça. Algo próximo do “chutar o pau da barraca”; “espatifar geral” ou sacudir a ordem (im)posta. Há alguns, mais intimistas, que defendem a relação de “gouche”: fazer o “panavueiro subir” é ser “esquerdo” consigo mesmo como uma resposta ao mundo.

Pois é neste segundo sentido que se observa a postura do PT acriano no que se refere à sucessão de Tião Viana no Governo do Estado. A profecia interna “dos 20 anos no poder” se cumpriu, mas o partido, naturalmente, quer mais. Só não está sabendo direito como conquistar isso.

É uma característica intrínseca aos partidos políticos ser maior do que qualquer governo. No entanto, no Acre, o exercício da gestão pública gerou um trauma interno grande ao PT. Anestesiou.

Desde Binho Marques no governo, os presidentes Léo de Brito, Ermício Sena e, agora, Daniel Zen tiveram uma possibilidade de articulação sem precedentes. Se não o fizeram foi por falta de imaginação ou ressalvas na condução da máquina pública liderada por representantes do partido.

Surpreendentemente, foi na gestão de Tião Viana que o PT teve mais possibilidades de ação. Na prática, as “correntes internas” do partido se enxeriram mais. Ficaram mais atrevidas.

Neste momento, a maior parte dessas correntes aponta Daniel Zen, o atual presidente do Diretório Regional e líder do Governo na Aleac, como o candidato a candidato mais forte.

Zen integra a corrente Democracia Radical, hegemônica no partido. É uma tendência que, talvez, nem conte com a integral simpatia do governador, mas é uma posição do partido e tem que ser respeitada.

E é nesse instante que “o panavueiro sobe”. Zen, assim como Nazareth Lambert e Emylson Farias, tem tudo: capacidade e experiência na gestão pública. Para uma eleição majoritária, no entanto, o trio só não tem uma coisa: voto. Quem tem voto, por enquanto, está calado.

Acertadamente, o prefeito de Rio Branco, Marcus Alexandre, só fala sobre o assunto publicamente ano que vem. Acaba de sair de uma eleição cansativa, gerencia os problemas de uma cidade pobre, que se desmancha a cada chuva, e (o pior) sem perspectivas de encher as burras.

Pragmático que é, o senador Jorge Viana sabe dos riscos de fazer o “panavueiro subir”. Jorge foi o primeiro governador petista no Acre. O partido foi uma extensão direta do governo e ponto. Quebrou pedra com pouca disposição para discussões partidárias.

O senador tende a apoiar Alexandre. Ainda não faz defesa pública e rotineira disto. Mas, deve fazê-lo no momento oportuno. Jorge, no entanto, é um apaixonado por campanhas. Tem intimidade com elas e sabe que muita coisa pode mudar entre pesquisas eleitorais e votos computados.

Fazer o “panavueiro subir” neste momento é deixar-se envolver pela ideia de que Gladson Cameli é favorito. Pode até ser, mas ganhar eleição por antecipação não tem efeito prático nenhum.

Gladson Cameli já pertenceu à Frente Popular e não se sentiu bem tratado por ela: a ocupação do Palácio Rio Branco é uma demonstração de capacidade que mistura muitos sentimentos para o sobrinho do velho Barão do Juruá. A gestão pública pode ser apenas um detalhe.

E o pior: Gladson não tem solidariedade entre muitos de seus pares. Está, na prática, só. Em conversas separadas com duas lideranças mais experientes da oposição, o diagnóstico é um só: “do jeito que está, a oposição não vence seja qual for o candidato da Frente”.

Por esse raciocínio, a tese do “panavueiro” tem lógica. O argumento de “enxergar além do óbvio”, de Daniel Zen, ganha força. Mas, o PT do Acre está disposto a arriscar?

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