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“Ele nos ensinou o que nenhuma escola oferta”, afirma neta de vítima da Covid

Raimundo Melo tinha 74 anos e era taxista aposentado

Raimundo Gomes de Melo, 74 anos, trabalhou durante muitos anos como taxista em Rio Branco, foi pai de cinco filhos, teve alguns netos e bisnetos. Em 2020 contraiu o novo Coronavírus, e acabou não resistindo.

“A gente não sabe muito bem como ele contraiu a doença. Ele saía às vezes para comprar pão, água ou qualquer coisa pra casa. Tudo era desculpa pra ele sair. Muitas vezes não ia protegido e ao chegar não se higienizava, então não sabemos como e onde ele contraiu a doença”, explica Taynara Melo, neta de Raimundo.

Aposentado, Melo trabalhou como taxista fazendo a rota do aeroporto, e ficava aguardando clientes na praça do Colégio Estadual Barão do Rio Branco (CERB). “Minha mãe me teve aos 17 anos, precisava trabalhar e estudar, então, sempre fiquei com meus avós. E desde que eu me lembro, ele trazia bananinha, pipoca ou bolo todo final de tarde, para mim e minha prima, quando voltava do táxi”, conta Taynara.

O pouco estudo não foi empecilho para que Raimundo Melo criasse e educasse seus filhos e netas. “Mesmo diante de muitas dificuldades e recursos escassos, nunca nos deixou faltar alimento, educação e carinho. Somos o que somos por causa de seus esforços e lutas diárias ao lado de sua esposa, minha avó, Dona Oraísa”.

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“Dividíamos o quarto, eu, ele e o meu filho. Nós dois na cama, ele na rede. Passava a madrugada ligando e desligando o ar condicionado para que nós não ficássemos com frio nem com calor. Cuidadoso e amoroso. Todos os dias me ajudava na educação do meu filho, levava-o pra creche junto de mim, e quando faltava meia hora pra buscá-lo, já estava com a chave do carro na mão”.

Por dividirem o mesmo quarto, acabaram compartilhando os mesmo gostos para programas televisivos. O favorito era assistir à novela Amor Sem Igual, da Record TV. “Todos os dias, religiosamente às 19h30, ele me chamava para ver. Assistíamos juntos, às vezes eu repetia as frases que ele não escutava. Ríamos e nos estressávamos, mas esse era nosso encontro. A noite estávamos sempre no nosso quarto vendo ‘a Poderosa’.

“O que ele nos deixa é que mesmo sem tantos patrimônios ou diploma escolar, ele nos ensinou o que nenhuma escola oferta: caráter, honestidade, humildade e perseverança, para estudarmos e sermos homens e mulheres de bem. O maior orgulho dele era falar que tinha filhos policiais, filhas bancárias, que todos passaram pela Universidade Federal do Acre e que éramos sua maior fortuna”, conclui Taynara.

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