Por Natália Lindoso e Pedro Amorim
“Ser mulher é resistir todos os dias.”
A frase se encontra no relato da história de Adaires dos Santos, que transformou dor em recomeço. Cadeirante e sobrevivente de um relacionamento abusivo, ela acreditava que a vida se resumia à rotina de dona de casa. Foi apenas quando conheceu o programa Impacta Mulher, do Governo do Estado do Acre, que Adaires encontrou a liberdade que acreditava ter perdido.
Ao participar de um curso de preparo de bolos oferecido pela Secretaria de Estado da Mulher (Semulher), ela não aprendeu apenas uma profissão, mas também descobriu o valor da independência, “me tornei uma nova mulher”, conta.

Criado em 2023 e oficializado por decreto estadual em 2025, o Impacta Mulher é uma política pública voltada à autonomia financeira de mulheres em situação de vulnerabilidade social e vítimas de violência doméstica. A iniciativa oferece cursos profissionalizantes, palestras de apoio psicológico e orientação para o empreendedorismo, permitindo que cada participante conquiste sua renda e recupere a autoestima.
De Capixaba a Marechal Thaumaturgo, o programa já chegou a 20 dos 22 municípios acreanos, impactando a vida de 1.636 mulheres. Cada turma, cada curso e cada história revelam o mesmo propósito: mostrar que quando uma mulher descobre sua força, ela transforma não só a própria vida, mas a autonomia e a autoestima.

Conheça o Impacta Mulher
O Impacta Mulher surgiu no Departamento de Promoção de Autonomia das Mulheres da Semulher, como resposta à dependência econômica que mantém muitas delas presas a relações abusivas. O programa ganhou status de política pública permanente, garantindo recursos e estrutura para além de uma gestão governamental. Para a chefe de Autonomia Econômica das Mulheres, Vanessa Rosella, o programa é a “menina dos olhos” do departamento.
“Ele visa proporcionar para a mulher uma qualificação profissional para que ela possa trabalhar e gerar a sua própria renda para manter a sua família e ter autonomia econômica. Nas políticas públicas temos que pensar na questão da violência doméstica como um todo, para então garantir a renda e autonomia dessa mulher que é muito importante durante todo esse atendimento que a secretaria presta para ela”, diz.
A delegada de Polícia Civil, Juliana de Angelis, que também atua em ações voltadas para mulheres, concorda que políticas públicas como essa, auxiliam no combate ao fim do ciclo de violência para muitas delas.
“Sabemos que o ciclo da violência envolve vários aspectos, sendo a dependência econômica apenas um deles. Mas aquelas que conseguem se empoderar, que conseguem sua independência financeira, com certeza ganham mais confiança para romper esse ciclo, sabendo que conseguirão manter a si mesmas e aos filhos”, diz.
Como funcionam os cursos
A iniciativa opera em duas modalidades: cursos técnicos em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), com certificação nacional válida em todo o país, e cursos livres desenvolvidos pela própria Semulher. Os primeiros exigem idade mínima de 16 anos e ensino fundamental completo, e incluem áreas como gastronomia, beleza e cuidadora de idosos, essenciais para o mercado local.
“O Senac presta os cursos para a Semulher, que faz a contratação da pessoa jurídica, eles prestam serviço educacional para a gente, e esse certificado tem validade nacional. Então, a mulher pode fazer o curso aqui no Acre, mas caso mude de estado, pode apresentar o certificado”, detalha Vanessa.

Os cursos livres, por sua vez, são mais ágeis e acessíveis, com carga horária reduzida, entre eles, existem os de customização de camisetas, guardanapos, pinturas, crochê, macramê, sandálias e cartonagem.
“Esses cursos livres são desenvolvidos através das professoras que fazem parte aqui do Departamento de Autonomia Econômica. Nós temos três professoras que dão aulas de artesanato. Atualmente, por exemplo, estamos com duas turmas em Feijó e uma dentro de uma aldeia, que é a Aldeia Morada Nova”, diz Rosella.

A servidora da secretaria por meio do Departamento de Autonomia Econômica, Fátima Araújo, é uma das que atuou como instrutora em cursos do Programa Impacta Mulher. Para ela, os relatos de participantes que conquistaram independência financeira e transformaram suas vidas são o que dão sentido ao trabalho.
“No curso do Iapen [Instituto de Administração Penitenciária], ministrei um que iria diminuir a pena, no final a juíza participou do encerramento e decidiu por encerrar a pena delas, isso me emocionou bastante pois elas estavam livres, então fiquei muito feliz”, relata.

Violência doméstica no Acre
A violência doméstica é uma realidade presente na vida de muitas mulheres. Sem perspectivas, às vezes por medo ou insegurança financeira, elas permanecem no relacionamento abusivo. Em números, entre janeiro e setembro de 2025, o estado já registra 4.668 ocorrências, uma média de aproximadamente 520 casos por mês, segundo dados do Ministério Público do Acre (MPAC).

Para a delegada de Polícia Civil, Juliana de Angelis, o combate à violência contras as mulheres exige o cuidado de todos, sociedade civil e órgãos e instituições.
“O problema da violência doméstica e familiar contra a mulher é uma questão complexa, que envolve um contexto histórico e cultural, no qual o machismo é preponderante e a maioria dos homens se veem superiores às mulheres, donos delas. A situação não se resolve do dia pra noite, nem apenas com segurança pública, mas com educação, com acesso à informação de qualidade, com o envolvimento de todos, órgãos públicos e sociedade civil, para mudança de paradigmas”, explica.
Diante desse cenário, o Programa Impacta Mulher surge como uma iniciativa voltada para transformar a realidade de mulheres vítimas de violência doméstica e em situação de vulnerabilidade social. Segundo a secretária de Estado da Mulher, Márdhia El-shawwa, a proposta tem mudado vidas: “elas chegam abaladas psicologicamente, com baixa autoestima, e saem com a autoestima restaurada”, afirma.

A maior parte das mulheres que sofrem algum tipo de violência são negras, do lar e se encontram em situação de vulnerabilidade social, de acordo com dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero e do MPAC. Além disso, locais de difícil acesso também fazem parte das estatísticas. A partir disso, o público-alvo do Impacta Mulher é amplo e inclusivo: mulheres em vulnerabilidade, vítimas de violência, indígenas, negras, trans e mães atípicas.
“São mulheres que precisam de um trabalho e de uma renda, e a gente abre essas vagas, que de ampla concorrência para todos os públicos femininos, sempre priorizando mulheres que foram vítimas de violência e mulheres em extrema situação de vulnerabilidade, para que a gente possa realmente oportunizá-las”, afirma Vanessa Rosella.

Parcerias com instituições
Em 2025, o Impacta Mulher ampliou o alcance das ações por meio de parcerias e de um calendário temático voltado para diferentes públicos. Uma das iniciativas foi dedicada às mães atípicas (mulheres com filhos autistas ou com deficiência)
“Sabemos que essas mães têm uma rotina intensa, dividida entre casa e terapias dos filhos. Por isso, montamos turmas com horários mais flexíveis”, explica a chefe de Autonomia Econômica das Mulheres, Vanessa Rosella.
A ação contou com o apoio da Associação Família Azul, do Movimento Orgulho Autista do Brasil (Moab) e de programas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Acre (Fapac), como Mães da Ciência e Mentes Azuis: “essas parcerias foram fundamentais para garantir que as mães atípicas também tivessem acesso aos cursos e à autonomia financeira”, completa Vanessa.
As colaborações do programa vão além: “nós temos o Basa [Banco da Amazônia], o Sebrae e a associação Elas Fazem Acontecer, que sempre organiza feiras para as mulheres empreendedoras. Temos termos de cooperação com essas instituições para que nossas alunas possam participar e vender seus produtos”, destaca Rosella.
Segundo ela, outras secretarias também atuam em conjunto, como a Secretária de Estado de Indústria e Tecnologia (Seict), que oferta cursos de qualificação, e a Secretaria de Turismo (Sete) e a de Serviço de Água e Esgoto do Estado do Acre (Saneacre), que colaboram na realização das feiras.
Os resultados já aparecem na prática: “Tenho retornos de alunas que continuam produzindo e conseguem gerar renda com o que aprenderam nos cursos”, relata Fátima Araújo, servidora e instrutora do programa.

Histórias de superação: conheça Adaires dos Santos
A história de Adaires dos Santos, cadeirante de 55 anos, e natural de Capixaba, é inspiradora. Ela explica que conheceu o programa a partir do setor de assistência social da Semulher. Vinda de um contexto social de violência e machismo, com ajuda da primeira dama do município, ela conseguiu mudar de realidade.
“Cheguei ao conhecimento do curso através de uma moça que trabalha no setor da assistência social auxiliando as mulheres a não serem dependentes dos maridos. Muitas delas vivem uma vida de abuso e de violência doméstica, porque são totalmente dependentes deles. Então a Secretaria e a primeira dama de Capixaba têm se empenhado em trazer cursos, para que as mulheres tenham meios de viver sem ter total dependência do marido”, esclarece.

Santos viu o curso como saída para a monotonia. Ela é pensionista e, por isso, nunca enfrentou grandes dificuldades financeiras. Cadeirante desde jovem, sempre buscou ser independente e ativa. Trabalhou durante 19 anos em uma mercearia da família, onde desempenhava diversas funções desde do caixa à reposição de produtos, e era considerada o braço direito do dono.
Depois, mudou-se para o Espírito Santo, onde viveu por 22 anos, trabalhou como digitadora, casou-se e ficou viúva. A perda do marido a fez retornar a Capixaba, a cidade natal, onde se casou novamente, mas acabou se divorciando recentemente. De volta à rotina simples entre casa e igreja, começou a sentir o peso da vida monótona e entrou em um estado depressivo.
Mesmo enfrentando as dificuldades de acessibilidade da cidade, buscava se manter ativa. Por isso inscreveu-se nos cursos do programa Impacta Mulher, primeiro de boleira e depois de salgadeira. O professor, segundo ela, foi uma figura marcante e inspiradora. Ela deixa claro que o curso transformou a vida dela e de outras 40 mulheres de sua turma, muitas das quais hoje trabalham por conta própria e alcançaram independência financeira.
“Aqui [no Acre] eu estava com uma vida muito monótona, de casa para a igreja, da igreja para casa, quando recebia ia fazer as compras. Então eu estava entrando num estado depressivo. Então fiz a inscrição para os cursos e o professor foi uma pessoa excelente na minha vida e na vida de todas as 40 mulheres que fizeram esse curso, e tem algumas mulheres que já estão trabalhando, já estão fazendo sucesso e ganhando seu dinheiro”, comenta.

O curso transformou profundamente a vida de Adaires Santos. A partir das palestras promovidas pela Semulher por meio do programa, ela passou a enxergar novas possibilidades e foi incentivada a não se acomodar. Começou a colocar em prática o que aprendeu, fazendo bolos e salgados para a família, com o objetivo de aprimorar as habilidades e, futuramente, abrir um pequeno negócio em Capixaba. Optou por investir nos salgados, já que havia pouca concorrência na cidade e queria trabalhar junto com a irmã, produzindo por encomenda.
No entanto, ela explica que o ciúme do ex-marido interrompeu seus planos. Ele começou a controlá-la, não permitindo que saísse de casa ou continuasse a trabalhar. O comportamento abusivo se agravou até que ela passou a viver praticamente em cárcere privado. Mesmo assim, o apoio recebido durante os cursos foi decisivo. A equipe da Secretaria da Mulher e do Sebrae manteve contato com as participantes e ofereceu orientação e suporte.
“Infelizmente meu ex-marido ficou com muito ciúme, porque eu tinha que ficar telefonando, pessoas me ligavam, encomendavam, e eu estava engajada e queria fazer melhor o possível com a minha irmã que está desempregada. Então, ele deu para trás, não deixou e começou a me impedir de tudo que eu queria fazer Não queria mais que eu saísse de casa, nem trabalhasse com salgados, porque ele dizia que eu não precisava disso. Foi quando ele começou a me manter em cárcere privado”, conta.

Ela esclarece que foi por meio dos materiais informativos do programa que conseguiu pedir ajuda. O resgate foi realizado pelo Poder Judiciário e pelo Cras (Centro de Referência de Assistência Social), levando-a para a Casa Abrigo Mãe da Mata, em Rio Branco. Agora, na capital, ela celebra a liberdade e a independência conquistadas. Com a profissão aprendida, sabe que pode trabalhar em qualquer lugar, produzindo bolos e salgados de qualidade, símbolos de um novo começo e de sua autonomia.
“Eu peguei os panfletos do Semulher e através desses panfletos eu consegui pedir ajuda e fui resgatada de onde eu estava na casa do ex-marido. Então me impactou de uma maneira tão importante e tão forte, que eu tive coragem de sair daquele casamento abusivo. Já aluguei um quarto pra mim, e o que vier pela frente é lucro, porque conquistei minha liberdade e independência financeira. Qualquer lugar que eu estiver, posso fazer os salgados e os bolos que eu aprendi no curso”, diz agradecida.

Hoje, ela se considera uma pessoa melhor e faz questão de incentivar outras mulheres a romperem com ciclos de violência e dependência. Adaires defende que é possível recomeçar, conquistar autonomia e buscar a felicidade fazendo o que se ama. Em suas palavras, o programa Impacta Mulher foi “imensurável”, digno de admiração e reconhecimento.
“Me tornei uma nova mulher com 55 anos de idade depois desse curso. Além de ter aprendido duas profissões, eu também descobri que nós mulheres não precisamos viver dependendo de homens, nem subjugadas. Hoje consigo alertar as mulheres que não devem ficar sofrendo por conta de um teto, a gente tem condição de levantar a cabeça, arregaçar as mangas e começar uma nova atividade e ser feliz”, conclui.
Outras histórias de empoderamento
O programa também alcança mães solo e profissionais em busca de aprimoramento. Em Rio Branco, Raimunda Lima Ricardo, de 37 anos, mãe solo, fez o curso de cuidadora de idosos. Ela explica que conheceu o programa através de uma amiga que trabalha na Semulher e então aceitou o convite para participar.
“O mais importante em um curso de cuidador de idosos é aprender a combinar a capacidade técnica com a sensibilidade humana. Embora as habilidades práticas sejam essenciais, a empatia, a paciência e a comunicação eficaz são fundamentais para proporcionar um cuidado digno e de qualidade”, destaca.

Lima esclarece que o programa desempenhou um papel muito positivo em sua vida, melhorando desde sua autoestima, até a autonomia financeira. Atualmente ela começou a fazer plantões de cuidadora de idosos em alguns hospitais da capital.
“O programa mudou muito minha vida, hoje me considero uma mulher mais confiante, mais dona de mim mesma. Não tive nenhum desafio durante o curso. O programa me deu a autonomia para tomar as minhas próprias decisões e acreditar no meu potencial. Eu já faço alguns plantões nos hospitais como cuidadora e quero falar para outras mulheres que não é para desistir nunca, pois nós somos fortes”, enfatiza.

Além dela, Késia Machado, 37 anos, natural do município de Capixaba e pastora dedicada à igreja com o esposo, viu no curso de boleira uma oportunidade de aprendizado. Fez diversos tipos de trabalho, mas atualmente está desempregada e decidiu mergulhar de cabeça no Impacta Mulher.
“Sou uma mulher que gosta de aprender, por isso tento aproveitar todas as oportunidades de aprendizado. Comecei a trabalhar aos 14 anos, já busquei a minha independência. Iniciei com aulas de reforço escolar, manicure até adquirir a idade para ingressar no mercado de trabalho. E depois investi em cursos técnicos e profissionalizantes”, destaca.

Embora ainda não trabalhe na área de maneira oficial, ela comenta que todo esse aprendizado tem sido muito importante, principalmente nas atividades que promove regularmente na comunidade, nas quais coloca em prática o que foi ensinado durante o curso.
“Fazer bolos já era algo que eu gostava muito e pude obter mais técnicas, agora eu uso todo o aprendizado abençoando as pessoas ao meu redor, nas atividades que realizo com crianças e adultos. O curso ofereceu oportunidades para obter uma renda extra e oportunidades de empréstimos para quem quisesse abrir o seu próprio negócio”, conclui.

Um futuro onde as mulheres possam existir
O Impacta Mulher não é apenas um programa, é uma ponte para a liberdade. Com 1.636 mulheres transformadas no Acre, ele prova que ações públicas podem romper silêncios e ciclos de violência. Adaires, Raimunda e Késia são provas vivas: “nunca desista do hoje para vencer amanhã”, como diz a professora do programa, Fátima Araújo.

“A mensagem que deixo é que a violência contra a mulher deve ser enfrentada pela sociedade, deve ser denunciada por todos que tenham conhecimento que uma mulher foi vítima de violência, em quaisquer de suas formas (física, psicológica, sexual, moral ou patrimonial), e em quaisquer doa canais existentes, como BO [Boletim de Ocorrência] na delegacia, Ligue 180 (anonimato), Disque denúncia 181″, finaliza a delegada Juliana de Angelis.
Para mais informações, todos os cursos ofertados, além do site, também são publicados no instagram da Semulher, juntamente com vídeos, imagens e relatos de outras mulheres que passaram pela mesma situação, e que através do Impacta Mulher, conseguiram seguir em frente e romper com o machismo e o ciclo da violência.
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Canais de ajuda
Para combater a violência de gênero, é essencial que mulheres tenham acesso a redes de apoio e proteção. O acolhimento da vítima é essencial para romper o ciclo de violência e desvincular-se do agressor. É fundamental contar com uma rede de suporte, que pode incluir familiares e amigos, além de serviços especializados que oferecem assistência jurídica e psicológica.
- As vítimas podem procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) pelo telefone (68) 3221-4799 ou a delegacia mais próxima.
- Também podem entrar em contato com a Central de Atendimento à Mulher, pelo Disque 180, ou com a Polícia Militar do Acre (PM-AC), pelo 190.
- Outras opções incluem o Centro de Atendimento à Vítima (CAV), no telefone (68) 99993-4701, a Secretaria de Estado da Mulher (Semulher), pelo número (68) 99605-0657, e a Casa Rosa Mulher, no (68) 3221-0826.




