Por Aniely Cordeiro
O vídeo publicado pelo comunicador indígena acreano Samuel Arara no dia 12 de janeiro ultrapassou 400 mil visualizações e cerca de 29 mil curtidas no Instagram ao mostrar uma brincadeira tradicional do povo Shawãdana, conhecida como “peixe-boi”, realizada entre dois guerreiros.
Na prática apresentada no vídeo, dois guerreiros participam da brincadeira tradicional conhecida como peixe-boi. O uso do talo da banana simboliza o desafio físico e espiritual da atividade, que envolve força, preparo e respeito mútuo. Após o golpe, a dinâmica se encerra com um gesto de reconciliação, reforçando os laços comunitários e a ideia de que a prática não representa conflito, mas pertencimento coletivo.

De acordo com Samuel Arara, a repercussão do vídeo evidencia o interesse crescente do público em compreender os saberes tradicionais indígenas, que vão além do senso comum.
“A repercussão mostra que existe um interesse em conhecer os nossos saberes, principalmente quando essa narrativa é contada por nós, povos indígenas, de dentro para dentro e de dentro para fora”, afirma.
Ainda persiste uma visão folclorizada, estereotipada e romantizada sobre os povos indígenas, especialmente em períodos como o carnaval.
“O público, em geral, está acostumado a ver o indígena de forma folclorizada ou romantizada. Em períodos como o carnaval, por exemplo, é comum que pessoas não indígenas se apropriem das nossas identidades como uma tentativa de nos representar. No entanto, isso não é válido para nós. A nossa cultura não é objeto de decoração”, ressalta.
Responsabilidade cultural
Arara explica que a exposição de práticas culturais nas redes sociais é feita com responsabilidade, sempre respeitando o contexto e a perspectiva dos próprios povos indígenas.
“Quando nos expomos e mostramos quem somos, onde estamos, como é a nossa cultura e como se constrói a nossa alteridade, fazemos isso com respeito e responsabilidade. Sempre enfatizamos que, ao mostrar um ritual, uma brincadeira ou qualquer prática cultural, isso precisa partir da nossa perspectiva, do nosso olhar, com verdade e dentro de um contexto”, pontua.
Para ele, a mídia exerce papel central na formação da opinião pública, e a circulação desses conteúdos nas plataformas digitais permite ampliar o debate sobre a forma como as narrativas indígenas são interpretadas.
“A mídia é formadora de opinião. A partir do momento em que esses conteúdos são colocados nas plataformas digitais, é possível gerar um olhar crítico sobre como as pessoas interpretam essas narrativas. Muitos ainda olham de forma negativa, mas o alcance é muito maior, porque a nossa voz e a nossa identidade conseguem ultrapassar os limites do território”, avalia.
Combate aos estereótipos
O vídeo também chama atenção para a lacuna existente na forma como os povos indígenas são representados nos meios tradicionais de comunicação. Segundo ele, quando aparecem, geralmengte é em contextos negativos, como conflitos territoriais ou denúncias.
“Hoje, quase não vemos representantes indígenas nos jornais tradicionais. Quando aparecem, geralmente, em contextos negativos, como denúncias, conflitos ou invasões de território. Ainda falta construir narrativas que dialoguem com a realidade amazônica e que permitam aos povos indígenas falar por si e contar a própria história”, afirma.
No Acre, existem mais de 15 povos indígenas, cada um com seus costumes, crenças e modos de viver. Esse conhecimento ainda não é devidamente ensinado à sociedade e que isso gera uma grande lacuna para a compreensão sobre os povos indígenas.
Identidade e ancestralidade
Para Samuel Arara, o interesse despertado pelo vídeo ocorre justamente por romper com a visão estereotipada construída historicamente por não indígenas.

“Em um mundo marcado por crises emocionais e ambientais, os saberes indígenas apontam caminhos de reconexão com a natureza, os rios, a floresta e o bem viver. Esses momentos de partilha e interação fortalecem o coletivo, o espiritual e o compromisso com o território”, afirma.
Ele ainda reforça que participar e compartilhar essas práticas é reafirmar a identidade e assumir a responsabilidade, enquanto jovem liderança e criador de conteúdo indígena, de levar essa narrativa além da floresta.
“Participar dessas práticas é se reconectar com a ancestralidade, reafirmar a identidade e assumir a responsabilidade de levar essa narrativa além da floresta. É um compromisso com o povo, com a memória dos ancestrais e com as futuras gerações, porque o futuro é ancestral”, conclui.



