Como historiador, observo com fascínio o modo como as escolas de samba, especialmente no Rio de Janeiro, assumem para si a “atitude historiadora”, conforme define a historiadora Ana Maria Mauad. Elas se apropriam do passado comum como matéria-prima para dar sentido ao presente e pensar o futuro. Fora dos muros da academia, os carnavalescos, compositores e a comunidade do samba engajam-se em um profundo processo de pesquisa, interpretação e representação de eventos, personagens e processos históricos, muitas vezes oferecendo narrativas que desafiam e complementam a história oficial.
O ano de 1988, marco do centenário da abolição da escravatura, é um exemplo emblemático desse fenômeno. Em um país que ainda respirava os ares da recém-conquistada redemocratização e debatia os rumos de sua nova Constituição, as escolas de samba não se furtaram ao debate. Pelo contrário, transformaram a Marquês de Sapucaí em uma arena de reflexão crítica sobre o legado da escravização e a condição do negro no Brasil.
O célebre samba da Estação Primeira de Mangueira, “Cem Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?”, questionava de forma contundente a narrativa de uma abolição redentora, expondo a dura realidade de uma liberdade que não veio acompanhada de integração e reparação: “Livre do açoite da senzala / Preso na miséria da favela”
Essa abordagem demonstra como o samba-enredo funciona como um instrumento de resgate e afirmação da memória e da identidade cultural afro-brasileira. Ao dar voz a narrativas de resistência e luta, e ao exaltar heróis e mitologias de matriz africana, as escolas de samba promovem uma releitura da história nacional a partir da perspectiva de grupos historicamente marginalizados. Trata-se de uma História Pública em sua essência: uma história que emerge da base da sociedade, dialoga com um público amplo e diverso, e utiliza a emoção e a arte para transmitir conhecimento e provocar reflexão.
Décadas depois, o carnaval de 2018 reafirmou essa vocação. Em um contexto de novas tensões sociais e políticas, a Paraíso do Tuiuti apresentou o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, que traçava um paralelo contundente entre a escravidão histórica e as formas contemporâneas de exploração e opressão, criticando a reforma trabalhista e a precarização das condições de vida. Assim como a Mangueira em 1988, a escola utilizou a plataforma do carnaval para questionar o presente à luz do passado, evidenciando que as feridas da escravidão ainda não cicatrizaram por completo na sociedade brasileira.
Mais recentemente, no carnaval de 2025, novamente vimos a Mangueira publicitar a história da “Pequena África”, a Unidos de Padre Miguel homenageou a sacerdotisa africana Iyá Nassô fundadora do Candomblé da Barroquinha em Salvador (BA), a Imperatriz Leopoldinense mostrou a peregrinação de Oxalá até seu encontro com Xangô e a Paraíso do Tuiuti regatou a trajetória de Xica Manicongo, africana escravizada no Brasil e a primeira mulher trans do país.

Portanto, os desfiles carnavalescos são muito mais do que espetáculos. São aulas de história a céu aberto, onde a memória coletiva é celebrada, contestada e ressignificada. Ao trazer para o centro do debate temas cruciais da formação do Brasil, os sambas-enredo cumprem um papel social de enorme relevância. Eles nos lembram que a história não é um conhecimento estanque, restrito aos livros e aos especialistas, mas um campo vivo de disputas e interpretações, no qual a voz do povo, embalada pelo ritmo do samba, tem muito a dizer.
Em um tempo de negacionismo e de acirradas disputas em torno da memória, a avenida nos convida a ouvir com atenção o que os mestres do samba têm a nos ensinar sobre quem fomos, quem somos e quem podemos ser. É a história em movimento, pulsando no coração da cultura popular brasileira.
REFERÊNCIA
SILVA, C. A. F.; CARVALHO, L. H. S. Memória e história pública na avenida: sambas-enredo e as questões étnico-raciais no carnaval carioca de 1988 e 2018. Aedos, Porto Alegre, v. 16, n. 38, p. 191-211, jan.–jun., 2025.
Prof. Dr. Paulo Roberto de Almeida. Professor na Universidade Federal do Acre e Doutor em História, e membro do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas da Universidade Federal do Acre.




