Dizem que o Acre é terra de mistérios, mas um dos maiores “segredos” guardados pelo nosso estado é a força vibrante das religiões de matriz africana. Por muito tempo, os tambores ecoaram no silêncio das periferias, protegidos pelos muros dos terreiros, longe dos olhares carregados de julgamento. Mas o cenário está mudando. Dia 02 de fevereiro é comemorado o dia de Yemanjá e quando o cortejo ocupa as ruas centrais de Rio Branco, ele faz mais do que celebrar a fé, ele rompe o cerco do preconceito.
Yemanjá, a mãe cujos filhos são como peixes, é celebrada aqui com uma particularidade geográfica que só a Amazônia explica. Embora seja a Ayabá (Rainha) do mar, em solo africano ela é cultuada nas águas doces. No Acre, essa Rainha das Águas, saudada com os dizeres “Odò Ìyá” (Mãe das águas) ou “Èérú Ìyá!” (Mãe das espumas), encontra sua morada nos nossos rios, provando que a ancestralidade não conhece fronteiras geográficas, apenas laços de sangue e espírito (Jagun, 2005).
A importância desse cortejo acontecer no centro da cidade é simbólica e política. Durante décadas, impôs-se um estigma de que o candomblé e a umbanda deveriam ser práticas “escondidas”, quase clandestinas. Ver o branco do axé, em respeito e honra a Oxalá, ocupar o asfalto por onde circulam o comércio e o poder é um ato de coragem. Essa religião que tanto resiste ao usar branco toda sexta feira, ao ocupar espaços públicos usando suas guias de proteção, ao sair com a cabeça raspada como demonstração de iniciação e orgulho do seu axé, nesse dia sai às ruas para que todos vejam que são muito mais do que se possa imaginar.
Ao sair dos locais isolados e marchar para o coração da capital, os praticantes estão dizendo: “Nós existimos, nós somos parte desta cidade e nossa fé não é motivo de vergonha.” É uma quebra de barreira física e emocional. O centro, que tantas vezes ignora a presença negra e indígena na construção da identidade acreana, é forçado a parar e admirar o brilho das contas e o ritmo do atabaque.
O racismo religioso no Brasil tenta reduzir essas celebrações ao “exótico” ou, pior, ao “demoníaco”. Diversos elementos que caracterizam a religião como única são postos em xeque: por que usar branco? Por que não comer carne na sexta-feira? Por que utilizar fios de conta? Ora, a simbologia por trás de todos os fundamentos e preceitos remete à presença predominantemente negra de origem africana no Brasil. O tráfico transatlântico, que visava apagar essa cultura, acabou por se tornar, em solo brasileiro, um meio de expressão e resistência.
É nesse contexto que aquilo que, aos olhos do colonizador, parecia apenas “exótico” passa a ser lido como diabólico. Por isso Exu, o dono dos caminhos, que anda sem camisa, descalço, brincando com o mundo, fazendo o acerto virar erro e o erro virar acerto, rompendo com a lógica binária do bem e do mal, é demonizado. Exu não é bom, nem é mau; ele apenas é. Assim como nós.
Nas religiões de matriz africana, o oposto não é um problema, mas uma complementação. Não somos inteiramente bons ou maus; apenas somos. Exu não é santo, assim como nós também não somos. Exu que carrega água na peneira mostra que a vida não precisa ser levada com tamanha rigidez. A encruzilhada ensina que há vários caminhos a seguir, mas é preciso estar ciente de que a vida responde conforme o que oferecemos. É necessário sempre ter algo a oferecer, pois, no mercado de Exu, quem vem para pedir sem nada para trocar, rouba. Por isso, no cortejo e em todos os momentos dentro de um terreiro, saúda-se Exu primeiro. Tudo é troca.
O cortejo de Yemanjá no Acre confronta o racismo religioso de frente. Em uma região de fronteira, onde identidades se misturam e se tencionam, a presença de uma divindade africana no centro da cidade reafirma que o Brasil é preto e que o Acre também o é.
A Rainha das Águas não vem para se esconder, ela vem para lavar as ruas da intolerância. Cada passo dado no cortejo é um território recuperado. É a prova de que a fé, quando é resistência, não cabe em quatro paredes. Ela transborda, como as águas de Yemanjá, e ocupa o lugar que sempre lhe pertenceu, o direito à cidade e ao respeito.
Que os peixes de Yemanjá continuem nadando contra a correnteza do preconceito, fazendo do centro de Rio Branco um porto seguro para todas as crenças. Odò Ìyá!
Referências
JAGUN, Marcio de. Ori: a cabeça como divindade: história, cultura, filosofia e religiosidade africana. 1. ed. Rio de Janeiro: Litteris, 2015. 248 p.

Prof. Larissa Oliveira dos Santos
Graduada em Historia e pós-graduada em Educação das Relações Étnico-Raciais.




