No dia 21 de março, data internacionalmente dedicada ao combate à discriminação racial, refletir sobre a presença de Zumbi dos Palmares no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria e sobre o papel da Fundação Cultural Palmares torna-se essencial para compreender as disputas em torno da memória histórica no Brasil. Mais do que uma homenagem institucional, trata-se de uma batalha simbólica e política sobre quem tem o direito de ser lembrado como construtor da nação brasileira.
Zumbi dos Palmares não é apenas um personagem do passado, mas um dos maiores símbolos da resistência negra no Brasil. Líder do Quilombo dos Palmares, a maior experiência quilombola da história do país, ele representou a luta coletiva por liberdade, autonomia e dignidade humana em um contexto marcado pela violência extrema do sistema escravista. Palmares foi muito mais do que um refúgio de pessoas escravizadas fugidas: constituiu-se como uma experiência política e social complexa, baseada na solidariedade, na organização comunitária e na recusa da dominação colonial. Sua presença no Livro dos Heróis Nacionais evidencia que a memória histórica é um campo de disputa e que reconhecer Zumbi como herói é afirmar o compromisso com uma narrativa antirracista, plural e socialmente justa.
Durante muito tempo, a história oficial invisibilizou figuras como Zumbi, privilegiando heróis ligados às elites brancas e aos projetos coloniais e imperiais. A inscrição de Zumbi no Livro dos Heróis Nacionais rompe com essa tradição excludente e questiona a narrativa segundo a qual a liberdade no Brasil teria sido fruto apenas de concessões legais ou da benevolência das elites. Sua trajetória evidencia que a abolição e os direitos nunca foram dádivas, mas conquistas forjadas na luta e na resistência cotidiana da população negra.
Essa interpretação é reforçada pelo sociólogo e historiador Clóvis Moura, que, em Rebeliões da Senzala, destaca o protagonismo negro nos processos de enfrentamento ao sistema de escravização Para Moura, quilombos como Palmares representaram ações políticas conscientes, desmontando a ideia de passividade dos sujeitos escravizados. Zumbi, portanto, não deve ser visto apenas como um herói individual, mas como símbolo de uma resistência coletiva e contínua.
A importância de Zumbi como símbolo ultrapassa o passado colonial e se projeta no presente. Em uma sociedade ainda marcada pelo racismo estrutural, pela desigualdade social e pela violência racializada. A ideia de violência racializada ajuda a nomear algo que muitas vezes aparece diluído no cotidiano: não se trata apenas de violência “contra pessoas”, mas de violência que atinge de forma sistemática certos grupos por causa da raça, sua memória atua como instrumento de conscientização, identidade e enfrentamento. Reconhecê-lo como herói nacional é afirmar que a história do Brasil é indissociável da luta do povo negro e que o combate ao racismo deve ser um compromisso permanente do Estado e da sociedade.
Nesse contexto, a Fundação Cultural Palmares ocupa um papel estratégico. Criada com o objetivo de promover e preservar a cultura afro-brasileira, a instituição tornou-se um importante instrumento de valorização da memória negra, do reconhecimento de comunidades quilombolas e da formulação de políticas culturais voltadas à população negra. Seu próprio nome homenageia o Quilombo dos Palmares e a liderança de Zumbi, reafirmando a centralidade da resistência negra na história nacional.
Entretanto, nos últimos anos, a Fundação Palmares esteve no centro de intensas controvérsias. Declarações de seu representante oficial durante os anos (2019–2022) questionando a relevância do Dia da Consciência Negra e defendendo sua extinção provocaram reações de movimentos sociais, intelectuais e setores da sociedade civil. O episódio evidenciou que a memória histórica não é neutra: ela é um campo de disputa política. Atacar o Dia da Consciência Negra significa minimizar o racismo estrutural e enfraquecer símbolos fundamentais da luta antirracista no Brasil.
Essa disputa revela um ponto central: quem controla a memória controla, em parte, o sentido da História. Ao esvaziar símbolos como Zumbi ou datas como o 20 de novembro, corre-se o risco de reforçar narrativas que negam o racismo ou o tratam como um problema superado. Por outro lado, afirmar Zumbi como herói nacional e defender a missão original da Fundação Palmares é reafirmar o compromisso com uma leitura crítica do passado e com a construção de uma sociedade mais justa e democrática.
Em tempos de desinformação e fake News, a responsabilidade com o conhecimento histórico torna-se ainda maior. Valorizar Zumbi dos Palmares, a Fundação Palmares e o Dia da Consciência Negra não é apenas um gesto simbólico, mas uma ação política e educativa. É reconhecer que a luta antirracista passa, necessariamente, pela defesa da memória negra e pelo direito de contar a História a partir das vozes que, por muito tempo, foram silenciadas.
Assim, no 21 de março e em todos os outros dias, lembrar Zumbi dos Palmares é reafirmar que a democracia brasileira só se fortalece quando encara seu passado, reconhece suas desigualdades e assume, de forma consciente, a batalha pela memória, pela justiça e pela igualdade racial.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. Institui o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 11 nov. 2011.
BRASIL. Lei nº 7.668, de 22 de agosto de 1988. Autoriza o Poder Executivo a constituir a Fundação Cultural Palmares. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 23 ago. 1988.
BRASIL. Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Brasília, DF: Senado Federal, s.d. Disponível no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves.
MOURA, Clóvis. Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições e guerrilhas. 3. ed. São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 2014.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Institucional. Brasília, DF: Fundação Cultural Palmares, s.d. Disponível em: https://www.gov.br/palmares. Acesso em: 21 mar. 2026.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial. Nova York, 1966.
https://youtu.be/ygttIm1Yrrg?si=E44WhP3d8Fl-YlR9

Evellyn Cristina Albuquerque Rates– Discente do curso de Licenciatura em História na Universidade Federal do Acre(Ufac). Membra do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal do Acre (Neabi/Ufac).



