Robert Darnton é, sem dúvida, um dos principais expoentes da chamada “História do Livro”, especialmente após a publicação de What is the history of books?1 em 1982. Esse ramo de pesquisa, que passa a enxergar o livro em diversas dimensões, tornou-se objeto de interesse de historiadores, sociólogos, antropólogos e teóricos da literatura. Nesse sentido, esta breve produção pretende apresentar o livro enquanto objeto cultural sob uma perspectiva museológica, a partir de Darnton.
Museus são locais de preservação e, acima de tudo, de contemplação. Cada artefato que ocupa esse espaço está envolvido em temporalidades e contextos culturais distintos. Logo, a análise tem como foco a compreensão do contexto temporal e cultural no qual foram produzidas. As produções literárias são reflexos de tempos específicos e do pensamento social de sua época. Assim, pensar o livro como objeto museológico é entendê-lo como uma fonte de compreensão cultural, analisando como ele se insere em determinadas sociedades e momentos. Para isso, o livro será analisado a partir de três aspectos: social, material e estético. Sobre essa materialidade, Reifschneider2 afirma:
O livro, como objeto, pode ser explorado nas mais diversas vertentes que compõem a sua feitura, i.e [isto é], as técnicas, processos e materiais utilizados, devendo cada uma dessas instâncias ser situada histórica e socialmente: melhorias nas prensas, mudanças nos tipos de papel (industrial ou artesanal), o couro […], a tipografia (história de tipos distintos, a composição), as tintas, as ilustrações, as colas; as técnicas de encadernação, de gravação e ilustração, de encolamento […] e de costura. Poder-se-ia desenvolver uma tipologia para a classificação de livros como objetos de museu, ao se desconstruir o livro em sua materialidade.
O aspecto social do livro está ligado ao letramento da sociedade. Após a Revolução Francesa, a alfabetização e o surgimento de centros educacionais impulsionaram a difusão de pontos de distribuição de volumes. No Brasil, esse avanço foi retardado pelo período colonial, pela restrição de circulação de obras e pela demora na implementação de escolas. Superado esse momento, em plena profusão educacional, o livro ganhou espaço na economia brasileira. Atualmente, livrarias físicas, virtuais (como a Estante Virtual) e sebos movimentam o mercado. O âmbito profissional também se especializou: “conforme foi crescendo esta economia, o pessoal especializado deixou de ser formado unicamente por meio do aprendizado prático, mas também por cursos especializados”2. Essas questões são características do livro enquanto objeto social.
Quanto ao aspecto material, trata-se da matéria-prima utilizada na produção. Inicialmente, os recursos utilizados para a escrita eram os pergaminhos (ou papiros), que demandavam um trabalho árduo de criação de animais e refinamento de couro. Posteriormente, o papel chegou ao Ocidente vindo da China (via árabes) no final da Idade Média, tornando-se a principal matéria-prima. Além disso, a evolução das tintas, o aperfeiçoamento das máquinas de impressão e as fontes utilizadas incorporam-se à marca material do objeto.
Por fim, o aspecto estético diz respeito à legibilidade e ao acabamento do livro. As fontes, o espaçamento entre linhas e os acabamentos são questões centrais desse aspecto, elevando, por vezes, o livro ao status de manifestação artística. Acerca das escolhas estéticas, Reifschneider2 observa:
Decisões estéticas permeiam a feitura do livro: na escolha da encadernação, que pode ser responsável por metade do custo do livro (há encadernações em papel, em tecido, em couro e em materiais sintéticos); caso haja sobrecapa, na forma da dobradura; na escolha da(s) fonte(s); na relação texto-imagem; no papel utilizado e no formato do livro.
Portanto, em uma perspectiva museológica, o livro deve ser compreendido na junção de seus aspectos sociais, materiais e estéticos. A partir dessas três noções, os livros deixam de ser meros portadores de texto e tornam-se objetos que refletem a cultura que os permeia.
Em suma, ao integrar as perspectivas de Robert Darnton e as tipologias de Reifschneider, compreende-se que o livro em um museu é uma fonte histórica viva. Ele não apenas contém informações, mas personifica as temporalidades e os contextos culturais, servindo como uma ferramenta essencial para a compreensão das transformações sociais ao longo do tempo.
Yan Correia da Silva – Licenciando em História pela Universidade Federal do Acre (Ufac)




