O mês de maio é visto como um período muito símbolico, reunindo datas que trazem reflexões históricas, sociais e políticas fundamentais para a compreensão das desigualdades que estruturam o país. Entre o Dia do Trabalhador, o Dia das Mães, a data da abolição da escravatura e o aniversário de Lima Barreto, um importante escritor brasileiro, cuja obra permanece como um importante instrumento de denúncia e reflexão sobre a realidade daquela época, mas que continua a repercutir nos dias atuais.
Nesse sentido, maio se apresenta como um momento favorável para refletir sobre continuidades e representações expressas na vida e obras do escritor pré-modernista (movimento cultural, artístico e filosófico). O mês inicia com o Dia do Trabalhador, celebrado em 1º de maio, data que remete às lutas históricas por direitos trabalhistas e dignidade no trabalho. No Brasil, essa celebração também evidencia as desigualdades persistentes no mundo laboral, especialmente para a população negra, que acabam por ocupar os postos mais precarizados e mal remunerados. A crítica social presente nas obras de Lima Barreto diáloga diretamente com essa realidade, ao expor personagens marginalizados e submetidos a condições de exclusão econômica e social. O que podemos observar no livro Recordações do Escrivão Isaías Caminha, em que é narrado a história de um protagonista negro que tem a ambição de torna-se um escritor ou jornalista famoso, porém que enfrenta dificuldades em razão da sua condição social e racial. Fato esse que fala sobre a vivência do próprio escritor.
Na sequência, o segundo domingo de maio é marcado pelo Dia das Mães, data que, embora celebrativa, também permite reflexões profundas sobre as múltiplas experiências de maternidade existentes em nossa sociedade. De acordo com estudo do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) de 2022, os lares chefiados por mães solo chegaram a 11,3 milhões no Brasil, um crescimento de 17,8% em uma década. A pesquisa aponta que cerca de 90% desse aumento é impulsionado por mulheres negras (pretas e pardas), que representam a maioria nesse grupo, que passou de 5,4 milhões para 6,9 milhões no período. Em obras como Clara dos Anjos, é possível observar a representação da mulher negra em uma posição de vulnerabilidade social, afetiva e econômica diante da gravidez, dando destaque a maternidades atravessadas pelo abandono, pela pobreza e pela ausência de aparo institucional.
Outro marco fundamental de maio é o dia 13, data da abolição da escravatura. Embora simbolize o fim da escravidão, essa data também evidencia as contradições de um processo que não garantiu inclusão social à população negra. O pós-abolição foi marcado pela ausência de políticas públicas de integração, resultando na condição de subalternidade que ainda se reflete na sociedade contemporânea. A obra de Lima Barreto é profundamente atravessada por essa realidade, ao denunciar a permanência do racismo e da exclusão social em um país que se dizia livre, o que também é evidenciado em Clara dos Anjos, uma vez que a protagonista passa a ter conhecimento do seu lugar social quando é rejeitada por Cassi devido sua condição de mulher negra.
É nesse mesmo mês, no dia 13, que se celebra o nascimento de Lima Barreto, escritor negro que resistiu ao apagamento e à exclusão do cânone literário brasileiro. Sua trajetória intelectual foi marcada pela crítica contundente às elites e às estruturas racistas da República. Em suas produções, o autor expõe o funcionamento excludente das instituições sociais, principalmente aquelas ligadas à imprensa, à educação e ao poder político, revelando o caráter seletivo da cidadania no Brasil.
Ao articular essas datas, percebe-se que maio não é apenas um mês comemorativo, mas um espaço de reflexão crítica sobre as bases sociais do país. O Dia do Trabalhador revela desigualdades estruturais no mundo do trabalho; o Dia das Mães abre caminho para pensar as múltiplas maternidades atravessadas por raça e classe; a abolição da escravatura evidencia a incompletude da liberdade negra; e a obra de Lima Barreto funciona como denúncia literária dessas permanências históricas.
Dessa forma, a leitura conjunta desses elementos permite compreender que as obras de Lima Barreto não pertencem apenas ao passado, mas continuam a dialogar com o presente, ao evidenciar mecanismos de exclusão que ainda estruturam a sociedade brasileira. Maio, portanto, torna-se um mês para refletir sobre memória e desigualdades sociais, no qual história, literatura e realidade social se encontram para provocar reflexão e consciência.

Bianca Lima de Arruda – Professora de Língua Portuguesa da Secretaria do Estado de Educação e Cultura (SEE). Especialista em Educação das Relações Étnico-Raciais, mestranda pelo Mestrado Profissional em Letras (ProfLetras) da Universidade Federal do Acre e membra do Neabi/Ufac.




