Mortes na maternidade refletem lógica de conflito velho
A frase que chega entre aspas está na edição deste sábado (28) do jornal A Gazeta, assinada pela jornalista Maíra Martinello, colunista d’As Gazetinhas. A lógica exposta pela redatora é verdadeira, cruel e difícil de ser admitida por quem governa. Sobretudo no Acre.
“Ser pobre” é ruim em todo canto. O dramático é ser pobre em um lugar onde a oferta de serviços públicos básicos para se viver com dignidade é seletiva e excludente. E esse raciocínio ataca em um ponto muito sensível à retórica da Frente Popular no Governo do Acre.
Os gestores diziam que no Acre, “o pobre tem acesso a serviços públicos de qualidade”. Vá explicar isso a uma das famílias que teve o trauma de Danuza Silva de Souza, 32. A irmã, Fabíola de Souza, resume o sentimento que a comunidade tem para com a maior maternidade pública do Acre. “Aquilo está virando um matadouro”, revolta-se após saber da morte da sobrinha.
O desrespeito do poder público é achar que as frases “será aberta uma sindicância” ou “estamos fazendo uma rigorosa investigação” embalam a dor de quem perdeu um filho, a metade amputada de um pai e uma mãe, pobres.
O governo entende que a melhor defesa é o ataque. O próprio governador Tião Viana vai à rede social Twitter para dizer, em letras grandes, que é MENTIRA! que tenham morrido três crianças em 24 horas na maternidade.
A certeza oficial tem base na informação repassada pela direção da maternidade de que das três crianças, duas já estavam mortas quando chegaram à unidade de saúde. A palavra “MENTIRA!” dita com tanta ênfase pelo governante poderia até ser compreendida pela comunidade se as demais mortes já ocorridas na Maternidade Bárbara Heliodora tivessem sido explicadas a contento.
Alguém (ou alguma instituição) precisa intervir naquela unidade de saúde. E rápido. E não adianta vir com o escudo de “prêmios ou menções honrosas recebidas”. O histórico presente resvala no caos.
Os quase 500 partos mensais, em média, reforçam a urgência. E frise-se: boa parte desses partos é de adolescentes ou jovens, o que já denuncia outra questão dramática relacionada à classe social.



