Para mim, combater Bolsonaro sempre foi uma questão de princípio. Para quem cultiva valores democráticos, dado o perigo que ele e seu grupo representam, isso é coisa demasiado séria, inegociável.
Mas também, dada a patetice que lhes é peculiar, o combate guarda algo de divertido. Assim, melhor dizendo, combater Bolsonaro é, a um só tempo, princípio, paixão e diversão.
Até aqui, foi assim. Porém, os últimos acontecimentos me impuseram nuançar minha posição: hoje venho aqui hipotecar meu apoio a Bolsonaro e se clã. Não me julguem. Não antes de ler as linhas que seguem. Avancemos.
Desde a (re)abertura democrática, o PT vem se afirmando como o partido mais competitivo do Brasil. Mesmo quando não ganhou, Lula esteve muito próximo de vencer as eleições. Depois, como sabemos, venceu dois pleitos seguidos, elegendo e reelegendo Dilma, sua sucessora.
A hegemonia eleitoral do PT era tão sólida que venceu, entre outras coisas, a ininterrupta campanha de desmoralização movida pela grande imprensa – em curso até hoje -, a operação lava-jato, o golpe contra Dilma e, não menos importante, a prisão de Lula. A verdade é que há tempos a direita não encontra um candidato a sua imagem e semelhança, capaz de rivalizar com os candidatos petistas. Muito menos com Lula.
Bolsonaro foi algo excepcional, em muitos aspectos. Explicar todos eles ou pelo menos alguns nos levaria demasiado longe. Para resumir, basta dizer que, embora se diga de direita, Bolsonaro é de extrema direita. E, nesse sentido, não é um candidato a imagem e semelhança da direita.
Ele foi adotado por parte da direita por falta de opção. Todavia, não casualmente, teve de entregar a condução da economia a Paulo Guedes, um rentista ultraliberal que prometia “vender tudo”. Nessa dobradinha, Bolsonaro (e os militares) ficaria com os poderes políticos, desde que entregasse a chave dos cofres públicos e os bens estatais para os senhores do mercado.
Carente de candidatos eleitoralmente fortes, parte da direita se somou à extrema direita e apoiou Bolsonaro. Uma fração da classe dominante tem mais medo e horror à distribuição de renda do que ao autoritarismo de toda sorte.
A outra parte da direita, em razão dos riscos patentes, como o de um golpe de Estado, resolveu apoiar Haddad, ainda que sem grandes amores e convicção. Apesar de tudo, Bolsonaro ganhou as eleições de 2018 e, desde então, passou a ser o principal líder da extrema direita e, de seu campo político cativo, a comandar também parte significativa da direita tradicional.
O tempo revelou o caráter farsesco da lava-jato. Lula saiu da prisão, entrou na disputa eleitoral. Venceu. As tentativas de golpe – havidas até aqui, não se pode falar pelo futuro – foram derrotadas. Bolsonaro está inelegível e condenado. Logo, logo, há de começar a pagar por alguns de seus muitos crimes.
Percebendo a “janela de oportunidade” que se abre, governadores direitistas se lançam na disputa pelos espólios de Bolsonaro. Cada um querendo sua bênção para disputar a eleição presidencial no ano que vem. Essa não será uma tarefa fácil para os bajuladores.
A tarefa não é fácil porque o clã Bolsonaro não pensa em projeto de nação. Tampouco pensa em projeto de força política ou de partido. Pensa apenas nele mesmo, única e exclusivamente. É egoísta. Trata-se de um clã que, também, costuma fazer uma ideia muito elevada de si mesmo, uma ideia geralmente descolada da realidade. É burro e prepotente.
Não menos importante para essa caracterização do clã é sua neurose e covardia congênitas. É um grupo que desconfia de todos, mesmo ou principalmente dos de seu entorno, e teme responder por seus crimes sem cargos eletivos que lhes dê força política e blindagem.
Isso faz com que Bolsonaro ainda alimente a esperança de que ele mesmo possa concorrer à presidência no ano que vem. Ou que seu filho, Eduardo Bolsonaro, possa sê-lo. Nem mesmo a candidatura de Tarcísio de Freitas – bajulador de primeira hora dos Bolsonaro e queridinho da Faria Lima – decola, premida nesse vai e não vai. E não há uma única postagem dos outros postulantes à presidência do campo da direita que não seja alvo de desapiedada crítica do clã.
Enquanto isso, dando livre curso a suas patetices e a sua verve golpista, Eduardo Bolsonaro fez o que, há poucos meses, era impossível. Ao estimular o tarifaço dos EUA contra o Brasil, possibilitou a aproximação do governo Lula de certos setores do empresariado (como o agronegócio) e, de quebra, ainda permitiu ao governo afirmar-se como “patriota de verdade”, em contraposição aos “falsos patriotas”.
Muita coisa decorreu disso. E não há espaço para tratar de todas elas. Cabe apenas salientar que o cenário político mudou drasticamente nos últimos meses. Lula recuperou fôlego, saiu da defensiva e foi para a ofensiva. Antes, falava de reeleição em termos reticentes, sempre na condicional. Ciro Nogueira chegou mesmo a falar que Lula era carta fora do baralho.
Desse modo, mais do que por mérito próprio, Lula foi reabilitado pelas mãos do clã Bolsonaro. De um lado, porque os Bolsonaro deram a ele motivos e discursos altamente rentáveis (do ponto de vista propagandístico e eleitoral) que, sozinho, ele não conseguiu forjar. De outro, porque não permitem de modo nenhum que a direita e a extrema direita lancem candidatura própria, impedindo, no limite, que este campo se reorganize e se fortaleça. Estão reféns.
Apesar dos limites e das contradições, não descuido que Lula tem força eleitoral e que seu atual governo tenha méritos. Não nego nada disso. É insofismável, porém, que muito da força que atualmente ele demonstra se deve ao clã Bolsonaro. Em razão disso, não se pode sequer dizer que Bolsonaro é uma pedra no caminho ou no sapato da direita e da extrema direita. A bem da verdade, Bolsonaro está mais para uma pedra no pescoço dos sujeitos que se postam nesses campos políticos.
E eu, que em tudo e por tudo venho combatendo Bolsonaro, não posso senão desejar sucesso a ele nessa empreitada de afundar a extrema direita de uma vez por todas. Neste quesito, neste único quesito, desejo a ele todo sucesso e hipoteco a ele todo meu apoio. Oxalá ele continue alimentando a ilusão de que será candidato ano que vem e, dessa maneira, não abra caminho a mais ninguém.
Parece irônico. Mas, hoje, o principal inimigo da extrema direita não é Lula. Não. Em absoluto. É Bolsonaro. Ou, melhor dizendo, é o camarada Bolsonaro. Então, sendo assim, força nessa luta, camarada! Não será preciso grande esforço para arrostá-la. Basta ser o egoísta, o prepotente, o patético e o covarde que você sempre foi para que alcance sucesso nesta única tarefa, desta sua medíocre e nauseante existência, que poderemos chamar de gloriosa.
Por: Israel Souza




