Futebol e carnaval são tradicionalmente sinônimos de diversão e alegria. No entanto, o que se observa em nossa querida estrela altaneira, ao menos nos últimos dias carnavalescos, é uma sequência desastrosa de provações e ataques ao combate à violência contra a mulher, tanto no mundo esportivo quanto fora dele.
Poucos dias antes do Carnaval, o Vasco-AC contratou o goleiro Bruno Fernandes de Souza, condenado em 2013 a 23 anos de prisão pelo assassinato, sequestro e cárcere privado da modelo Eliza Samúdio, com quem tinha um filho.
Essa não foi sua primeira passagem pelo futebol acreano: em 2020, Bruno já havia jogado pelo Rio Branco. Guardem essa informação.
Do ponto de vista estritamente legal, a contratação é válida, já que o jogador tem direito à ressocialização durante a progressão de regime. Desde 2023, ele está em liberdade condicional — ou seja, em 2020 sequer havia alcançado esse benefício. Contudo, estamos falando de um estado brasileiro que figura entre os que apresentam maiores taxas proporcionais de feminicídio, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Nesse contexto, é impossível não perceber o conflito simbólico da contratação de um feminicida. A decisão do time banaliza a violência contra a mulher, desalinha-se das políticas de proteção e ainda provoca desgaste junto a patrocinadores e à sociedade civil.
Como se não bastasse, durante o Carnaval, notícias jornalísticas informaram que quatro jogadores do mesmo clube foram acusados de cometer estupro coletivo no vestiário. A vítima precisou ser atendida na sala lilás do hospital, em razão do grave estado emocional.
Em resposta às acusações, o treinador saiu em defesa dos acusados, desqualificando a vítima e questionando a atuação da Secretaria e da Delegacia da Mulher. Sua narrativa foi claramente revitimizadora e pode configurar até constrangimento ilegal, devendo ainda gerar responsabilidade civil pelos danos causados à vítima.
O clube, por sua vez, também deve responder civilmente, já que, em sua nota oficial publicada na presente data, não houve qualquer deslegitimação do discurso sexista e misógino de seu técnico.
Caros leitores, a Secretaria da Mulher (Semulher) e a Delegacia da Mulher (DEAM) executam diariamente campanhas públicas de combate à violência de gênero e buscam recursos para políticas de proteção. Assim, a contratação de um jogador com esse histórico por um clube que recebe incentivos públicos gera um ruído narrativo, enfraquecendo o discurso institucional. Inclusive, a Secretaria de Esportes deveria se unir à Semulher neste momento e demonstrar apoio interinstitucional.
Dessa forma, entendo que o Poder Estadual, para manter sua coerência, deve suspender qualquer apoio ao time, como uso de estádio, envio de emendas e recursos, incentivos fiscais, entre outros.
Além disso, os agentes políticos regionais não podem se furtar a se posicionar contra esses casos recentes. O silêncio pode ser interpretado como alinhamento a discursos machistas, criando um ambiente institucional permissivo e favorecendo a escalada da violência no esporte por meio de um pacto patriarcal de silêncio.
Por fim, esperamos que, em especial, o Ministério Público, deputados e vereadores observem essas falas com a seriedade que exigem e adotem as medidas legais e administrativas necessárias, com a urgência que o caso requer.




