A escuridão nas praças e prédios públicos no centro de Rio Branco ajuda a criar um cenário de abandono pelo poder público e a invasão dessas áreas pelas pessoas que vivem em situação de rua. Bancos, comércios, calçadas e a Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) são pontos de descanso. Quando vem o cansaço e sono, não existe qualquer receio; qualquer lugar serve para colocar o corpo esquálido e sem muitas forças.

No consumo e no pós-consumo de drogas, também é preciso buscar um lugar para o que se chama de “lombra”. Muitos dos que vivem nas ruas apenas consomem álcool, mas a situação deprimente é a mesma. Esse tem até um colchão e um lugar preferido em um dos mercados locais.

Os caminhos para quem vive em situação de rua são sempre os mesmos. A busca para atender o vício e muitas vezes esse caminho termina em uma briga pelo espaço e vem a violência, como aconteceu com uma moradora que teve o rosto cortado por um terçado. Nas ruas a realidade é bem cruel e não há espaço para sonhos.
“É paixão! Tomando cachaça! Tchau, tchau. Isso não interessa. Eu gosto mais do álcool. É o que você. Estou bem, estou bem, por favor, obrigado, uma boa noite para vocês”, diz morador de rua desnorteado.

O homem disse que se livrou das drogas, e conseguiu através de uma ONG uma vaga em um curso profissionalizante, mas não consegue sair das ruas. Faz pequenos serviços durante o dia e noite para garantir o alimento; dorme, assim como muitos outros, em qualquer lugar do centro. Não tem a menor vontade de voltar para casa.
Para chegar até onde a mulher vive é preciso ter cuidado para não escorregar e depois não bater a cabeça na madeira que ainda sustenta o bar, que fica no mercado novo. A mineira, como é conhecida, vive há 26 anos nas ruas de Rio Branco. Hoje mora de favor em um local perigoso e sem energia, embaixo do bar onde ela ajuda a atender durante o dia. Há 6 anos encontrou o baiano e agora juntos se protegem e enfrentam os problemas que todas as pessoas em situação de rua enfrentam: sobreviver.
“Depósito, papelão, uma escola aqui na rua para nós, que muitos de nós que estudam, a pessoa não vai gostar da escola normal, das outras escolas, vai desligar a gente. Porque o morador de rua não quer dizer que é viciado. Tem vários tipos, tem várias classificações, tá entendendo? Mas nós tentamos sempre nos unir, um ajudar o outro. Mas o que, primeiramente, o viciado precisa realmente é a documentação mais rápida possível para poder se identificar pro governo”, explica a mineiro.

A promotoria de defesa dos direitos humanos acusa o poder público de deixar ainda pior a vida de quem vive nas ruas. O governo e a Prefeitura da capital não têm políticas públicas para esse tipo de situação. Atualmente o município mantém duas casas de acolhimento, mas elas não atuam como deveriam. O caso mais grave é da casa de passagem Rhuama, no bairro Castelo Branco. A Prefeitura repassa 14 mil reais por mês, mais dinheiro da energia e da comida para o abrigo manter durante a noite 10 pessoas em dois quartos

O diretor de Assistência Social da Prefeitura de Rio Branco, Ivan Ferreira, garantiu que todos os ofícios foram respondidos pelo Ministério Público do Acre (MPAC). E se existem problemas e denúncias nas casas de albergues, precisam chegar à Secretaria para que providências sejam tomadas.
“Nós ainda não recebemos, ainda não temos conhecimento desse relatório, mas não tenha dúvida de que todo relatório que vem por parte dos órgãos de controle será apurado por parte da nossa gestão. Nós somos transparentes e aquilo que a gente verificar que não está no plano e no termo, nós vamos apurar e será corrigido”, enfatiza.
Essa falta de comunicação e atenção aos órgãos fiscalizadores fez com que o prefeito exonerasse a secretária Suellen Araújo na semana passada. O governo do estado também não tem acompanhamento da situação. Para Rio Branco são repassados mensalmente menos de 40 mil reais para atendimento aos serviços sociais. Não existe preocupação com resultados e nem proposta de ajuda aos municípios. Assim como a Prefeitura de Rio Branco, a Secretaria de Assistência Social do estado mudou várias vezes de secretário.
A vice-governadora Mailza Assis, que comanda a pasta e vende a imagem de que atua nas causas sociais, também não se preocupa com o crescimento das pessoas que vivem em situação de rua. O responsável por uma ONG, Janes Peteca, que atua diretamente na ajuda a essas pessoas, afirma que o poder público fechou os olhos para o problema.
“Por exemplo, nós temos uma população de aproximadamente 500 mil habitantes em Rio Branco. E o que ocorre? Espaços para 10 pessoas são muito pouco. A gente vê a quantidade de pessoas em situação de rua em Rio Branco, que são mais ou menos 600, não tem condição. Muitos estão querendo sair. O Estado tem que ter um assistente social, um psicólogo, um pedagogo, um psiquiatra, uma equipe profissional, muito profissional para isso. E se não for construído, a tendência é apenas o crescimento das pessoas em situação de rua”, esclarece Janes Peteca.

Enquanto o poder público fecha os olhos para o problema, o centro de Rio Branco pode virar uma Cracolândia no futuro. É preciso pensar que bastava uma política mais ativa para neste momento tirar algumas pessoas que querem fugir do vício das ruas e buscar tratamento para outras que já sofrem de transtornos mentais.
Matéria em vídeo produzida pelo repórter Adailson Oliveira para a TV Gazeta



