Um dos maiores problemas econômicos do Brasil hoje não é a inflação, não é o desemprego e não é a taxa de juros. É o endividamento. Não o endividamento do governo, aquele que aparece nos noticiários com números em trilhões que a maioria das pessoas não consegue nem visualizar. É o endividamento das famílias, o da conta que vence na sexta, o do cartão que não fecha no fim do mês, o do cheque especial que virou rotina.
Em fevereiro deste ano, a Serasa registrou 81,7 milhões de inadimplentes no Brasil. Quase quatro em cada dez brasileiros com o nome sujo. E não é só isso: o comprometimento de renda das famílias chegou ao maior patamar em quinze anos, com quase 30% do salário indo direto para pagar dívidas antes de qualquer outra despesa. Isso significa que, antes de pagar a feira, o aluguel, a escola dos filhos, uma fatia enorme de quem recebe salário no Brasil já deve esse dinheiro para algum banco ou financeira.
Esse ciclo funciona assim: o salário não cobre tudo, o cartão entra para cobrir o que falta, o cartão não é pago no valor total, o rotativo começa a cobrar juros de mais de 400% ao ano, e a dívida cresce mais rápido do que qualquer salário consegue acompanhar. Mês a mês, o buraco vai ficando maior. E quanto maior o buraco, menos sobra para consumir, para investir, para movimentar a economia local. O endividamento das famílias não é só um problema individual. É um freio em toda a cadeia econômica.
É dentro desse cenário que o governo federal anunciou, na semana passada, um novo programa de renegociação de dívidas. A proposta é oferecer desconto de até 80% no valor devido, com o restante sendo refinanciado em condições melhores. O programa ainda não tem nome oficial, mas já ganhou um apelido na imprensa: Desenrola 2.0.
Antes de qualquer coisa, vale entender o que esse desconto significa na prática. Se você deve R$ 5.000 no cartão de crédito, a ideia é que você pague R$ 1.000 agora e refinancie o R$ 1.000 restante em parcelas. Os outros R$ 3.000 simplesmente somem. Parece ótimo. E pode ser. Mas o diabo, como sempre, mora nos detalhes.
O programa ainda está sendo desenhado. Nenhum detalhe está fechado. O governo está negociando com os bancos, discutindo faixas de renda, estrutura de garantias, regras de adesão. O que existe até agora são intenções, não contratos. E entre intenção e execução, no Brasil, costuma ter uma distância considerável.
O que já se sabe é que haveria duas faixas. Quem ganha até três salários-mínimos teria desconto maior e uma garantia do governo caso não consiga pagar o restante. Para rendas maiores, os bancos assumiriam o risco. Quem aderir provavelmente precisará fazer um curso de educação financeira e, dependendo das regras finais, ficaria impedido de usar plataformas de apostas esportivas enquanto durar o acordo.
Esse ponto das bets merece atenção. O governo identificou que parte das famílias que renegociam dívidas volta ao mesmo buraco pouco tempo depois. Uma parte desse problema tem a ver com apostas online, que consomem renda de maneira silenciosa e constante. A trava não é punição, é tentativa de fechar o cano pelo qual a água continua saindo.
A comparação com o Desenrola de 2023 também ajuda a entender o que mudou. Aquele programa funcionou em parte, mas era complicado demais de usar. A pessoa endividada precisava entrar numa plataforma com formato de leilão, visitar agência, passar por várias etapas. Para quem estava no sufoco e sem tempo, virar esse jogo não era simples. Dessa vez, a proposta é que a renegociação aconteça direto no aplicativo do banco, sem tanta burocracia no caminho.
Mas tem uma pergunta que o programa não responde: por que o brasileiro continua se endividando tanto?
Renegociar a dívida de hoje sem mexer na estrutura de crédito caro e salário insuficiente é tratar o sintoma sem olhar para a doença. O ciclo vai se repetir se as condições que criaram o endividamento continuarem as mesmas.
Para quem está com o nome sujo, a orientação prática é simples: acompanhe. Se o programa sair do papel, pode ser uma janela real para quem está preso nesse ciclo. Mas antes de assinar qualquer coisa, entenda quanto você vai pagar no refinanciamento dos 20% que sobram. A taxa de juros dessa parcela vai dizer se o negócio é bom ou se é só uma dívida menor com outro nome.




