A morte de Joyce Araújo completa um ano neste mês, mas, para a família, a data não representa encerramento da luta por justiça. Nesta segunda-feira, parentes e amigos realizam a missa de um ano em memória da jovem, que morreu em 17 de novembro de 2024 após ingerir grande quantidade de medicamentos controlados. Segundo os familiares, o episódio foi consequência direta de um relacionamento abusivo marcado por manipulação psicológica, controle emocional e exploração financeira praticados pelo então companheiro, Tiago, com quem ela se relacionou por cerca de dez meses.
Além da homenagem religiosa, o marco de um ano também simboliza uma virada íntima e acadêmica na história da família. A irmã da vítima, Jaqueline Sousa de Araújo, transformou a própria dor em pesquisa e irá defender em dezembro sua tese do doutorado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Fundação Universidade Federal de Rondônia. O trabalho leva o título “Eu Renascerei: Do luto à luta. O paradigma da letalidade psíquica e o reconhecimento do feminicídio subjetivo – uma análise do caso Joyce Araújo”.

Em entrevista ao Agazeta.net, Jaqueline explicou que o processo judicial segue em curso:
“Estamos colaborando e acompanhando de perto e sabemos que o caso está cumprindo etapas. Segue em segredo de justiça.”
A família busca garantir que a morte de Joyce não seja tratada apenas como um ato individual, mas como consequência direta de abuso emocional continuado.
“Não queremos que ela seja uma mera estatística de uma morte autoprovocada. Queremos que se discutam o que a levou a fazer isso e que seja reconhecida a gravidade do que ele fez, impedindo que outras mulheres passem pela mesma situação e que de alguma forma alivie nossa dor. A lei proposta pela deputada Socorro Neri segue em tramitação e está avançando.”
Para os familiares, a ausência de Joyce é irreparável e diária.
“Joyce foi alegria e todos os dias são difíceis. Estamos aprendendo a conviver com a falta dela. Lembramos dela todos os dias, em todos os momentos. Estamos em tratamento psicológico semanal, altos e baixos. Ela foi uma pessoa marcante. É um processo contínuo de luto e de busca por justiça.”
Mesmo diante da dor, Jaqueline afirma que a família escolheu dar continuidade a algo que pertenceu à própria Joyce: ajudar outras mulheres.
“O nosso luto se transformou em luta. Queremos honrar a memória da Joyce. Que a vida dela tenha um legado, mesmo que marcado por essa tragédia. Esperamos que a sociedade não se esqueça da Joyce, que a história dela continue sendo contada, não apenas como uma vítima, mas como a pessoa cheia de vida que ela era. Que mudanças aconteçam na sociedade e na legislação para que outras famílias não passem pelo que estamos passando. Estamos estudando a criação de uma organização que ajude mais vítimas e finalizando a entrega de uma pesquisa científica que reconheça o feminicídio subjetivo.”

Relembre o caso
De acordo com familiares, Joyce conheceu o suspeito na internet e, desde então, passou a sofrer manipulação psicológica e exploração financeira. Eles relatam que o homem utilizava estratégias de controle emocional para fragilizá-la e obter vantagens. Estima-se que ela tenha transferido cerca de R$ 100 mil ao suspeito, além de financiar um veículo e utilizar recursos do FGTS para atendê-lo financeiramente.
Após sua morte, cadernos encontrados pela família revelaram ofensas reiteradas, incluindo expressões como “demoníaca”, “louca” e “covarde”, além de registros de chantagem emocional. Joyce tentou tirar a própria vida, recebeu atendimento médico, desenvolveu pneumonia e posteriormente sofreu uma parada cardíaca.
Para a família, não há dúvidas de que os abusos psicológicos foram determinantes para o desfecho. O termo “feminicídio psicológico”, defendido por Jaqueline em sua tese, busca nomear e dar reconhecimento jurídico à violência psíquica que mata sem deixar marcas físicas, mas com força letal.
A defesa pública do trabalho acadêmico ocorrerá em dezembro e, segundo a família, a expectativa é que a pesquisa contribua para transformar a história de Joyce em instrumento de mudança, dentro da Justiça, da ciência e da proteção de outras mulheres.
Canais de Ajuda
O acolhimento da vítima é essencial para romper o ciclo de violência e desvincular-se do agressor. É fundamental contar com uma rede de apoio, que pode incluir familiares e amigos, além de serviços especializados que oferecem assistência jurídica e psicológica.
As vítimas podem procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) pelo telefone (68) 3221-4799 ou a delegacia mais próxima.
Também podem entrar em contato com a Central de Atendimento à Mulher, pelo Disque 180, ou com a Polícia Militar do Acre (PM-AC), pelo 190.
Outras opções incluem o Centro de Atendimento à Vítima (CAV), no telefone (68) 99993-4701, a Secretaria de Estado da Mulher (Semulher), pelo número (68) 99605-0657, e a Casa Rosa Mulher, no (68) 3221-0826.



