Carlos e Thiely levam recomeço à população em vulnerabilidade no bairro Cidade do Povo
Por Ycla Araújo
O casal Carlos Henrique Sá, 48 anos, e Thiely Mariano Sá, 42 anos, se conheceram em 2017 durante uma ação de inclusão, incentivada pela organização cristã Jovens com uma Missão – Jocum, realizada no bairro Cidade do Povo, segundo distrito da capital acreana.
Thiely conta que de todos os lugares, o bairro caçula da capital era o que menos tinha interesse em participar, entretanto, a escolha foi através de sorteio, e sua missão foi no lugar. Henrique já participava de ações frente ao bairro desde 2015, levando todos os domingos café da manhã e outras atividades para aproximadamente 150 pessoas, tendo como objetivo crianças e adolescentes do bairro.
O projeto iniciado por Henrique no bairro chamou a atenção das mães e pais dessas crianças, que perceberam mudanças de comportamento e começaram a participar também dos encontros, e assim começaram as ações de alfabetização.

Henrique explica que todas as vezes em que pediam para que lessem a Bíblia ou realizassem alguma outra atividade parecida, algumas das mulheres respondiam “e quem não sabe ler?”, o casal conta que aquela situação começou a incomodar, “eu estava ali falando do reino de Deus, falando que elas são importantes, mas não sabiam ler”, complementa.
Uma das primeiras opções de solucionar o problema, foi sugerir a versão em áudio do livro, porém, nem todas as mulheres tinham acesso ao celular ou qualquer outro meio eletrônico. “A situação de vulnerabilidade e de miséria, não só naquele bairro mas em outros também, é muito maior do que eu possa explicar”, diz Thiely. Foi a partir disso que decidiram mudar, ao menos um pouco, a realidade dessas pessoas.
Neste mesmo período conheceram o Instituto Brasileiro de Educação e Meio Ambiente – Ibraema, uma ONG de Recife que tem como objetivo a alfabetização, cidadania, educação financeira, microcrédito e capacitação de voluntários para apoiar e impulsionar os mais desfavorecidos da sociedade.

O casal, assim como outros voluntários, participaram desta capacitação oferecida pelo instituto. Eles fornecem todo o material que facilita o acesso à educação de pessoas, iniciando assim o processo de alfabetização. “Começamos há alguns meses e já estamos vendo avanço. Algumas mulheres que não reconheciam letra nenhuma, já estão conseguindo ler coisas fáceis”, explica Henrique.
Além da alfabetização, o casal também leva à comunidade aulas de taekwondo, que funciona aos sábados e futebol, entretanto o professor voluntario não esta mais podendo comparecer, o que abre uma oportunidade para que outros voluntários possam levar às crianças e adolescentes uma forma de diversão e entretenimento, distanciando elas das ruas e aproximando da educação.
O projeto funciona da seguinte forma: as pessoas que começam a participar dos encontros e reuniões sem faltas são cadastradas no Projeto Família Cidade do Povo, e incluídas em ações de entrega de cestas básicas, roupas, sapatos, produtos de higiene e outros.

O projeto recebe doações de pessoas e redes que tem o objetivo de também ajudar a comunidade, entretanto não é sempre que essas doações são feitas ao projeto, tendo em vista que não se tem apoiadores fixos. O lugar usado para os encontros é cedido por uma moradora do bairro, e o casal ajuda na manutenção do espaço.
Nenhuma ajuda municipal ou governamental ou privada é oferecida ao projeto. Todas as ações são por meio de apoiadores da comunidade ou grupo religioso.
Thiely diz que a satisfação em poder ajudar essas famílias a poder se incluir de forma melhorada na sociedade, “eu não posso falar do reino de Deus se eu não incluo essa pessoa na sociedade, se não ajudo essa mulher a redimir a sua vida”. Ela usa do pensamento que “não tem como eu chegar em uma comunidade e falar ‘olha, eu vim orar por você’, se a barriga dessas pessoas está doendo de fome. O cristianismo não pode andar distante da igualdade social”.

Finaliza ao dizer que sabe que não estará para sempre fazendo essa ação no bairro, mas espera que o tempo em que ficar lá seja para transformar vidas e tocar corações, “quero que aquelas crianças, ao crescer, ao prestar o vestibular e estiverem se formando elas possam lembrar de mim de dizer ‘onde eu estaria que a tia Thiely e o tio Henrique não tivesse chegado naquela comunidade e não tivesse nos convencido que merecemos coisas melhores”.
“A importância dessa ação é levar dignidade e gerar esperança na vida dessas famílias. É um sentimento de satisfação saber que está fazendo a diferença na vida do outro, saber que de maneira simples e objetiva levando aquela pessoa a ter dignidade. A gente procura mostrar para elas que elas podem ter um futuro, podem sonhar, planejar e ter esperança; isso é muito gratificante para nós, ver as pessoas mudando, deixando aquele quadro de depressão e desânimo, e passar a sonhar”, finaliza Henrique




