A Marcha das Aparências na Ordem
A ironia da comemoração de março nos obriga a refletir sobre as contradições gritantes: como as instituições transformam a data em espetáculo fotográfico e ações de fachada, enquanto seguem abrigando em seus quadros machistas, sexistas, misóginos, lgbtfóbicos e racistas.
Contexto histórico
O 8 de março nasceu das ruas, das fábricas e das greves — não de buquês nem hashtags. Proposto por Clara Zetkin em 1910 e reforçado pela greve das trabalhadoras russas em 1917, tornou-se símbolo de resistência. A ONU oficializou a data em 1975, mas sua origem é luta, não marketing.
Não houve incêndio ligado ao Dia da Mulher: o episódio de 1911 nos EUA não tem conexão direta. O que conquistou o 8 de março foram os movimentos feministas. Direitos básicos, como abrir conta bancária (1962), ter cartão de crédito (1974) ou ser considerada plenamente capaz (2002), são conquistas recentes.
Até 2023, mulheres precisavam de consentimento do marido para laqueadura. Relembrar isso é exaustivo, mas pelo visto necessário.
Sinto a mesma mistura de raiva e cansaço todo 8 de março — aquele desgosto de quem já decorou o roteiro das hipocrisias e só deseja que a festa acabe para que a faxina comece.
Crítica institucional
Enquanto advogada, não posso falar apenas da Prefeitura de Rio Branco, que destinou míseros R$ 3,00 para combater a violência doméstica na LOA enquanto comemorava o dia da mulher com flores. Afinal, minha própria instituição, OAB, posa para fotos com flores e bolos, transformando um marco político em sessão de marketing. Celebrar o Dia da Mulher com café da manhã e legendas emocionadas, enquanto se protege ou tolera agressores, é performatividade com crachá.
Paridade não é filtro de Instagram; é exigência política que foi encabeçada pela advogada Valentina Jungmann da OAB/GO. Apesar das conquistas, seguimos convivendo com advogados agressores, estupradores condenados e racistas confessos integrando os quadros da OAB.
O feminicídio deturpado
Ironicamente, em pleno Dia da Mulher, um integrante do Conselho da OAB/AC e do Tribunal de Ética, advogado Leandro Muniz, republicou, em pleno Dia da Mulher, duas postagens misóginas e desprovidas de qualquer embasamento técnico:
- “Se 92% dos homicídios do Brasil são contra homens. Por que esse movimento todo com o feminicídio?”
- “Esse é o conceito: se você, _, estiver na avenida Paulista, tentarem roubar seu celular, você reagir e for morto é latrocínio. Se for uma mulher, feminicídio.”
Não dá para acreditar nisso: advogado integrante dos quadros representativos da Ordem dos Advogados do Brasil no Acre reposta tamanho desatino com a tranquilidade de quem sabe que sairá impune.
É preciso lembrar: feminicídio ocorre quando a mulher é morta pelo fato de ser mulher. Sem comprovação, o tipo penal é afastado. Não é qualquer morte de mulher e quem apura isso é a segurança pública, universidades apenas analisam os dados por aquela fornecido.
Contradições e seletividade
Como se não bastasse, há advogados com OAB ativa que agrediram suas esposas publicamente. Enquanto alguns têm inscrição suspensa após repercussão nacional, outros, não tiveram o mesmo desfecho, há um preso em 2021 por drogas e com antecedentes por corrupção de menores (2009), estupro (2010) e tentativa de estupro (2014), que continua com a OAB ativa. Então, qual é o critério?
Recusa e denúncia
Recuso-me a participar de cafés da manhã e posar para fotos enquanto houver resistência da OAB em punir agressores. O pior abrigar em seus quadros representativos homens com histórico de violência e que não se intimidam em declarar sua misoginia na internet.
Conclusão
A política institucional segue sendo de luzes cor-de-rosa e fotografia. Pura retórica. Continuamos sem uma política real de combate ao machismo, sexismo e misoginia dentro da casa que deveria defender a justiça e a Constituição, bem como pelas instituições governamentais.




