Um novo estudo internacional reforça a necessidade de olhar a depressão de forma diferenciada entre homens e mulheres. A maior meta-análise já realizada sobre o tema, conduzida por pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, e publicada em 2025 na revista Network Communication, analisou mais de 195 mil casos e confirmou que mulheres apresentam uma carga genética mais significativa para o transtorno depressivo maior quando comparadas aos homens.
A pesquisa também revelou, pela primeira vez, uma variante genética associada exclusivamente à depressão masculina, localizada no cromossomo X. Apesar do avanço científico, especialistas destacam que a genética não determina sozinha o desenvolvimento da doença. Fatores sociais, emocionais, hormonais e ambientais continuam exercendo forte influência no surgimento do transtorno.
Para o psicólogo Maico Charles, o estudo ajuda a compreender como a biologia se soma a outras condições enfrentadas pelas mulheres ao longo da vida.
“Esse estudo fala, de fato, sobre uma condição biológica para o quadro depressivo, mas a gente entende que são vários fatores que acabam desencadeando isso, como questões hormonais, estresse e pressões do cotidiano. Tudo isso atravessa a vida das mulheres e impacta diretamente na saúde emocional e psicológica”, explica.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 332 milhões de pessoas convivem com a depressão em todo o mundo. As mulheres apresentam quase o dobro do risco de desenvolver o transtorno, cenário que, de acordo com especialistas, está ligado tanto a fatores hormonais quanto à sobrecarga social e às desigualdades históricas.
A psicóloga Euriete Rodrigues ressalta que a depressão não tem uma causa única.
“Ela não é focada em um único ponto. A depressão é um conjunto de fatores. As mulheres têm uma tendência um pouco maior por conta das questões hormonais e sociais. Elas desempenham múltiplos papéis ao longo da vida e do dia, e tudo isso impacta diretamente na saúde mental”, afirma.
O estudo também destacou que, entre as mulheres, há uma maior sobreposição entre depressão, obesidade e síndrome metabólica, evidenciando a relação direta entre corpo e mente. No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde apontam que 14,7% das mulheres já receberam diagnóstico de depressão, enquanto entre os homens o índice é de 5,1%.
Maico Charles chama atenção ainda para fatores sociais mais amplos que afetam diretamente a saúde mental feminina.
“Vivemos em uma sociedade onde a questão da mulher é muito latente. Há pressões psicológicas e sociais constantes, além do medo contínuo relacionado ao feminicídio, que é uma realidade no país. Esses fatores funcionam como gatilhos para quadros ansiosos e depressivos, principalmente entre as mulheres”, pontua.
Os pesquisadores defendem que futuras estratégias clínicas considerem tanto as particularidades genéticas quanto o contexto social de cada sexo. Enquanto a ciência avança, especialistas reforçam que reconhecer os sinais, buscar ajuda precoce e combater o estigma seguem sendo medidas essenciais para a prevenção e o tratamento da depressão.
Com informações do repórter Marilson Maia para TV Gazeta e editada pelo site Agazeta.net



