Na semana do Dia Internacional da Mulher, em um dos estados que mais mata mulheres no Brasil, vale propor uma reflexão. O Acre registrou, em 2025, a maior taxa de feminicídios do país, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Em um país onde a violência letal atinge homens e mulheres, surge com frequência uma pergunta no debate público: por que existe uma legislação específica para o feminicídio se homens também são vítimas de homicídio?
A resposta está no padrão da violência. Grande parte dos homicídios masculinos ocorre em disputas criminais ou conflitos urbanos. Já o feminicídio apresenta uma característica distinta: frequentemente ocorre dentro de relações pessoais e domésticas, muitas vezes cometido por parceiros ou ex-parceiros. Trata-se de um tipo de violência associado a relações de controle e conflitos nas relações afetivas.
Por essa razão, o feminicídio foi reconhecido na legislação brasileira como uma categoria específica. O objetivo não é afirmar que uma vida vale mais que outra, mas reconhecer que determinadas formas de violência seguem padrões sociais próprios e exigem políticas públicas específicas.
Para além da dimensão jurídica e social, existe também uma dimensão econômica frequentemente ignorada no debate público.
Na economia, distingue-se entre custos privados e custos sociais. Custos privados são aqueles suportados diretamente por quem toma uma decisão. Custos sociais incluem todos os efeitos dessa decisão sobre terceiros e sobre a sociedade como um todo.
Quando uma ação gera prejuízos para outras pessoas que não participaram dela, os economistas chamam esse fenômeno de externalidade negativa.
Crimes violentos são um exemplo clássico desse problema. A decisão individual de cometer um crime gera consequências que vão muito além dos indivíduos diretamente envolvidos.
No caso do feminicídio, o impacto econômico se espalha por diferentes instituições e por diferentes períodos de tempo.
O primeiro conjunto de custos aparece no sistema de segurança pública e justiça. Um único crime mobiliza investigação policial, perícia técnica, promotores, defensores públicos e magistrados. Todo esse processo envolve capital humano altamente qualificado, infraestrutura institucional e recursos públicos.
Caso haja condenação, os custos continuam no sistema prisional. Manter uma pessoa privada de liberdade exige despesas permanentes com segurança, alimentação, saúde e administração penitenciária. Esses gastos se prolongam por anos ou décadas.
Do ponto de vista econômico, trata-se de recursos públicos que poderiam estar sendo utilizados em outras áreas como educação, infraestrutura ou saúde. Em termos de economia pública, isso representa também um custo de oportunidade.
Mas os impactos econômicos não param no sistema de justiça.
Muitas vítimas de feminicídio estão em idade economicamente ativa. Quando uma vida é interrompida, perde-se também trabalho, renda, experiência profissional e participação produtiva na economia. Produção deixa de ocorrer, renda deixa de circular e consumo deixa de acontecer nas comunidades onde essas mulheres viviam.
Os efeitos também recaem sobre as famílias. Muitos feminicídios deixam filhos órfãos que passam a depender de parentes ou de políticas públicas de assistência. Essas crianças frequentemente necessitam de acompanhamento psicológico, apoio educacional e suporte social por muitos anos.
Isso mobiliza profissionais da saúde, assistência social e educação, ampliando os custos públicos associados à violência.
Existe ainda um efeito intergeracional difícil de mensurar. Traumas familiares, instabilidade econômica e rupturas afetivas podem afetar o desenvolvimento dessas crianças, produzindo consequências que podem acompanhar essas famílias ao longo de décadas.
Quando todos esses fatores são considerados em conjunto, o feminicídio deixa de ser apenas uma tragédia individual. Ele se torna também um fenômeno com impactos econômicos amplos.
Em termos econômicos, trata-se de um evento que gera externalidades negativas, eleva custos sociais, mobiliza recursos públicos escassos e reduz o potencial produtivo da sociedade.
Isso significa que a violência doméstica não é apenas um problema moral ou jurídico. Ela também representa uma perda econômica real.
Por essa razão, políticas de prevenção fazem sentido não apenas do ponto de vista social, mas também econômico.
Fortalecer canais de denúncia, ampliar redes de proteção e investir em educação para prevenção da violência tende a custar muito menos do que lidar com as consequências institucionais e sociais de um crime consumado.
Em outras palavras, prevenir a violência reduz custos sociais futuros, evita externalidades negativas e protege o capital humano da sociedade.
Ainda assim, existe um limite para qualquer análise econômica. Nenhum cálculo é capaz de capturar plenamente aquilo que se perde quando uma vida é interrompida. O valor de uma vida humana permanece, por definição, incalculável.
Se você ou alguém que conhece está em situação de violência, procure ajuda. O Ligue 180 funciona 24 horas por dia e oferece orientação, registro de denúncias e encaminhamento para serviços de proteção. Em situações de emergência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo 190.




