Feminicídio é um crime hediondo e precisa ser extirpado da sociedade; para isso a informação pode ser uma arma
Por Márcio Bleiner
Todos os dias, jornais de todas as partes do Brasil noticiam com velocidade espantosa novos casos de feminicídio cometidos diariamente em todos os estados do país, como uma doença infecciosa.
As notícias chocam ao mesmo tempo em que os atos impensados destroem vidas, famílias, geram processos, prisões e, ainda assim, o mesmo tipo de crime será cometido novamente dentro de 7 horas.
A afirmação é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Violência Contra as Mulheres 2021. O número, porém, é somente uma média fria, uma vez que a população negra e pobre está mais exposta a esse tipo de crime.
Na complexa raiz do problema, entre vários fatores, está um passado arraigado no patriarcado e na cultura do machismo que, ao longo dos séculos, moldou e se acostumou a ver a mulher como praticamente, senão, uma “propriedade” do homem, sujeita, inclusive, à reprimendas e violência.
Como acabar com os feminicídios? Ensinando homens a serem homens que não se abalam por mulheres serem mulheres. E mais: ensinando-os a identificar o que a grande maioria dos condenados por matarem suas companheiras têm em comum: um momento de “sequestro emocional”.
O conceito foi amplamente difundido durante a década de 1990 pelo mundialmente famoso escritor, jornalista científico e psicólogo Daniel Goleman, PhD pela renomada Universidade de Harvard. Segundo o autor do best-seller Inteligência Emocional, em geral, não somos ensinados a lidar com nossas emoções. E a falta desse instrumental pode ser determinante, para melhor ou pior, em nossas vidas.
Se excluirmos os crimes premeditados, ou seja, aqueles nos quais companheiros planejam as mortes de suas esposas, não é difícil notar que feminicídios acontecem, via de regra, a partir de uma discussão acalorada ou após o rompimento da relação, tendo como uma das características principais o homem não aceitar o fim do namoro ou casamento. É o famoso momento em que pode surgir a fúria primal e egoística, resumida na infeliz frase: “se ela não for minha, não vai ser de ninguém”. Porém, relacionamentos têm fim.
Goleman explica que nesses momentos de “sequestro emocional”, entretanto, o indivíduo, pelo calor do momento e por não saber lidar com suas emoções, fica totalmente abalado e privado da razão. Nesses momentos, os níveis de adrenalina e batimentos cardíacos por minuto (bpm´s) sobem de maneira vertiginosa e a pessoa se encontra preparada para uma reação do tipo fugir ou correr – ou matar. Em síntese, uma bomba humana armada para explodir. Saber desarmá-la é praticamente um ato heróico.
Goleman confirma em sua obra o que o ditado popular já sabe há muito: mulheres têm mais facilidade em reconhecer e lidar com suas emoções. Exatamente por esse motivo, ainda que esteja ela mesma na iminência de um sequestro emocional, deve ser a primeira a identificar os traços do fenômeno descrito por Goleman no parceiro.
Mulheres, a qualquer sinal de violência ou abuso, é importante nunca hesitar em ligar para o 190. Permanecendo sob vigilância do agressor, lembre-se da campanha “Sinal Vermelho”. Aguarde o momento certo e vá (mesmo que precise pedir autorização ou ser acompanhada pelo ofensor) a uma farmácia, a pretexto de comprar um remédio ou item feminino. Discretamente, mostre ao atendente um “X” vermelho feito preferencialmente com batom na mão para dar fim ao seu martírio. O funcionário já saberá que você precisa de ajuda. De maneira reservada, ele acionará a Polícia Militar e encaminhará você a algum lugar seguro até a chegada dos agentes de segurança.
E o mais importante: nunca, em momento algum, aceite se calar. Somente a denúncia às autoridades e a instauração de um inquérito policial pode interromper o ciclo de violência instalado em sua vida e preparar terreno para imposição de medidas restritivas. Indigne-se. Você merece mais. Muito mais do que ser uma vítima da violência. Você merece viver e ser feliz.



