Famílias tradicionais que vivem no Seringal São Bernardo, localizado na divisa entre Rio Branco e Serra Madureira, denunciaram ao Ministério Público uma série de crimes ambientais e violações de direitos relacionados a um projeto de manejo florestal que avança sobre áreas utilizadas há décadas por poceiros e extrativistas.
Segundo os moradores, a derrubada de castanheiras, árvores essenciais para a subsistência das famílias, vem sendo realizada com o uso de tratores, mesmo em áreas onde há decisão judicial proibindo a retirada de árvores nos caminhos de seringa. A queda dessas árvores representa não apenas dano ambiental, mas também perda direta de renda para quem vive do extrativismo.
Árvores derrubadas e pressão para saída das famílias
Os posseiros afirmam que árvores como castanheira e mogno estão sendo marcadas e incluídas no plano de manejo, mesmo estando dentro das áreas tradicionalmente utilizadas pelas famílias. Além disso, relatam a presença de jagunços, que estariam ameaçando os moradores e exigindo que deixem as propriedades.
“Quando a gente vê que eles derrubam a castanheira, eles estão tirando a nossa vida, porque é dali que tiramos o sustento dos nossos filhos”, afirmou a posseira, Antonia Valeira.
As famílias denunciam ainda que o manejo tem sido utilizado como forma de pressão, inviabilizando a permanência dos moradores no local.
Entre as denúncias apresentadas, uma das mais graves envolve o uso de drones agrícolas para lançar veneno sobre a vegetação. Segundo os moradores, a substância estaria sendo utilizada para matar árvores, criando justificativa posterior para a retirada da madeira.
O problema, segundo os relatos, é que o veneno se espalha pela floresta, atinge animais, plantas e contamina igarapés e o lençol freático, fontes de abastecimento das famílias.
“Hoje estão usando veneno, contaminando o lençol freático e colocando em risco a saúde pública do nosso estado”, alertou Josa Ferreira, presidente do Sinpasa.
Com a retirada da vegetação, os moradores relatam que animais silvestres passaram a invadir as propriedades, destruindo roçados em busca de alimento. Igarapés estariam secando, agravando ainda mais a situação das famílias.
Além dos impactos ambientais, os poceiros relatam viver sob constante ameaça. Damiana da Conceição, uma das moradoras, afirmou que já foi intimidada dentro da própria casa por pessoas que se dizem donas da área.
“Antes a gente vivia tranquilo. Hoje vivemos com medo, sendo humilhados e ameaçados”, disse.
Ministério Público pede investigação e perícia
Diante das denúncias, o promotor de Justiça Talles Ferreira, da área de Direitos Humanos, afirmou que o Ministério Público vai comunicar a Justiça sobre o descumprimento dos limites impostos à atividade de manejo.
O MP também deve solicitar a atuação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) para investigar a possível atuação de grupos armados na região. Além disso, será realizada perícia para apurar os danos ambientais e a eventual utilização de substâncias tóxicas por meio de drones.
“Se for comprovado o uso de equipamentos e produtos nocivos à saúde do homem e da floresta, os responsáveis responderão criminalmente”, afirmou o promotor.
Com informações de Adailson Oliveira, para a TV Gazeta.



