O Dia Internacional da Mulher não nasceu para ser celebrado com flores, ele emerge das lutas operárias, das reivindicações por direitos trabalhistas, por dignidade e por vida. Ainda assim, todos os anos, a data corre o risco de ser esvaziada e transformada em marketing. No Acre, essa transformação é ainda mais cruel quando olhamos para quem continua morrendo, ganhando menos e ocupando os lugares mais precarizados do mercado de trabalho: as mulheres negras.
Falar de 8 de março no Acre exige romper com a ideia de “mulher” como categoria universal. Como nos alerta a estudiosa negra Sueli Carneiro (2005), a construção do “outro” na sociedade brasileira sempre esteve atravessada por hierarquias raciais, a mulher negra não foi historicamente pensada como sujeito pleno de direitos, mas como corpo disponível ao trabalho forçado, ao cuidado compulsório e à violência naturalizada. Essa herança colonial não ficou no passado, infelizmente, ela ainda organiza o presente e os espaços de poder.
No mercado de trabalho acreano, segundo dados do 2º Relatório de Transparência Salarial, documento elaborado em 2024 pelos ministérios do Trabalho e Emprego (MTE) e das Mulheres com o recorte de gênero, as mulheres negras estão concentradas nas ocupações mais precarizadas: trabalho doméstico, informalidade, terceirizações, comércio de baixa remuneração. Recebem menos, têm menos acesso a cargos de chefia e acumulam jornadas extensas entre trabalho remunerado e cuidado não remunerado.
Quando migramos para a violência letal, a tristeza é dobrada. Entre janeiro de 2018 e 21 de janeiro de 2026, o Acre contabilizou 91 feminicídios consumados e 158 tentativas, sendo que, até o ano de 2024, 86% destes casos envolvem mulheres jovens, negras e moradoras de bairros periféricos, de acordo com dados do Feminicidômetro do Ministério Público do Estado do Acre (MPAC). Esses números não são meros registros frios: eles revelam que a ameaça à vida de mulheres negras no Acre é cotidiana, estrutural e não distante, tendo em vista que muitas vezes é perpetrada por parceiros ou familiares no espaço doméstico, onde as instituições de proteção demoram a chegar ou não conseguem responder com a urgência necessária.
Angela Davis (2016) demonstra que a opressão de gênero se articula à exploração capitalista e ao racismo. A dependência econômica é um dos fatores que dificultam a ruptura com relações abusivas. Quando a mulher não dispõe de renda suficiente, quando ocupa empregos instáveis ou mal remunerados, sua capacidade de sair de uma relação violenta é reduzida, a precarização do trabalho se transforma, assim, em mecanismo indireto de manutenção da violência. A violência contra a mulher negra acreana não começa no momento do assassinato, ela começa quando a desigualdade é naturalizada, quando o salário é menor, quando a promoção não vem, quando o trabalho é informal, quando a denúncia não é levada a sério, quando o racismo opera mostrando todas as suas faces. O feminicídio é o desfecho extremo de uma cadeia de desvalorização.
É impossível pensar um “dia da mulher” sem pensar nas mulheres negras que são maioria em nosso estado e as implicações que isso traz. Urge, mas do que nunca, o enfrentamento frente as desigualdades, e, para fazer isso, é extremamente necessário políticas públicas específicas, formação antirracista nas escolas, fortalecimento das redes de proteção e compromisso real do Estado. Além disso, carecemos também de uma Lei orçamentaria anual que designe muito mais que 03 (TRÊS) reais para a dignidade das mulheres que aqui vivem (ou lutam para viver).

Neste 8 de março, mais do que homenagens, o que se exige é responsabilidade. Responsabilidade de enfrentar o racismo e o sexismo que organizam silenciosamente as oportunidades, os acessos e as possibilidades de futuro, responsabilidade de transformar discursos em políticas concretas, compromissos públicos e mudanças institucionais reais. Porque enquanto a dignidade de algumas ainda for negociável, não haverá data comemorativa capaz de encobrir a urgência de garantir que todas possam viver com segurança, autonomia e respeito.
Kaliny Custodio do Carmo
Especialista em Educação Das Relações Étnico-Raciais e História e Cultura Africana, Afro-Brasileira e Indígena; Licenciada e Bacharela em História, todas as formações pela Universidade Federal do Acre.




