Uma fotografia era uma das poucas lembranças que Iraci Feitosa da Silva tinha do filho desaparecido em 1987. O vigia Josenildo Marreira, na época tinha 10 anos, e costumava ajudar a família com a venda de salgados no bairro. Porém, um certo dia, saiu de casa e não voltou. Desde esse momento, foram 34 anos sem nenhuma notícia sobre o paradeiro dele.

“Era muito dolorido, mas eu nunca perdi a esperança. Sempre confiava e pedi a Deus que, onde ele estivesse, cuidasse, guardasse e colocasse alguém abençoado que pudesse cuidar dele por mim. Eu não sabia onde ele estava, mas a certeza que ele estava vivo eu sabia”, conta a mãe e dona de casa, Iraci Feitosa.
Enquanto a família nem sabia por onde procurar, Josenildo seguia com uma mulher para Santa Catarina. Ela havia dito à criança que sabia aonde estavam os homens que teriam matado o pai dele. Mas quando chegou ao Sul, foi abandonado.
Em entrevista à TV Gazeta, ele, agora um homem adulto, conta que precisou se virar sozinho. Na lembrança, Josenildo tinha apenas o nome Acre. A partir disso, o objetivo dele se tornou voltar para esse lugar.
“Foi Deus quem me tirou dela. Eu creio que ela ia me pegar para fazer alguma maldade ou vender para alguém, não sei o que realmente ela ia fazer. Mas Deus falou que eu iria seguir outro caminho. Só que eu queria era chegar em Porto Velho e Acre. Não entendia o que eu tinha que fazer em Acre, mas minha persistência era chegar em Acre”, explica o vigia.
Alguns anos passaram e ele, já no Acre, morou com três famílias adotivas. As duas primeiras não o tratavam muito bem, até que Zinha Araújo se tornou mãe adotiva de Josenildo Marreira. Ele lembra que ela insistia, por repetidas vezes, forçar a memória dele, na intenção de localizar a família biológica.
Anos depois, mãe adotiva de Josenildo morreu por causa de um câncer. Nessa época, ele já estava casado e com filhos e seguia sem nenhuma pista de quem seria a mãe biológica, até o dia que a mãe adotiva apareceu em um sonho para ele.

“Ela sempre procurou e tentou que eu lembrasse, fazia de tudo, porque eu não gostava de comentar. O sonho dela era que eu encontrasse a minha mãe biológica. Um belo dia, eu acordei atordoado, porque eu vi ela em sonho. Ela falou ‘Meu filho, está na hora de eu me libertar e você tem que despertar’. Ela falou o nome da minha mãe, Iraci Feitosa da Silva. Então, me veio um clarão da casa da minha tia, onde ela mora até hoje”, lembra Josenildo Marreira.
A partir disso, a história do sumiço do menino de dez anos de idade começou a mudar. Josenildo lembra da fachada de uma casa. Até que um dia, passa na frente do endereço. Ao reconhecer o local, parou e foi perguntar para os moradores se conheciam uma mulher chamada Iraci.
“Falei ‘A senhora conhece alguém por nome de Iraci Feitosa da Silva?’. Quando eu falei isso, ela falou ‘Meu nome’. Quando ela falou isso, já me veio aquela tristeza e ela desconfiou que era eu”, lembra o vigia.
Foram 34 anos de separação, dúvidas, medos e perguntas sem respostas. O exame de DNA confirmou o que o coração dos dois já tinha certeza. Josenildo o filho sequestrado de Iraci Feitosa. Atualmente juntos, mãe e filho não pretendem se separar nunca mais.
“Pedi desculpa, porque não foi pelo meu querer ela ter sofrido tanto assim. Eu saí no intuito de encontrar a pessoa que a mulher falou para mim. Eu não fugi de casa”, afirma Josenildo Marreira.
“Deus e Nossa Senhora trouxeram você de volta para mim. É tudo que eu tenho na vida, vocês, meus filhos. Eu não queria ninguém sem vocês. Eu amo vocês. Não tem nada de desculpa. A mamãe te ama muito”, diz Iraci, emocionada.
Matéria produzida em vídeo pela repórter Débora Ribeiro para a TV Gazeta



