Foram anos se dedicando como aluno bolsista, e após sua formação acadêmica, passou a ser voluntário
Nesta sexta-feira (22) faz um ano que o Acre perdeu um dos maiores incentivadores de artes marciais do Estado. Gleidson Dias, professor de karatê, que atuou por 14 anos no projeto de Extensão da Universidade Federal do Acre (Ufac), “Karatê: Um Caminho para Educação”. Foram anos se dedicando como aluno bolsista, e após sua formação acadêmica, no curso de Educação Física, passou a ser voluntário coordenando sob os cuidados do seu primeiro aluno formado faixa preta pelo projeto, João Almada.
“Conheci o karatê com 12 anos através de uma amiga e nos primeiros treinos saía muito cansado, mas sempre com vontade de voltar. No final do treino o Sensei sempre conversava conosco e aos poucos foi nascendo nossa amizade e com o passar dos anos nossa relação era quase de pai e filho, e eu até o convidei para ser meu padrinho de crisma. O projeto foi crescendo, e eu consegui passar na Ufac e participei do projeto dessa vez como bolsista”, lembra Almada.
“Chegamos a ter mais de 100 pessoas treinando, e com o apoio da Ufac levamos mais de 40 karatecas para Rondônia, para disputar campeonatos Estaduais e Etapas do Campeonato Brasileiro. Gleidson dedicou sua vida ao projeto de karatê, tinha muitas outras tarefas, mas abdicava de tudo para dar aula. Seus ensinamentos ficam na memória, suas frases clássicas, seu carinho e dedicação a cada pessoa que pisou dentro do Dojo”, destaca.
As aulas aconteciam na Ufac, na sala de dança do curso de Educação Física, ofertado para alunos, professores e comunidade externa. “O Caminho da Paz e Tranquilidade”, era ensinado para crianças, jovens, adultos e também para o público na terceira idade, com aulas duas vezes na semana. Neste projeto de karatê foi possível descobrir muitos talentos, proporcionando vivências incríveis para os participantes, ao lado de campeões regionais, brasileiros e até mundiais.

David Dias, hoje faixa marrom e integrante do projeto, conta que Gleidson o apresentou o karate-do no ano de 2013. “Estou certo de que nenhum outro personagem contribuiu tanto para a difusão do karate-do no Acre. A partir de 2015 o Estado passou a integrar a Confederação Brasileira de Karate e passamos a participar de competições de alto nível. Através do trabalho do Sensei Gleidson, tive a honra de conquistar a medalha de prata no Campeonato Brasileiro Universitário de Karate Olímpico em 2015”, lembra Dias.
Além de vários outros campeonatos, David também foi um dos selecionados a representar o Acre na competição Seletiva Pré-Olímpic, para compor a Seleção Brasileira para os Jogos de Tokyo 2020 no ano de 2017, na qual seguiu até a final na sua categoria, porém não alcançou lugar no pódio.
Rafaella Magalhães, aluna do projeto que já representou o Acre na Final do Campeonato Brasileiro de Karatê em 2019 conta que o karatê proporcionou muitas alegrias. “Sou praticante desde o final de 2013 e os treinos me ensinaram muito sobre persistência, superar meus limites e o controle da depressão e ansiedade. Graças a toda essa vivência, hoje sigo sem nenhum medicamento. E também foi onde conheci meu esposo, hoje temos nossa família’’, conta.

Ora na sala de chão frio, ora na quadra de esportes nos dias que haviam muitos praticantes. Muitas vidas ali se conectaram ao longo do tempo, não só se resumindo aos treinamentos, mas havia também conversas, risadas e união. Através desta figura bastante exigente, se podia ver uma pessoa de coração enorme e prestativo, que sempre acreditou que a arte marcial pode transformar vidas.
Há pouco mais de 1 mês seus ex-alunos e convidados se reúnem para treinar em seu nome, passando os seus ensinamentos adiante, lembrando sua história e seu nome. Ainda sem um lugar adequado para treinar, os encontros têm acontecido no Horto Florestal nas tardes de domingo, sendo coordenado pelos karatecas mais graduados que Gleidson formou: João, David e Jullyano Chaves.
“O sonho dele era que o karatê pudesse ser visto pela comunidade e pelo Poder Público como uma atividade extremamente importante para a formação do caráter, onde livra jovens de drogas e situações degradantes, auxilia no controle da depressão, e através do esforço forma verdadeiros campeões. Infelizmente, o nosso Estado não tem políticas públicas voltadas para as artes marciais, nunca somos lembrados”, afirma Jullyano Chaves.
Talita Ximenes, que voltou a treinar karatê, e participa dos treinos no Horto Florestal conta que o karatê surgiu na vida dela em 2014 no Dojô Ufac. “Cheguei no meu primeiro dia de treino naquela época esperando encontrar uma atividade física bacana e acabei ganhando uma família: amigos inseparáveis e meu companheiro de vida. Hoje, 8 anos depois, retomando os treinos no Horto, sinto como se estivesse de volta ao meu lar e enxergo o sensei Gleidson em todo nosso treinamento, não apenas no aspecto técnico, mas na postura responsável que nos esforçamos para ter todos os dias. Há um pouco dele em todos nós”.

Alex Pimentel, um dos amigos mais antigos de Gleidson, se conheceram no Ministério de Jovens da Igreja Católica, conta que de tanto o amigo falar sobre karatê acabou sendo convencido a participar. ‘‘Naquele tempo, observei que ele era uma pessoa peculiar aos demais daquele movimento, porque constantemente ficava de cara fechada e vez outra reclamava se algo não estava de acordo. Juntos participamos da equipe de comunicação jovem e foi onde pude conhecer aquela figura aparentemente “bruta”, que transbordava de amor pelas pessoas que o cercavam e também as que não conhecia. O karatê era um dos vários trabalhos que ele desenvolvia para comunidade, transformando as vidas de muitas crianças, jovens e adultos onde a disciplina era exercida dentro e fora do Dojô”, enfatiza.
“De tanto falar de Karatê, eu fui a convite dele fazer uma fotos de um exame de faixa, acabei achando interessante e decidi fazer uma aula que virou muitas outras e acabei chegando a faixa laranja. Devido a falta de tempo e as responsabilidades da vida, deixei o karatê, mas o karatê não me deixou, pois tudo que aprendi nesse tempo com meu Sensei, amigo, padrinho e irmão eu aplico na minha vida. Um excelente pai, filho e irmão que deixa saudades em todos aqueles que o conhecia”, conclui Pimentel.
–
Gleidson Dias faleceu no 22 de abril de 2021, aos 41 anos de idade, em decorrência de complicações causadas pela covid-19, pouco antes de ter a oportunidade de ser vacinado. Deixando esposa e duas filhas, pai, mãe, irmão, amigos e centenas de alunos.


