O Programa Gás do Povo, lançado pelo governo federal como reformulação da política de auxílio ao gás de cozinha, substitui o repasse em dinheiro pelo fornecimento direto do botijão às famílias de baixa renda. A mudança tem como objetivo garantir que o benefício seja efetivamente utilizado para a compra do gás, ampliando a segurança alimentar e energética, especialmente em estados como o Acre, onde o custo do botijão está entre os mais altos do país.
Até então, o auxílio era pago em dinheiro, o que permitia que o recurso fosse direcionado para outras despesas. Para o economista Rubens, esse formato acabou comprometendo a efetividade da política pública, já que o benefício nem sempre era utilizado para a finalidade prevista.
“Na política anterior, o valor do gás era repassado em dinheiro às famílias, que podiam alocar esse recurso em outra coisa que não fosse o gás. Isso levou a desvios de finalidade. Em tese, o novo modelo tende a melhorar a segurança alimentar”, explica.
Rubens ressalta, porém, que a mudança não interfere no preço do botijão, um dos principais entraves enfrentados pelos consumidores acreanos.
“A política em si não vai ter impacto sobre o preço. O Acre vai continuar com um dos botijões mais caros do Brasil, independentemente do programa”, afirma.
Efeito direto na renda das famílias
Na avaliação do economista Orlando Sabino, a reformulação do auxílio representa um avanço social relevante, sobretudo para a população em situação de maior vulnerabilidade. Ele explica que, em contextos de extrema carência, as famílias tendem a priorizar despesas imediatas, como alimentação, o que nem sempre garante o uso do benefício para a compra do gás.
“A população é muito carente. Qualquer recurso a mais acaba sendo direcionado primeiro para necessidades básicas. O gás faz parte da segurança energética, mas antes o recurso não era carimbado”, observa.
Com a entrega direta do botijão, Sabino avalia que a política se torna mais eficiente ao cumprir seu objetivo central.
“Agora não há mais o repasse do dinheiro, mas o abastecimento direto por parte das empresas às famílias. Isso torna a política mais eficaz para seus fins sociais e energéticos”, afirma.
Do ponto de vista econômico, o impacto da mudança sobre o comércio local tende a ser limitado. Segundo Sabino, o peso do gás no orçamento familiar é significativo, e a garantia do produto pode representar alívio direto na renda. Um botijão de 13 quilos custa, em média, cerca de R$ 130, valor que pode representar até 30% da renda de famílias extremamente pobres e cerca de 10% de um salário mínimo.
Logística nos municípios isolados é principal desafio
Apesar do potencial social do programa, a execução no Acre enfrenta desafios logísticos importantes, principalmente nos municípios isolados que não possuem acesso rodoviário. Nessas localidades, o abastecimento depende quase exclusivamente do transporte fluvial, condicionado ao regime dos rios.
Sabino destaca que será necessário planejamento específico para garantir a regularidade do fornecimento e compara a situação à logística já utilizada no abastecimento de combustíveis.
“É um desafio, principalmente nos quatro municípios isolados do estado, onde o abastecimento precisa ser feito por via fluvial. O regime dos rios, com cheias e secas, dificulta essa logística”, explica.
“Hoje, esses municípios são abastecidos com óleo diesel por meio de depósitos formados quando os rios estão cheios. Algo semelhante pode ser feito com o gás, criando uma logística que permita que o produto chegue aos lugares mais isolados”, completa.
Impacto social
No balanço geral, Orlando Sabino avalia o Programa Gás do Povo como um avanço social significativo, com reflexos diretos na vida das mulheres, que tradicionalmente concentram as atividades domésticas. Ao garantir o acesso ao gás, o programa reduz a dependência do uso de lenha e outras fontes precárias de energia.
“A mulher, que geralmente é responsável pelos afazeres domésticos, deixa de precisar buscar lenha, catar cavaco ou até desmatar. Isso significa mais higiene, mais tempo para a família, para a comunidade e até para o trabalho fora de casa”, afirma.
Apesar do otimismo, Sabino reforça que o sucesso do programa depende de acompanhamento permanente. Para ele, a atuação de órgãos de controle, como Ministério Público, Controladoria-Geral da União e tribunais de contas, será fundamental para evitar falhas no abastecimento e garantir que a política alcance quem realmente precisa.
Como funciona o Gás do Povo
O Programa Gás do Povo substitui o antigo auxílio pago em dinheiro pela entrega direta do botijão de gás de cozinha, evitando que o benefício seja usado para outras finalidades. As famílias contempladas retiram o botijão gratuitamente em revendas credenciadas, conforme a logística definida pelo governo. Têm direito ao programa famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), com dados atualizados, e renda familiar per capita de até meio salário mínimo. A seleção dos beneficiários é feita de forma automática, sem necessidade de inscrição específica, e a situação pode ser consultada pelos canais oficiais do governo federal e da Caixa Econômica Federal.



