Por Aniely Cordeiro
A capital acreana recebe dois espetáculos que resgatam histórias de resistência e identidade: Dandara para todas as mulheres, em cartaz nos dias 29 e 30, às 19h30, e Madame Satã, nos dias 31 e 1 de fevereiro na Usina de Arte João Donato. As montagens colocam em cena narrativas marcadas por raça, gênero e memória histórica, propondo reflexões sociais por meio do teatro.
Os espetáculos integram a programação do Grupo dos Dez, companhia mineira reconhecida nacionalmente, que retorna aos palcos com obras que dialogam com questões históricas e contemporâneas. Apesar de trajetórias distintas, as duas peças se conectam ao evidenciar personagens que desafiam apagamentos e violências estruturais.
Dandara e a memória das mulheres negras
Dandara para todas as mulheres nasce da necessidade de representar mulheres negras historicamente invisibilizadas. Segundo Bia Nogueira, a obra propõe um encontro entre teatro, música e palavra para resgatar essas presenças.
“Este trabalho nasce da urgência de falar sobre mulheres negras que foram apagadas da história oficial, mas que seguem vivas na memória, na luta e na construção do presente. O espetáculo propõe um encontro entre teatro, música e palavra para provocar reflexão e emoção, colocando no centro da cena corpos, vozes e narrativas que historicamente foram marginalizadas”, afirma.

A diretora destaca que a montagem é também um convite à escuta e à transformação social. Para ela, ocupar o palco com essas histórias é um gesto político.
“Dandara para todas as mulheres é um convite ao desconforto necessário e à transformação. Acreditamos na arte como ferramenta de conscientização e como espaço de disputa simbólica, capaz de gerar reflexão crítica e fortalecer processos de mudança social. Estar em cena é também um ato político, e ocupar o palco com essas histórias é reafirmar o direito das mulheres negras de existir, criar e narrar a própria história”, completa.
Madame Satã e a trajetória de resistência
Na obra Madame Satã, com direção assinada por Rodrigo Jerônimo, o espetáculo reconstrói a trajetória de João Francisco dos Santos antes da consolidação da figura mítica conhecida na Lapa carioca. A peça apresenta diferentes camadas da personagem, explorando identidade, marginalização e resistência.
“A montagem apresenta a personagem antes mesmo de receber o nome de Madame Satã. Retratamos como João Francisco dos Santos, um dos 18 filhos de uma família pobre no início do século 20, é trocado por uma égua e se torna, a duras penas, figura mitológica da Lapa carioca. A peça é apresentada por três atores que criam personalidades distintas, sem respeitar a linearidade do tempo, justamente para trazer a complexidade dessa personagem”, explica Jerônimo.

A encenação também aproxima passado e presente ao evidenciar estruturas de violência que permanecem atuais.
“Preta, pobre e homossexual no início do século XX, Madame Satã traz reflexões sobre violências antigas que continuam presentes hoje. Entramos no universo que rodeia sua vida para falar de prostituição, pobreza, racismo, homofobia, transfobia e da violência de uma sociedade que ainda convive com o preconceito e a intolerância”, afirma.


