A fotografia é frequentemente vista como um simples registro visual, mas sua essência vai muito além da imagem técnica. Este texto pretende abordar como o ato de fotografar se entrelaça com a necessidade humana de permanência e como ele molda nossa percepção do real. Diante disso, você já pensou em como a fotografia pode contribuir para a existência do ser humano?
A condição humana tem duas características que a diferenciam do restante dos seres vivos: temos a autoconsciência, estamos cientes da nossa existência, e, ao mesmo tempo, temos a consciência antecipada da morte. O professor, economista e escritor Eduardo Giannetti discute o que ele chama de “anseio humano pela perenidade”. Em entrevista ao Estadão, Giannetti, que também é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), falou sobre imortalidade, ciência da vida longa e o sentido da existência. Ele afirma que:
Como todos os seres vivos, do mais simples ao mais complexo, somos movidos pelo instinto de sobrevivência. Queremos continuar vivos, cada célula do nosso corpo quer continuar viva. No caso do ser humano, o instinto de sobrevivência ganha nova e radical dimensão, que é o anseio de perenidade, o anseio de viver eternamente, de não desaparecer, de não deixar a consciência simplesmente se esvair e o corpo morrer.
Enquanto a ciência busca equações para a longevidade, o restante de nós busca formas alternativas de se imortalizar. Como ilustra a animação Viva: A Vida é uma Festa (Pixar), a “morte final” só ocorre quando não resta ninguém no mundo dos vivos que se lembre de você. Partindo dessa filosofia, criamos técnicas para jamais morrer: o registro. Marcar o mundo e capturar instantes é inerente ao ser humano; seja por uma carta, uma música ou pela fotografia, somos condicionados a reter detalhes.
No início dos anos 2000, o neurocientista austríaco Eric Kandel mostrou que as pessoas só retêm informação quando percebem nela algum valor, trabalho que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Medicina. “Quanto mais feliz o momento, mais ele tende a ficar armazenado, já que o cérebro entende sua relevância”, afirma. Sob esse pressuposto, capturamos o que nos faz sentir, o que nos comove, o que nos aquece e nos move. Há pessoas que olham o mundo e há pessoas que o enxergam; os que possuem um olhar que atravessa a superfície das coisas e encontra, nas entrelinhas da realidade, a essência do que realmente importa. A fotografia nunca foi apenas apertar um botão; é traduzir sentimento em luz, é capturar aquilo que o tempo não consegue apagar; cada imagem carrega uma sensibilidade única, uma intenção que transborda do enquadramento e atinge quem observa.
A fotografia faz o comum parecer extraordinário; encontra poesia na simplicidade de um gesto, de um olhar distraído, de um raio de sol atravessando uma janela. Há algo de espontâneo, quase mágico, em como ela capta o instante exato antes que ele desapareça. Ela não força o momento, ela espera que ele aconteça e, quando acontece, o transforma em eternidade. Para o fotógrafo, a câmera é como se fosse uma extensão de sua percepção, uma ponte entre o real e o imaginário. Eles transformam lembranças em imagens, momentos em eternidade e o banal em algo sublime.
O cérebro humano processa a visão através de um complexo sistema de circuitos neurais que interpreta as informações sensoriais captadas pelos olhos. Este sistema não apenas registra a imagem visual, mas também a interpreta e a organiza em uma representação mental que pode ser lembrada e utilizada posteriormente. A percepção consciente é gerada no cérebro, onde as informações visuais são processadas e combinadas com experiências passadas e conhecimentos pré-existentes. Essa interação permite que o cérebro reconstrua uma imagem com profundidade, cor e movimento, formando assim a “realidade” que percebemos.
A fotografia se faz aqui, na essência do ‘eu’. Desde o século XIX, ela foi usada tanto para registrar o belo quanto para categorizar raças de forma violenta. Inicialmente, sequer foi projetada para fotografar peles negras, moldada por uma percepção eurocêntrica. Um exemplo técnico dessa exclusão são os ‘Cartões de Shirley’, tabelas de calibração de cor da Kodak que usavam modelos brancas como padrão universal de equilíbrio químico e luminoso, dificultando a reprodução fiel de tons de pele escuros por décadas.Historicamente, essa imagem da população negra foi produzida a partir de olhares coloniais, exotizantes e racistas. No entanto, a reapropriação da imagem por fotógrafos e artistas negros surge como um gesto político e estético que visa romper com essa tradição e construir novas narrativas visuais sobre a negritude. Ao assumir a câmera, o artista não apenas capta imagens: ele denuncia, afirma, recria e reconfigura o mundo. Essa retomada permite que os próprios sujeitos sejam narradores de suas existências, combatendo estereótipos e refletindo sobre a construção da identidade na sociedade.
Sob este prisma, a fotografia torna-se revolta e afirmação. Um exemplo dessa percepção cultural, e de como o olhar do narrador transforma o banal em símbolo, está no álbum “Debí Tirar Más Fotos”, lançado por Bad Bunny em 2025. A capa do álbum, que apresenta duas cadeiras de plástico, simboliza a simplicidade e a identidade cultural da América Latina. Infiro aqui que Bunny não ganhou na categoria de melhor capa de álbum no Grammy Award porque os juízes não foram capazes de reconhecer a sensibilidade de um elemento simples e de ‘pouco valor’, mas que faz parte do cotidiano de um povo inteiro. Mesmo que não percebamos, as cadeiras de plástico estão em tudo na nossa vida, latinos, e isso não existe em nenhum outro grupo étnico. A percepção cultural do Bad Bunny foi cirúrgica.
Nesse momento, e em tantos outros, a fotografia é e foi capaz de nos provocar e relembrar emoções, de nos carregar para lugares, tempos e pessoas. Acredito que não há uma alma latina que tenha visto a capa deste álbum e não tenha sido levada para um espaço-tempo em que ‘essas cadeiras’ de plástico não foram tudo em nossa vida. Portanto, a fotografia não é apenas um registro, mas uma ferramenta de imortalidade e resistência cultural. Ela permite que a alma latina, através de símbolos simples como uma cadeira de plástico, reafirme sua existência em um mundo que muitas vezes tenta apagá-la.
Luísy Mariá Xavier Rodrigues –Bacharelanda em Jornalismo pela Universidade Federal do Acre (Ufac). Membro do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi/Ufac).
E-mail: luisy.xavieer@gmail.com.



