Você chegou ao posto essa semana, olhou para o visor da bomba e deu um suspiro. De novo. Em Rio Branco, a gasolina já passou de R$ 8 o litro, e a sensação é que não tem fundo. Antes de xingar o frentista, antes de achar que é só coisa do Acre, deixa eu te contar o que está acontecendo. Porque a história começa numa faixa de mar lá no Oriente Médio que tem um nome difícil, mas que mexe diretamente com o que você paga na bomba.
Desde o fim de fevereiro, os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã. Em resposta, o Irã reagiu com mísseis e fez algo que vinha ameaçando há décadas: bloqueou o Estreito de Ormuz. Aquele nome esquisito que você já deve ter ouvido no noticiário, mas nunca parou para entender direito.
O Estreito de Ormuz é uma faixa de mar de pouco mais de 30 quilômetros de largura no ponto mais estreito, que liga o Golfo Pérsico ao restante dos oceanos. Parece pequeno no mapa. Mas por ali passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Quando o Irã disse que nenhum navio passaria, mais de 150 petroleiros ficaram ancorados do lado de fora esperando para ver o que acontecia. O preço do barril disparou lá fora. E aqui? Aqui a gasolina acompanhou.
Mas aí vem a pergunta que ninguém consegue responder na hora: o Brasil não tem petróleo? A Petrobras não é uma das maiores petroleiras do mundo? Por que a gente se abala com uma guerra que acontece do outro lado do planeta?
Essa é a parte que pouca gente sabe explicar.
Desde 2016, a Petrobras passou a calcular o preço do combustível aqui dentro pelo que custaria importá-lo de fora. Sabe aquela conta que você faz quando pesquisa o preço de algo no exterior e adiciona o frete, o imposto, o câmbio? A Petrobras fazia isso com o combustível que ela mesma produzia aqui. Essa política se chama PPI, Paridade de Preço Internacional, e o efeito prático é simples de entender: se o dólar sobe, o combustível sobe. Se o barril encarece lá fora, encarece aqui. Mesmo que o petróleo tenha sido extraído aqui do lado.
Em 2023, essa política foi oficialmente encerrada. A Petrobras passou a usar outros critérios, buscando amortecer um pouco esses choques. Mas a ligação com o mercado internacional não desapareceu. Ficou menor, mas está lá. E quando uma guerra fecha uma das principais passagens de petróleo do mundo, a conta chega do mesmo jeito.
Tem ainda mais uma peça nessa história. Nos últimos anos, algumas refinarias da Petrobras foram vendidas para empresas privadas. A ideia era que a concorrência faria o preço cair para o consumidor. Em algumas regiões, o que aconteceu foi o contrário: sem a presença de um operador público, o dono da refinaria passou a cobrar o que queria, porque não havia ninguém fazendo contrapeso. É o que acontece quando um mercado que deveria ser competitivo acaba nas mãos de um único player.
E se você acha que pelo menos quando a guerra esfriar o preço vai cair logo, vale lembrar de algo que essa coluna já explicou: a gasolina é um bem inelástico. As pessoas precisam dela independente do preço. Você não deixa de trabalhar porque a gasolina subiu. Não cancela a feira porque o frete ficou mais caro. Por causa disso, quando o preço sobe, ele sobe rápido. Quando deveria cair, desce devagar, pingando, como se o mercado estivesse com pressa só na ida.
Para o Acre, tudo isso chega ainda mais pesado. A gente já está no fim de uma das rotas logísticas mais longas do país. Cada pedaço desse caminho tem um custo. E quando o mercado internacional treme, quando o câmbio vai mal, quando a estrutura de refino não absorve o choque, esse custo chega aqui maior do que em qualquer outro lugar.
O número no visor da bomba parece só um número. Mas dentro dele tem guerra, tem dólar, tem decisão de política energética e tem a distância de Rio Branco de tudo.
Quando o mundo pega fogo lá fora, quem não tem proteção própria paga a conta duas vezes. Uma vez na guerra. Outra na bomba de gasolina.




