Por muito tempo, a história do Brasil foi contada por uma única lente: a do homem, branco e colonizador. Nos livros didáticos e nos ditos “clássicos da literatura”, a figura da população negra foi frequentemente reduzida ao papel de um figurante passivo no processo de construção do que hoje chamamos de Brasil. No entanto, uma força literária latente e ancestral vem quebrando esse monólogo, a literatura afro-brasileira escrita por mulheres negras surge como um ato político de retomada da própria narrativa. Mas esse não é um movimento recente, a retomada de autoras negras brasileiras por narrarem suas histórias iniciou-se muitos anos atrás, com uma das principais pioneiras, a professora Maria Firmino dos Reis.
Nascida em São Luís, em 1822, Maria Firmina dos Reis foi uma mulher de intelecto brilhante que desafiou as estatísticas de seu tempo. Em 1847, aos 25 anos, ela foi aprovada em um concurso público e tornou-se a primeira professora concursada de sua região. Mas Maria Firmino dos Reis foi além: ao se aposentar, fundou a primeira escola mista e gratuita do estado. Numa época em que meninos e meninas não podiam nem dividir a mesma sala (e olha que muitas garotas nem tinham chance de estudar) Maria Firmino dos Reis foi lá e defendeu um ensino que aceitava a todos.
Em 1856 Maria Firmino dos Reis abalou toda uma estrutura colonial com seu romance, considerado o primeiro livro abolicionista em língua portuguesa, “Ursula”, sob o codinome “uma maranhense” ela enfrentou um sistema duplamente excludente: o escravocrata, que negava humanidade ao sujeito negro, e o misógino, que restringia às mulheres o espaço da vida privada e do silêncio intelectual.
Conforme aponta Regina Dalcastagnè (2012), o campo literário brasileiro foi historicamente dominado por um grupo homogêneo (homens, brancos, de classe média/alta). Autoras negras que tentavam romper essa barreira encontravam o que a teórica chama de “barreiras de acesso à publicação”. Apesar da relevância de sua obra, Maria Firmina dos Reis foi vítima de um apagamento institucional que durou mais de um século, pois a sociedade escravocrata e racista não aceitaria uma intelectual negra que ousou escancarar o sistema escravista brasileiro e trazer ao posto de “modelo moral” os protagonistas negros de seu livro.
Esse apagamento de uma autora tão revolucionária quanto Maria Firmina dos Reis é um exemplo prático do que Sueli Carneiro (2023) chama de “Epistemicídio” que nada mais é do que a tentativa de apagar o rastro de saberes, cultura e história de grupos que a sociedade, por muito tempo, preferiu manter em silêncio. No caso de Maria Firmina, não estamos falando de um simples “esquecimento” acidental dos livros de história, mas de um mecanismo que tenta nos convencer de que o conhecimento e a literatura só têm uma cor e uma origem. Quando ignoramos a primeira romancista do Brasil apenas por ela ser uma mulher negra, cometemos um tipo de assassinato simbólico de sua capacidade intelectual.
Somente na década de 1970, graças aos esforços de pesquisadores como Horácio de Almeida e, posteriormente, do grupo Literafro, sua obra foi resgatada, provando que a literatura afro-brasileira possui raízes profundas e fundacionais na identidade do Brasil. Resgatar sua obra hoje é muito mais do que um ato de justiça literária; é um passo essencial para interromper esse ciclo de silenciamento e admitir que a nossa identidade brasileira foi construída por mãos e mentes que o racismo tentou, sem sucesso, enterrar.
Karen Kristina Araújo Vasconcelos
Mestranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Acre, Graduada do curso de licenciatura em História na Universidade federal do Acre, conselheira universitária (2024) e Pesquisadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas da Ufac (Neabi/Ufac) desde 2022.




