Morcegos se instalam na dispensa onde fica a merenda
Desde novembro do ano passado, equipes de reportagem do Gazeta em Manchete percorrem os municípios para mostrar o perfil da Educação e Saúde. Aproveitando o material do quadro “Acre Real”, vamos viajar pelas rodovias federais e revelar um pouco dos problemas que os alunos do interior vivenciam todos os dias. Vamos começar essa viagem pela região do Vale do Juruá.
Na parte mais ocidental do Brasil, lá no cantinho do mapa do Acre, está o município de Mâncio Lima. É nessa cidade de 17.000 habitantes que revelaremos o real retrato da Educação.
A correria dos estudantes no intervalo, em uma das maiores escolas da cidade, tem um motivo: para muitas crianças, a merenda será a primeira refeição no dia. Como a quantidade é pouca, os últimos podem ficam sem a sopa.
A diretora da Escola, Alice Rocha, disse que não se sente bem com os produtos que serve para os estudantes. Gostaria de poder receber mais e melhores produtos para fornecer um bom alimento às crianças. “Às vezes, elas chegam com tanta fome que antes de entrar na sala a gente serve um café com bolacha para ele se concentrar em sala de aula”, explica.
Numa creche de Mâncio Lima, o almoço para 26 crianças sairá de meio quilo de carne moída. Para completar, a cozinheira vai colocar farinha. Assim, todos comem. As funcionárias contam que já fizeram “vaquinha”, porque os produtos enviados pela prefeitura não deram para o mês. Em outra escola, a merenda será inhame, doado pela comunidade.
Cruzeiro do Sul
Seguindo pela BR-364, poucos mais de 30 quilômetros, vamos chegar a Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do Estado. Nossa primeira visita é na escola que homenageia o herói da cidade: Marechal Thaumaturgo de Azevedo.
O portão está quebrado, enferrujado. O muro, descascado, antecipa o que vamos encontrar pela frente. A chuva chega junto com a gente, e ficou difícil encontrar um lugar para se proteger. No pátio interno da escola, a água da chuva invadia por todo lado. O único lugar que escapa de goteiras, os funcionários usam como estacionamento das motos.
Por toda extensão da escola são infiltrações, portas quebradas e buracos no forro. Para recreação os alunos precisam de rodos para retirar a água acumulada da quadra. Só depois do trabalho de limpeza podem jogar.
No bairro Miritizal, conhecemos a escola 21 de abril. Na diretoria, o principal item é uma bacia que fica no meio da sala onde tem uma enorme goteira. A unidade tem apenas um banheiro para meninos, meninas e funcionários.
O único investimento para a unidade terminou de forma triste. O Ministério da Educação enviou 18 computadores, mas não existem redes: elétrica e de internet para ligar os equipamentos.
Em outra escola, distante 150 metros, o prédio ameaça ruir. O quadro tem tantos buracos que a professora agora só dita os textos e exercícios. Na sala ao lado, a parede está escura com tantas fezes e urina de morcego. O secretário de Educação do município, Ivo Galvão, disse que já pediu recursos para Governo Federal. Como não veio dinheiro, nada de reformas.
“Já enviamos os relatórios pedindo a reforma e ampliação das escolas. A prefeitura não tem recursos próprios para fazer as obras”, justificou.
Tarauacá
A próxima parada é a cidade de Tarauacá. O tempo de viagem é o dobro por causa das condições da estrada. Na maior escola do município, referência para a prefeitura, não existe um bebedouro. Os servidores enchem com água da torneira garrafas peti, colocam para gelar e depois entregam aos alunos para que matem a sede.
Na escola Almirante Barroso, na periferia da cidade, faltam telhas, o portão e as colunas estão quebrados e ventiladores não funcionam. Aqui a hora da merenda nos chamou a atenção. Não existem mesas e cadeiras. Então, o achocolatado e a bolacha devem ser consumidos pelos alunos em sala de aula.
Outro ponto que chama a atenção são os gastos da alimentação escolar. O ministério da Educação enviou R$ 672 mil em 2014. A prefeitura gastou apenas R$ 74 mil para complementar a merenda. Isso explica tanta bolacha.
As compras para a alimentação dos alunos foram feitas em lojas: de vender roupas, de variedades, onde tem brinquedos, artigos para presentes e enfeites e até um hotel vendeu itens alimentícios. A prefeitura comprou merenda de um comércio de Xapuri, a mais de 650 quilômetros. A empresa pertence aos familiares do deputado estadual Manoel Morais.
Para o prefeito Rodrigo Damasceno, as compras foram normais, mesmo com o indício de empresas “pasteiras” estarem disputando os recursos da merenda. “Aqui em Tarauacá temos hotéis e lojas que podem vender outros produtos. Eles participam da licitação, vencem e entregam os produtos. É isso que interessa” alegou.
Feijó
De volta à BR-364, a próxima parada é a cidade de Feijó. São apenas 45 quilômetros de distância. Paramos numa escola rural. No fim de mais um dia de aula, verificamos um grupo de crianças que vai fazer uma viagem até chegar em casa.
A turma sai da escola e pega uma trilha no mato no meio da lama. Algumas estão com os pés descalços. Depois da travessia, voltam a pegar outro caminho na vegetação. Eles vão andar quase meia hora até chegar ao Rio Envira, onde um barco espera para levar as crianças. Apertadinhos e protegidos com coletes, esses alunos vão esperar até duas horas até chegar em casa.
Na parte urbana, ninguém entende as obras nas escolas. A fossa do banheiro do ginásio foi construída junto ao poço que abastece o bebedouro e a cozinha. A unidade tem problemas com a fiação elétrica, com o ar condicionado e vazamentos na cobertura. Não existe a preocupação onde estão os alunos. Um grupo, por exemplo, brincava de peteca em frente a escola, na hora da aula.



