O fotógrafo acreano Paulo Henrique Costa, de 30 anos, natural de Cruzeiro do Sul, conquistou o primeiro lugar na categoria Fotografia do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação em Defesa do Meio Ambiente, Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais. A premiação ocorreu na última quinta-feira (11), no Itamaraty, em Brasília.
O reconhecimento foi concedido ao projeto “Memória Visual do Vale do Juruá: A Amazônia Acreana em Tempos Extremos Climáticos”, trabalho que documenta os impactos da crise climática na região do Vale do Juruá por meio de registros de secas, fumaça, enchentes e queimadas.

O concurso homenageia o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira, assassinados em 2022 no Vale do Javari, no Amazonas. A iniciativa busca incentivar produções voltadas à proteção do meio ambiente, dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e da liberdade de expressão.
Segundo Paulo Henrique, o projeto nasceu da necessidade de registrar as mudanças que vêm ocorrendo na região onde vive. Formado em Ciências Ambientais e fotógrafo autodidata desde 2024, ele passou a acompanhar os efeitos de eventos climáticos extremos que se tornaram mais frequentes no Vale do Juruá.

Para o fotógrafo, também existe a necessidade de ampliar o protagonismo de quem vive na Amazônia na construção dessas narrativas.
“Eu sempre falo sobre a importância de nós amazônidas retratarmos o nosso território. A gente conhece esse lugar melhor do que qualquer outra pessoa e já está na hora de contarmos a nossa história através da nossa perspectiva, pois o olhar de fora é carregado de estereótipos sobre a nossa região”.

O projeto reúne imagens produzidas ao longo de diferentes ciclos climáticos e busca apresentar uma perspectiva construída a partir da realidade local. Além dos impactos ambientais, os registros abordam aspectos sociais, culturais e históricos do território.

Paulo Henrique afirma que um dos principais objetivos do trabalho é chamar atenção para uma região que ainda recebe pouca visibilidade no debate nacional sobre a Amazônia.
“Através desse projeto de longo prazo que segue em curso, eu busco registrar os impactos da crise climática e as formas de resistência, adaptação e permanência das populações juruaenses diante dessas mudanças. Mais do que denunciar um problema, o projeto procura preservar memórias e fortalecer narrativas produzidas a partir do próprio território”, contou.
O fotógrafo relata que a produção do projeto ocorreu sem financiamento externo. Além das dificuldades financeiras e logísticas, ele precisou enfrentar os próprios eventos extremos que registrava.
Durante as enchentes e períodos de fumaça intensa, parte do trabalho foi realizada em áreas de risco e em locais afetados diretamente pelos desastres. Segundo ele, o desafio mais difícil foi lidar com o impacto emocional de documentar situações que atingiam pessoas, comunidades e paisagens com as quais possui vínculos pessoais.

Ao receber o prêmio, Paulo Henrique destacou o simbolismo da homenagem a Dom Phillips e Bruno Pereira, figuras ligadas à defesa da Amazônia e dos povos tradicionais.
“Ser reconhecido por um trabalho que também busca potencializar a visibilidade sobre essas questões é uma grande honra e uma enorme responsabilidade. Vejo esse prêmio não apenas como um reconhecimento individual, mas como um reconhecimento da importância das histórias, das pessoas e dos territórios retratados nas fotografias”.
Para ele, a conquista também pode ajudar a ampliar a atenção sobre o Vale do Juruá e os desafios enfrentados pela população da região diante das mudanças climáticas.
“Muitas vezes, quando se fala da Amazônia, as atenções se concentram em regiões mais conhecidas, enquanto territórios como o Vale do Juruá permanecem invisibilizados. Espero que esse prêmio contribua para ampliar o olhar sobre essa parte da Amazônia e para mostrar que os impactos da crise climática já fazem parte do cotidiano das populações que vivem aqui”, disse.
Entre as imagens do projeto, uma possui significado especial para o fotógrafo. O registro mostra duas crianças observando um incêndio em junho de 2025, cena que, segundo ele, resume a mensagem central do trabalho.
“Para mim, essa fotografia sintetiza uma das principais questões do projeto: a crise climática não é uma ameaça distante, mas uma realidade que já está transformando profundamente a vida na Amazônia.”




