Quando o time precisa de mais calma para voltar a jogar
Não se sabe bem ao certo a origem da expressão. Mas, quem tem mais de 40 anos de Acre certamente já usou (ou no mínimo ouviu) a expressão “A cerca é minha!”. Era uma senha, que anunciava o próximo time a jogar.
Claro que a frase era muito mais usada para o futebol ou vôlei, mas acabava servindo para tudo. Quem chegava atrasado e percebia que havia outros times esperando perguntava: “De quem é a cerca?” ou, no limite da erudição… “A última cerca é de quem?”. De cerca em cerca, jogaram várias gerações.
O atual cenário político brasileiro guarda algumas semelhanças com as senhas de jogos juvenis de outras gerações de acrianos. É possível, por exemplo, raciocinar que PT fez o anúncio. Forçado, mas fez.
Afastado do comando das políticas públicas do país, saiu do campo majoritário e teve que anunciar “A cerca é minha!”. A expressão saiu como um misto de grunhido e ranger de dentes, em tom de ameaça, querendo significar “vamos denunciar em todo o país e ao mundo o ‘golpe à democracia’, o ‘golpe institucional’, o ‘golpe’, ‘o golpe’, ‘o golpe’”. Palavra curta, de entendimento fácil.
O PT calculou que a palavra e a ideia seriam adotadas facilmente pelo povo. O cálculo petista foi errado, vê-se. Não apenas porque as duas Casas do Congresso disseram “sim” ao prosseguimento do processo de impeachment, mas porque a classe trabalhadora (sem estar vinculada a sindicatos) não saiu em defesa da presidente afastada. A tese do “golpe” não dialoga com as demandas do trabalhador. Este, inclusive, ignorou as passeatas, contra e pró-impeachment.
Ignorou, por quê? Por que defendia Lula? Por que defendia Dilma? Por que defendia o PT? Qual nada! Ele não saiu às ruas porque está preocupado com duas coisas: ou está a procura de emprego ou se segura como pode no emprego que ele ainda tem. É essa a preocupação do trabalhador.
Lula virá ao Acre. Certamente, trará a companheira que se diz injustiçada. Vai falar para os já convencidos de sempre. Será mais uma missa cuja ladainha terá o roteiro Brasileia/Wilson Pinheiro/Onça que bebeu água/Prisão pela Lei de Segurança Nacional/Xapuri/Chico Mendes/Fusca do Nilson Mourão/ Lhé/ Jorge Viana. Talvez, a única novidade seja a exclusão de Marina Silva da trama.
Nenhum partido político abre mão de poder. Essa é uma regra basilar. O PT, portanto, quer continuar no jogo. É legítimo que queira. No entanto, uma constatação é necessária ser feita: o que faz com que a classe trabalhadora não vislumbre no partido um instrumento de emancipação que um dia simbolizou é essa incapacidade de, “esperando a cerca”, assumir estratégias erradas e criar novas jogadas. O PT quer o jogo pelo jogo.
A prova mais transparente disso foi a lembrança, aos 45 do segundo tempo, de que os movimentos sociais existiam. E estes, viciados, deixaram-se manipular. E vão continuar a serem usados. Fala-se agora em “união das esquerdas”. O que seria isso mesmo, hein? Essa pauta está longe da rotina do trabalhador, mais simples e muito mais pragmática.
O presidente interino, aqui no Acre, foi chamado de “bandido”. Até peça publicitária oficial foi produzida, tratando sobre o golpe de Temer. No paço, avaliou-se que isso seria prova de honradez e fidelidade.
Entrar de novo na partida para jogar do mesmo jeito não vale a pena. O jogo pelo jogo não vale a pena. “E quem está jogando agora, joga diferente?”, perguntaria um revolucionário de boteco, apressado como sempre. Sabemos que não. O PMDB tem jogadas conhecidas, manjadas. O Brasil parece um caso de jogo perdido. Mas, sempre terá alguém disposto a dizer “A cerca é minha!”.
Por enquanto, veio das instâncias de controle a única esperança de gol, com destaque para o Ministério Público Federal, remontando à figura do procrador Geral da República, Antônio Fernando (aquele que usou a expressão “Ali Babá e os 40 ladrões”) e culminando com o colega Janot. Além do MPF, a Justiça Federal precisa ser lembrada. Os destaques do jogo são esses. A Política, por enquanto, precisa treinar mais. Está longe do gol. Mas, há esperança. Tem que haver. Só não se sabe com quais jogadores. O país precisa descobrir.



