Ele aparece no cansaço que não passa, na irritação constante, na dificuldade de dormir, na sensação de viver no automático. Antes de se tornar diagnóstico, ele vira rotina e, muitas vezes, é tratado como algo “normal”.
É justamente para romper com essa naturalização do sofrimento emocional que surge o Janeiro Branco, mas do que uma campanha mensal, o Janeiro Branco é um movimento social de conscientização em saúde mental, existente desde 2014. O Instituto Janeiro Branco nasceu a partir do êxito da Campanha Janeiro Branco, hoje reconhecida como o maior movimento social do mundo dedicado à Saúde Mental (janeirobranco.org.br).
Os dados sistematizados pelo referido Instituto ajudam a tornar visível aquilo que muitas pessoas sentem, mas não conseguem nomear. E muitas vezes aquilo que é sentido como individual é bem coletivo e crescente.
Mais de 1 bilhão de pessoas no mundo convivem com algum transtorno mental, e uma em cada oito apresenta sintomas clínicos de ansiedade, depressão ou estresse crônico. O bem-estar psicológico global permanece abaixo dos níveis anteriores a 2020, mostrando que os impactos emocionais recentes ainda não foram superados
No Brasil, o cenário é alarmante. Em 2022, foram registradas 16.439 mortes por suicídio, a maior taxa da série histórica. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio já figura entre as principais causas de morte. Em 2024, os afastamentos por transtornos mentais ultrapassaram 440 mil casos, impulsionados principalmente por quadros de ansiedade, depressão, burnout e transtornos relacionados ao estresse
Esses números não indicam fragilidade individual. Revelam um adoecimento psicológico coletivo, atravessado por desigualdades sociais, sobrecarga crônica, violência, exclusão e precarização das condições de vida e trabalho.
De acordo com os dados reunidos e sistematizados pela campanha Janeiro Branco, alguns grupos populacionais apresentam maior vulnerabilidade ao adoecimento psicológico, não por características pessoais, mas pelas condições sociais, econômicas e relacionais às quais estão expostos
Entre os grupos mais vulneráveis, destacam-se:
- Crianças e adolescentes, especialmente aqueles expostos à violência, negligência, bullying, pobreza e instabilidade familiar;
- Jovens, atravessados por pressão por desempenho, insegurança quanto ao futuro, desemprego e dificuldades de pertencimento;
- Mulheres, que apresentam maior prevalência de ansiedade e depressão, frequentemente associadas à sobrecarga de trabalho, violência de gênero e desigualdade social;
- Pessoas idosas, muitas vezes marcadas por solidão, perdas sucessivas, adoecimento físico e invisibilidade social;
- Pessoas negras e populações periféricas, mais expostas ao racismo estrutural, violência, insegurança econômica e acesso desigual a serviços de saúde;
- Povos indígenas e comunidades tradicionais, afetados por violações de direitos, perda de território, conflitos ambientais e desestruturação cultural;
- População LGBTQIA+, com taxas elevadas de depressão, ansiedade e ideação suicida, associadas à discriminação, rejeição familiar e violência simbólica ou física;
- Pessoas em situação de vulnerabilidade social, como desempregados, trabalhadores informais e pessoas em situação de rua;
- Pessoas com doenças crônicas, deficiências ou sofrimento físico prolongado, que convivem com dor, limitações funcionais e estigmatização.
Ainda trazendo sistematizados da campanha Janeiro Branco, alguns grupos profissionais também apresentam maior vulnerabilidade ao adoecimento mental, seja pelo nível de exposição emocional, risco, responsabilidade ou precarização das condições de trabalho. Entre eles, destacam-se:
- Profissionais da saúde (médicos, enfermeiros, técnicos, psicólogos), expostos a sofrimento humano intenso, longas jornadas e alta responsabilidade;
- Profissionais da educação, especialmente professores, submetidos à sobrecarga emocional, violência simbólica e falta de reconhecimento;
- Forças de segurança pública (policiais, bombeiros, agentes penitenciários), com alto risco, contato frequente com violência e pressão institucional;
- Trabalhadores do transporte, como motoristas profissionais e mototaxistas, expostos a estresse contínuo, jornadas extensas e risco físico;
- Trabalhadores de aplicativos e informais, marcados por instabilidade financeira, ausência de proteção social e isolamento;
- Assistentes sociais e trabalhadores do cuidado, que lidam cotidianamente com pobreza, violações de direitos e sofrimento extremo;
- Jornalistas e profissionais da comunicação, submetidos à pressão por resultados, exposição constante a notícias traumáticas e instabilidade laboral.
Reconhecer esses grupos e profissões não significa rotular, mas assumir que o cuidado em saúde mental precisa ser equitativo, direcionando mais atenção a quem enfrenta maiores riscos.
A própria percepção social mudou. Em 2025, 54% dos brasileiros passaram a considerar a saúde mental o maior problema de saúde do país. Esse dado não aponta exagero, mas amadurecimento coletivo .
Diante disso, não basta reconhecer o problema. É preciso agir.
No plano individual
As evidências científicas indicam que pequenas ações consistentes fazem diferença:
- Manter rotinas de sono, alimentação e atividade física;
- Reduzir o uso excessivo de telas, especialmente à noite;
- Cultivar relações de apoio e vínculos seguros;
- Buscar psicoterapia baseada em evidências, mesmo fora de momentos de crise;
- Procurar ajuda profissional antes do esgotamento extremo.
Cuidar da mente não é esperar o colapso. É reconhecer limites com responsabilidade.
No plano das organizações
O ambiente de trabalho é hoje um dos principais espaços de adoecimento e também pode ser um espaço de proteção:
- Metas realistas e jornadas sustentáveis;
- Políticas de segurança psicológica e prevenção ao assédio;
- Acesso a apoio psicológico institucional;
- Lideranças capacitadas para lidar com pessoas, não apenas com resultados.
Organizações saudáveis não adoecem pessoas para produzir resultados. Produzem resultados porque cuidam de pessoas.
No plano das políticas públicas e da cidadania
A ciência é clara: saúde mental não se resolve apenas no nível individual.
Por isso, o ano de campanha eleitoral é uma oportunidade estratégica para que a sociedade observe, questione e cobre dos candidatos propostas concretas para a saúde mental, especialmente para os grupos mais vulneráveis.
É fundamental perguntar:
- Como o candidato pretende fortalecer a atenção básica e os CAPS?
- Há propostas específicas para crianças, jovens, idosos e populações vulnerabilizadas?
- Existe investimento em prevenção nas escolas e nos territórios?
- A saúde mental está integrada às políticas de educação, trabalho, assistência social e direitos humanos?
- Há compromisso com financiamento contínuo e combate ao estigma?
Cuidar da saúde mental também é um ato político no sentido mais ético da palavra. Significa escolher projetos que protejam a vida, promovam dignidade e reconheçam o sofrimento humano.
Talvez a pergunta mais importante não seja “quanto você aguenta?”, mas:
em que condições estamos vivendo, trabalhando e escolhendo nossos representantes?
Psicologicamente, amadurecer é compreender que saúde mental não é luxo, não é modismo e não é fraqueza.
É necessidade básica, direito coletivo e urgência do nosso tempo.




