Moradores da Comunidade Marielle Franco bloquearam um trecho da BR-317, no sul do Amazonas, em protesto contra uma ação do Ibama que resultou na inutilização de um trator de esteira. A comunidade fica na região de Boca do Acre, em uma área de conflito conhecida como Fazenda Palotina.
A manifestação ocorreu após uma fiscalização ambiental realizada no domingo (17), quando uma equipe do Ibama flagrou um trator abrindo uma área de desmatamento ilegal na região de Boca do Acre. Segundo o órgão, a área não possui Cadastro Ambiental Rural (CAR) e não havia autorização para a supressão da vegetação.
As informações sobre a mobilização foram repassadas por Rosana Nascimento, coordenadora da Faseasa, Federação das Cooperativas e Associações, que acompanha associações e trabalhadores rurais na região. De acordo com ela, moradores afirmam que a ação atingiu trabalhadores da comunidade e cobram a presença de órgãos públicos para discutir a situação.

O Ibama, por outro lado, informou que a fiscalização tinha como alvo uma área previamente identificada por alertas de desmatamento enviados por equipes de Brasília. No local, os fiscais encontraram dois trabalhadores realizando a abertura da área.
Segundo o relato da fiscalização, os dois trabalhadores foram questionados sobre quem seria o mandante do serviço e quem operava a máquina. Eles teriam informado apenas o apelido de uma pessoa terceirizada, conhecida como “gato”, que teria contratado o trabalho, mas não repassaram nome completo, endereço ou contato.
O órgão afirmou ainda que os trabalhadores não foram detidos, imobilizados ou colocados dentro de viaturas. De acordo com o Ibama, eles foram apenas questionados e liberados após a ação.
Trator foi inutilizado
Ainda segundo o Ibama, a equipe decidiu inutilizar o trator porque não havia condições de remover o maquinário para um local seguro. Os fiscais também avaliaram que, após a saída da equipe, o equipamento poderia continuar sendo usado na prática de crime ambiental.
A medida, de acordo com o órgão, foi adotada com base no artigo 111 do Decreto nº 6.514/2008, que permite a destruição ou inutilização de equipamentos usados em infrações ambientais quando a manutenção ou o uso deles representar risco significativo ao meio ambiente.
Área de conflito
A Comunidade Marielle Franco está localizada entre Boca do Acre e Lábrea, no sul do Amazonas, próximo à divisa com o Acre. A região aparece há anos em denúncias e disputas relacionadas à posse da terra, desmatamento, ameaças e conflitos entre trabalhadores rurais e representantes ligados à Fazenda Palotina.

Em 2025, o Incra informou que havia destinado áreas para reforma agrária no sul do Amazonas e citou a implantação do projeto Marielle Franco. Segundo o órgão, a área abrangia a Fazenda Palotina e estava relacionada a uma gleba que não possuía titularidade formal nem havia sido anteriormente arrecadada e destinada pela União.
A Comissão Pastoral da Terra também acompanha a situação da comunidade e já registrou denúncias de vigilância, ameaças e bloqueios de acesso na região. Em publicações anteriores, a entidade informou que famílias da Marielle Franco ocupam uma área da antiga Fazenda Palotina e cobram segurança para permanecer no local.
O novo protesto na BR-317 ocorre em meio a esse histórico de tensão. De um lado, moradores e entidades ligadas aos trabalhadores rurais afirmam que a comunidade vive sob pressão e que pequenos agricultores acabam sendo responsabilizados em uma área marcada por conflito fundiário. De outro, o Ibama sustenta que a ação teve como objetivo coibir desmatamento ilegal em área sem autorização.
A situação deve continuar sendo acompanhada por órgãos ambientais, fundiários e de segurança pública.



