A resistência ao sistema e a luta pelo direito de ser, assim é marcada a história da capoeira no Brasil. Celebrado no dia 3 de agosto o Dia do Capoeirista decorrente da Lei nº 4.649, de 7 1985 ¹, do governo do estado de São Paulo, desde a então data, vários estados do país oficializam essa data.
Atualmente, a Capoeira é registrada desde 2008 como Patrimônio Cultural Imaterial, e de acordo com o Iphan, desde 2014, tem o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Trazendo uma visibilidade mundial para uma cultura silenciada pelo racismo. Os caminhos para a patrimonialização tiveram o trabalho do Mestre Bimba e do Mestre Pastinha na criação de escolas de capoeira e a mudança da visão perseverante desde a época do império sobre a prática e também sobre a transmissão de saberes dos mestres contemporâneos.
Nesta coluna, teremos como base teórica principal, uma releitura do capítulo 1 do livro Fontes e práticas historiográficas: entre a teoria e o método capítulo denominado de: Capoeira no Acre: Representações, Trajetórias e Desafios da Patrimonialização Cultural.² Onde apresenta a capoeira, enquanto expressão cultural afro-brasileira, que constitui um dos mais significativos símbolos de resistência da história e da cultura negra no Brasil.
Oriunda dos processos de resistência dos africanos escravizados e seus descendentes, no Brasil, ela incorpora elementos de luta, dança, música e religiosidade, configurando-se como prática multifacetada e profundamente enraizada nas experiências de enfrentamento à violência colonial e ao racismo estrutural.
Com o intuito de evitar a suspeita dos senhores de engenho, que proibiam a prática de qualquer arte marcial ou atividade esportiva entre os escravizados, os praticantes da capoeira adaptaram seus movimentos incorporando elementos coreográficos e musicais. Essa estratégia permitiu camuflar a essência da luta sob a aparência de uma dança ⁴. Após a abolição da escravatura, a prática continuou sendo vista como subversiva e apenas em 1937 deixou de ser considerada criminosa pelo Código Penal brasileiro.
A prática cultural, ou dança, resistiu séculos de marginalização, nascendo dentro das Senzálas uma luta em formato de dança para disfarçar os Senhorios, destaca o texto, que mesmo após a abolição da escravidão em 1888 ela continuou sofrendo violências estatais, sendo associados a leis como vadiagem e a marginalidade. A Capoeira ou Capoeiragem, é marcada como uma das primeiras e mais fortes formas de resistência do Brasil.
A prática foi criminalizada pelo Decreto Nº 847, de 11 DE outubro de1890⁵, onde em seu art. 402 dizia: “Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal.Portanto, seus praticantes eram abordados como ‘vadios’ marcando essa prática cultural tanto estigmatizada e marginalizada nesses centros urbanos, estigmatizados pela a ginga, a dança e a mandinga resistiram e se transformaram na marca de resistência do povo negro brasileiro.
Ademais, a proibição da capoeira, bem como de outras manifestações culturais afro-brasileiras, configurou a institucionalização do racismo estrutural na legislação brasileira. Longe de constituir uma medida neutra de segurança pública, a criminalização dessas práticas formalizada no Decreto de 1890, atuou como um mecanismo de controle social e perseguição direcionado à população negra no período pós-abolicionista.
Jogando capoeira ou Dança de Guerra

A Capoeira, uma arte marcial de origem africana, tem registros da sua prática no Brasil desde o século XVIII no Rio de Janeiro , Salvador e Recife . Devido ao crescimento das cidades, mais escravizados foram trazidos para os centros urbanos e o aumento da vida social nas cidades tornou a capoeira mais proeminente e permitiu que ela fosse ensinada e praticada entre mais pessoas.
Como a capoeira era frequentemente usada contra a polícia, o governo tentou suprimir a arte marcial e estabeleceu punições físicas severas para sua prática deste 1821, porém a arte marcial africana ganhou adeptos entre a elite brasileira e imigrantes portugueses.
Posteriormente, o Brasil, na era Vargas, buscava um símbolo para a construção de uma identidade nacional, nessa época então, a capoeira passou a ser legalizada, assim como o samba e demais manifestações afro-brasileiras. No entanto, a ela só foi aceita pela elite quando o mestre Bimba ⁷ reformula sua composição, tirando alguns elementos ligados a religiões de matriz africanas. Embora legalizada nesse período, ela só poderia ser praticada em academias, atraindo então o público de elite, que não via mais como algo marginalizado, mas sim como símbolo da identidade nacional.
No Acre não foi diferente, texto aponta que mesmo antes do Estado ser anexado ao restante do país em 1903, já haviam movimentos da prática na região, oriunda de pessoas que vieram mediante ao ‘primeiro surto da borracha’ na região, em sua grande maioria ex-escravizados que buscavam dignidade e trabalho, muitos desses indivíduos foram posteriormente associados a conflitos sociais ocorridos nas primeiras décadas do século XX, como a Revolta da Vacina (1904) e a Revolta da Chibata (1910).
Essas pessoas eram enviadas para essa região, segundo o texto, como uma forma de punição por suas infrações ou associadas a uma falta de higiene nesses locais. A recepção desses grupos no Estado se fez interessante, pois a partir disso, o Acre que era afastado dos grandes centros urbanos recebia uma nova prática cultural para ser adicionada em sua identidade.
O primeiro registro da prática de fato, começa em 1970, com a construção da ponte “Juscelino Kubitschek”, que marca a chegada de trabalhadores vindos da Bahia para trabalhar na edificação, marcando assim a chegada de um dos grandes nomes da Capoeira no Acre: Mestre Rodolfo. A maioria desses moradores se assentou no bairro em que conhecemos hoje por “6 de agosto”, nesse período, a prática estava restrita apenas aos fundos de quintais e terreiros.⁸
Com sua chegada ao Acre, Mestre Rodolfo promoveu uma série de transformações que contribuíram para consolidar a capoeira como uma prática sistematizada, com características de escola, seu trabalho foi decisivo para a institucionalização da capoeira no Estado, não apenas por organizar treinamentos regulares, mas também por incentivar amplamente a participação da comunidade.
Atualmente, a capoeira é considerada umas das maiores manifestações culturais brasileiras e é reconhecida mundialmente como prática que une o esporte e a arte. A música é um dos elementos que distingue esta modalidade de outras lutas. Inclusive, é essencial para que o praticante seja considerado um capoeirista completo.
Além dos movimentos corporais, os praticantes devem também saber tocar instrumentos de origem afro-brasileira como o atabaque, o agogô e o berimbau. Este último é o principal dos instrumentos e também o mais famoso e mundialmente associado à capoeira. Existem ainda diferentes maneiras de toques, como o “toque de cavalaria”, que era utilizado para avisar aos capoeiristas que a polícia estava se aproximando. Esse último, simulava o caminhar dos cavalos da polícia, quando o mestre tocava, todo mundo já sabia que a roda tinha que ser desfeita.
O dia 3 de Agosto, celebrado o Dia do Capoeirista, um dia que reforça a importância da prática cultural, a ginga mantém viva a memória de um povo marginalizado, discriminado historicamente, mas transformou a dor de viver na senzala aprisionados em arte, viva ao capoeirista, viva a Capoeira.

Sara Thalita Monteiro Cordeiro– Bacharelanda em História pela Universidade Federal do Acre (Ufac). Estagiária do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), atuante do projeto Institucional “Diplomar é resistir: ações pedagógicas e institucionais pela permanência com êxito”. Atua como bolsista no Programa Institucional de Iniciação Científica (Pivic/Ufac), com a pesquisa intitulada: Devoção em patrimônio a Festa de Sebastião em Xapuri/ Acre: (1903 a 2023), participante do projeto intitulado: Discursos Eugênico Nas Amazônias. Membra do grupo de pesquisa ” Narrativas transfronteiriças: histórias, identidades, linguagens e culturas nas/das Amazônias”, integrante do grupo de pesquisa/ Estudo, história, Memória, Patrimônio- Ufac. Escritora da coluna “Escavando História”, na Agazeta.Net.




